Há algo intrinsecamente paradoxal na proclamação unilateral de um diálogo que se diz buscar a paz. Havana, pela voz de seu presidente, Miguel Díaz-Canel, anuncia que conversações “sensíveis” com os Estados Unidos estão em curso, visando superar diferenças e promover a cooperação. Uma declaração que, à primeira vista, poderia inspirar esperança, não fosse pela penumbra que a envolve: unilateral, desprovida de detalhes sobre os interlocutores americanos, sem confirmação da contraparte, e envelopada na retórica da “política consistente da Revolução Cubana”. Não se trata de negar o valor da diplomacia, mas de inquirir sobre a natureza de uma paz anunciada em segredo e por uma só das partes. O diálogo é uma virtude cristã, a via para a caridade na verdade; mas um diálogo sem verdade plena e transparência mútua arrisca-se a ser mero ensaio de retórica para consumo próprio, não uma ponte sólida para o bem comum.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na lei natural e na reta razão de São Tomás de Aquino, ensina que a paz duradoura não é a mera ausência de conflito, mas o fruto da justiça e da caridade. Quando uma das partes em um diálogo crucial esconde os detalhes e os protagonistas, ao mesmo tempo em que publicamente define as condições sob as quais este “diálogo” deve ocorrer – notadamente, “o respeito aos sistemas políticos de ambos os Estados, bem como à soberania e autodeterminação” –, levantam-se questões sobre a genuína disposição para a reciprocidade. Ora, para um regime que, por décadas, tem sido acusado de flagrantes violações dos direitos humanos e de supressão das liberdades fundamentais, a insistência no “respeito aos sistemas políticos” pode ser lida como uma blindagem à discussão de problemas estruturais que afetam a dignidade da pessoa humana, cerne inegociável da moral cristã. O respeito devido às nações não se confunde com a anuência a sistemas que não garantem a liberdade de consciência e a participação política de seus cidadãos.
Chesterton, em sua aguda percepção do absurdo moderno, nos lembraria que o homem que clama por respeito à sua fortaleza enquanto se recusa a abrir as janelas para a luz do dia não busca a compreensão, mas a conveniência. Que “fatores internacionais” facilitaram estes intercâmbios, como Díaz-Canel sugeriu, permanece em um silêncio eloquente, reforçando a imagem de um processo que, longe de ser um sincero esforço para o entendimento, serve a fins estratégicos de um governo que precisa aliviar pressões externas e legitimar sua posição interna. A prudência, ensina-nos Santo Tomás, exige que se examine não apenas o ato em si, mas as circunstâncias e as intenções. Sem transparência, as intenções se tornam turvas, e a confiança, que é o cimento de qualquer relação saudável, seja entre indivíduos ou nações, não pode florescer.
A unilateralidade do anúncio põe em risco, antes de tudo, o próprio povo cubano. As expectativas de alívio econômico ou de uma maior abertura política, se forem frustradas por um diálogo que se revele superficial ou estratégico, apenas aprofundarão o desespero de uma população já castigada. Para a oposição interna e os exilados, que tanto anseiam por justiça e liberdade, tais “conversações” podem soar como uma legitimação tácita de um regime que insiste em ignorar suas vozes. O bem comum, pedra angular da Doutrina Social, não é um jogo de soma zero onde o ganho de um lado significa a manutenção da privação para outros. Ele exige que as soluções busquem o florescimento integral de todos os membros da sociedade, e não a perpetuação de um status quo ideológico.
Não se trata de negar a importância de manter canais de comunicação abertos. A Igreja sempre encoraja o diálogo, mesmo com aqueles de quem discorda profundamente, buscando a reconciliação e a paz. Mas este diálogo deve ser fundado na verdade e na honestidade. Ignorar as profundas fissuras ideológicas e as questões de direitos humanos sob o pretexto de “respeito mútuo” seria um reducionismo perigoso, um mero exercício de linguagem que evita os nós górdios da realidade. A verdadeira caridade diplomática exige que se coloque a dignidade da pessoa humana acima de qualquer consideração de conveniência política ou de soberania estatal que, na prática, signifique a subjugação dos indivíduos.
Portanto, enquanto o anúncio de um diálogo com os Estados Unidos pode ser um passo na direção certa, a forma como foi orquestrado — sem transparência, sem confirmação da contraparte e com condições que parecem limitar o escopo da discussão de temas cruciais — levanta sérias dúvidas sobre sua real intenção e seu potencial para produzir frutos duradouros. Não se constrói uma paz justa e recíproca com uma mão na mesa e a outra sob ela. Afinal, a verdade, como a luz, não se anuncia pela metade; ela simplesmente é, e só nela se encontra a real liberdade.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.