A cena diplomática, por vezes, mais se assemelha a uma peça de teatro onde os protagonistas formais atuam sob o olhar atento de diretores ocultos. Em Cuba, a recente abertura de diálogo com os Estados Unidos, em meio à mais grave crise econômica e energética das últimas três décadas, revela não apenas a urgência pragmática, mas também a persistência de uma estrutura de poder que desafia os princípios mais básicos de justiça e veracidade pública. Quando o presidente Díaz-Canel anuncia conversas, é a presença silenciosa de Raúl Guillermo Rodríguez Castro, o “Raulito”, neto e guarda-costas do ex-presidente Raúl Castro, que fala mais alto sobre as verdadeiras engrenagens do poder na ilha.
Raulito, sem cargo oficial no governo, é uma figura que personifica a opacidade e a dimensão familiar do poder cubano. Criado em um ambiente de privilégios e militares, alheio às penúrias cotidianas que afligem o povo, ele é o elo informal, o mensageiro das sombras. Sua influência, segundo a própria escassez de informações oficiais, emana diretamente da proximidade com o avô, que, aos 94 anos, muitos analistas creem ainda deter as rédeas de decisão. Esse cenário não apenas questiona a legitimidade da representação diplomática, mas também subverte a noção de uma transição para uma nova geração de líderes ou para uma governança transparente. O que se desenha não é um avanço na direção do Estado de direito, mas a perpetuação de um modelo onde a família se confunde com o poder estatal, e os conglomerados militares controlam amplos setores da economia, como outrora dirigia o pai de Raulito, o general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja.
Para a Doutrina Social da Igreja, a autoridade legítima não pode ser um escudo para interesses particulares ou para a manutenção de privilégios dinásticos. Ela deve, por sua própria natureza, ser ordenada ao bem comum, promover a participação do povo e não a dominação de uma massa passiva, como ensinava Pio XII. A figura de Raulito nas mesas de diálogo, por mais que a necessidade de comunicação seja inegável diante do sofrimento humanitário, levanta uma questão de justiça: a quem serve essa conversa? É para aliviar o peso que oprime o povo cubano ou para estabilizar um regime que se blindou contra a transparência e a accountability?
A preocupação de setores da diáspora cubana e de congressistas americanos é legítima: há o risco real de que o diálogo, ao engajar-se com essa elite não eleita e privilegiada, valide um sistema que não oferece canais claros para a sucessão democrática ou para a participação cívica genuína. Não se pode reduzir a complexidade da crise cubana a uma solução puramente técnica ou diplomática, ignorando as profundas raízes políticas e a persistência de um poder dinástico sob a fachada institucional. A revolução, que prometeu redimir o homem comum da opressão, parece ter parido uma estrutura onde o poder real se esconde nas alcovas familiares e nas engrenagens militares, enquanto a cena oficial é ocupada por figuras de um teatro político previsível. A sanidade contra essa loucura lógica das ideologias exige que se veja o que de fato é.
A verdadeira solução para Cuba não se resume a acordos que estabilizem uma oligarquia, mas a um caminho que leve à veracidade na governança e à justiça nas relações sociais e econômicas. O pragmatismo, embora possa abrir portas em momentos de crise, não pode ser um pretexto para ignorar a primazia dos princípios morais. O diálogo é uma ferramenta, mas seu valor moral depende dos seus fins e da honestidade de seus interlocutores. Um acordo que não exija ou promova uma maior transparência, a democratização do acesso ao poder e a prestação de contas à população cubana corre o risco de ser um mero arranjo para a sobrevivência de um sistema, e não um passo rumo à liberdade e prosperidade genuínas.
A questão não é, portanto, se os Estados Unidos devem conversar, mas com quem e sob quais condições. A manutenção de canais de comunicação é crucial, mas a forma como essa comunicação se dá, com a proeminência de figuras sem cargo oficial mas com evidente poder de fato, expõe as feridas abertas de um sistema ainda aprisionado em sua própria opacidade. O real desafio é transformar o palco das sombras em uma arena de luz, onde a voz do povo, e não o sussurro dos parentes, seja a verdadeira música da nação.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados