Cuba: Transição de Poder, Liberdade e o Risco de Nova Tutela

Washington e Havana negociam a transição em Cuba. Dilemas da pressão econômica e diálogo com a elite. Será libertação ou nova tutela?

🟢 Análise

A notícia de que Washington e Havana dialogam sobre uma transição de poder em Cuba, e a veemente declaração de Donald Trump de que a ilha está “em seus últimos momentos de vida como era”, provocam tanto um vislumbre de esperança quanto uma sombra de inquietação. Há seis décadas, o regime comunista cubano, uma farsa de utopia que se transfigurou em prisão, impede partidos de oposição e asfixia a alma de seu povo. A ânsia por liberdade, por uma Cuba onde a dignidade da pessoa humana não seja mera retórica revolucionária, é justa e urgente. Contudo, o caminho escolhido para a libertação, pavimentado com pressão econômica esmagadora e negociações de gabinete com a elite do regime, não raro parece tropeçar na prudência e na caridade.

É salutar que se evite a intervenção militar, sempre um último recurso e fonte de males imprevisíveis. Mas a estratégia de “tornar Cuba dependente de Washington” através de um cerco econômico tão severo quanto uma quarentena sobre o petróleo, levanta sérias questões morais. A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na lei natural, clama pela solidariedade e pela proteção dos mais vulneráveis. Quem, de fato, sofre com a escassez de energia e alimentos? Não é primariamente a cúpula do poder, mas a população comum, o povo cubano que já carrega o fardo de um sistema falido. Chamar tal medida de “punição coletiva”, como fez um vice-ministro cubano, não é apenas retórica defensiva; é um alerta sobre a real consequência de um método que, sob o pretexto de derrubar tiranos, acaba por esmagar a esperança e a subsistência de inocentes.

A promessa de uma “transição negociada” com elementos da estrutura de poder, como o neto de Raúl Castro, embora aparentemente pragmática para evitar o caos, flerta perigosamente com a ilusão. É possível esperar uma abertura democrática genuína quando os arquitetos de um sistema totalitário, ou seus herdeiros diretos, são os principais interlocutores? São Tomás de Aquino nos ensina que o bem comum é a finalidade da política e da lei. Um regime que por décadas baniu a pluralidade política e esmagou a sociedade civil não pode ser redimido por um simples arranjo de poder entre as elites. Chesterton teria notado o paradoxo: buscar a liberdade do povo negociando com os próprios carcereiros, correndo o risco de apenas substituir a jaula por uma gaiola ligeiramente maior, mas ainda assim alheia à verdadeira autodeterminação.

A Casa Branca, ao evocar a “derrubada de Maduro na Venezuela em janeiro” como modelo – um evento cuja estabilidade e sucesso ainda são objeto de profundo debate e persistente crise humanitária –, revela um otimismo que a história raramente justifica. Regimes autoritários, como o cubano, possuem uma resiliência surpreendente, e a pressão externa, por vezes, solidifica a narrativa anti-imperialista, unindo o povo contra um inimigo comum, em vez de fomentar a dissidência interna. A ausência de partidos de oposição por seis décadas não significa um vácuo neutro, mas um terreno fértil para a instabilidade ou para a ascensão de novas formas de dominação, caso a transição não seja cuidadosamente planejada para empoderar a sociedade, e não apenas o Estado.

A Igreja Católica, presente em Cuba com sua missão de caridade e voz profética, tem o dever de recordar que a libertação de um povo é mais do que a mudança de uma bandeira ou de um líder. É a restauração da dignidade, da liberdade de consciência, da subsidiariedade que permite às comunidades e famílias florescerem, e da solidariedade que garante a justiça social. A ajuda humanitária americana canalizada pela Igreja, embora um gesto positivo, não pode ser obscurecida por uma estratégia que, em sua ânsia por uma solução rápida, arrisca infligir ainda mais sofrimento aos que já anseiam por verdadeira liberdade.

O regime cubano deve cair, não há dúvida moral sobre isso. Mas o modo como se busca essa queda definirá a alma da nação que surgirá de suas ruínas. A busca pela “estabilidade” é legítima, mas não pode justificar a punição dos inocentes ou a perpetuação de estruturas de poder que apenas mudam de nome. A liberdade autêntica é forjada na verdade e na caridade, e não pode ser imposta por decreto econômico, nem comprada em negociações secretas, sob pena de trocarmos um despotismo familiar por uma dependência externa, uma libertação por uma nova tutela. Pois a ironia da história é que, às vezes, na pressa de libertar um povo, acabamos por merely mudar o seu senhorio.

Fonte original: InfoMoney

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados