A busca por segurança energética, especialmente para uma nação sob bloqueio e com recursos escassos, é um imperativo de sobrevivência, não uma mera escolha estratégica. Cuba, ao lançar sua Estratégia Nacional para a Transição Energética, e ao investir pesadamente na energia solar fotovoltaica, apresenta uma resposta notável a essa necessidade. A instalação de mais de mil megawatts de capacidade em pouco tempo e a visão de uma matriz significativamente renovável até 2030s e 2050 são feitos que, em si, merecem consideração atenta. O objetivo de reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, utilizando um recurso natural abundante e limpo, é uma aspiração legítima, que ecoa o princípio da correta gestão dos bens da criação.
Contudo, a nobreza de um fim não santifica todos os meios, nem autoriza a opacidade na condução do processo. A narrativa oficial de um “heroísmo” cubano, capaz de superar o “bloqueio, sem dinheiro e sem recursos”, embora cativante, levanta questões fundamentais sobre a veracidade e a justiça que governam essa transição. A ausência de dados transparentes sobre os custos totais desses investimentos maciços, as fontes específicas de financiamento (incluindo a natureza exata dos acordos com parceiros como a China), e os termos e condições desses compromissos, impede uma avaliação honesta e completa. Um projeto de tamanha envergadura, apresentado como questão de segurança nacional, deveria ser acompanhado da clareza que o povo, o verdadeiro titular da soberania, merece.
É aqui que a doutrina nos adverte sobre a diferença entre povo e massa, conceito caro a Pio XII. Um povo consciente e partícipe exige informações; a massa é mobilizada por slogans e narrativas simplificadas. A energia solar, que banha a ilha com a luz do dia, não pode, paradoxalmente, ser a bandeira de uma transição envolta em sombras informacionais. A sustentabilidade financeira a longo prazo dos parques solares, a gestão da intermitência da rede com baterias — um desafio técnico e econômico de proporções gigantescas —, e a real participação de setores empresariais e consumidores individuais, são temas que demandam mais do que declarações otimistas e genéricas.
A veracidade é a virtude cardeal para a vida pública, um alicerce sem o qual nenhuma estrutura, por mais imponente que pareça, pode se manter de pé. A retórica do “heroísmo” corre o risco de mascarar as dependências reais, como as que podem surgir dos financiamentos externos, e de desviar o foco de possíveis ineficiências internas na gestão do sistema elétrico. O fato de os apagões ainda serem uma realidade frequente na ilha, enquanto se celebra o aumento da capacidade instalada de energia solar, aponta para uma desconexão entre a narrativa e a experiência concreta da população. A justiça exige que os benefícios e os ônus da transição energética sejam equitativamente distribuídos e que o custo, tanto ambiental quanto econômico, seja explicitado. O descarte de painéis e baterias, por exemplo, é um problema real que não desaparece com a retórica da sustentabilidade.
Em suma, a transição energética cubana pode ser uma via necessária para a autonomia da nação, mas a verdadeira solidez de qualquer caminho reside na robustez de seus fundamentos, e não na intensidade de seu brilho promocional. Como Chesterton bem compreendeu, a sanidade não está em negar as dificuldades ou em adornar a realidade com um otimismo infundado, mas em confrontá-la com a clareza e a integridade que a verdade exige. A segurança da nação se constrói não apenas com megawatts, mas com a honestidade da informação, com a participação real de seus cidadãos e com a responsabilidade de seus governantes.
Uma transição que se pretenda sustentável e justa deve almejar não apenas uma matriz energética limpa, mas uma governança transparente, capaz de iluminar tanto os sucessos quanto os desafios, garantindo que o bem da cidade não seja apenas um eco distante, mas uma realidade palpável para cada um de seus habitantes.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.