A escuridão, que em Havana já não é metáfora, mas uma crua realidade que engole ruas e hospitais, revela a face mais desumana da geopolítica. Há três meses, nenhum navio-tanque atraca nas costas cubanas com o combustível vital, e o resultado é uma paralisia que afeta a mais básica das necessidades: a vida. Não se trata de retórica, mas de fatos: apagões de trinta horas, a paralisação de dezenas de milhares de cirurgias, incluindo a de inúmeras crianças, e a redução ao osso de serviços essenciais como transporte e acesso à cesta básica. O corpo de uma nação, de seus quase onze milhões de habitantes, geme sob a privação de seu fluxo sanguíneo energético.
A causa imediata é o endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos, que não hesita em ameaçar com sanções qualquer país que ouse vender petróleo à ilha. O governo americano, sob a justificativa de que Cuba representa uma “ameaça incomum e extraordinária” por seus alinhamentos geopolíticos, parece esquecer que a dignidade humana não se submete a estratégias de poder. O uso da privação de recursos essenciais como ferramenta de pressão política, especialmente quando o fardo recai desproporcionalmente sobre a população civil mais vulnerável, é uma grave violação da justiça e da reta razão. Não há cálculo geopolítico que justifique o adiamento da cirurgia de uma criança, ou a escuridão que condena um idoso.
Contudo, a verdade, para ser plena, exige mais do que um olhar unilateral. O bloqueio externo é um fardo inegável, mas a ilha de Cuba não é um mero espectador passivo de sua própria desgraça. Se o embargo já dura 66 anos, é lícito questionar por que as estratégias internas de autossuficiência energética e diversificação econômica não construíram a resiliência necessária para absorver tais choques. A persistente dependência de um único fornecedor, a centralização excessiva e a carência de investimentos estruturais de longo prazo, tudo isso constitui uma vulnerabilidade sistêmica. A crítica de Pio XI à estatolatria e a um modelo que esmaga os corpos intermediários da sociedade ganha aqui um eco amargo: a falha em fortalecer o que está perto e diversificar as fontes de vida da sociedade torna o organismo mais suscetível à enfermidade, seja ela causada por um vírus externo ou por uma fraqueza interna.
É uma exigência da misericórdia, e não apenas da política, que a alocação de recursos em momentos de tamanha escassez seja transparente e primariamente voltada para mitigar o sofrimento humano. Como justificar que, apesar de anos de desenvolvimento de fontes renováveis (que chegam a 51% da energia diurna), o país ainda seja refém dos apagões de trinta horas e da paralisação de hospitais? A questão não é apenas de produção, mas de priorização, de um discernimento que coloque a vida e a saúde dos cidadãos acima de qualquer outra consideração.
O diálogo, que Havana afirma buscar, é a única ponte razoável. Mas ele não pode ser um jogo de aparências ou uma barganha de reféns. Exige de ambos os lados um reconhecimento da verdade dos fatos e uma disposição genuína de ceder em nome de um bem maior. Os alinhamentos geopolíticos, sejam eles com a Rússia, China e Irã, ou a manutenção de sanções draconianas com base em justificativas cada vez mais tênues, não podem ser mais importantes do que a vida de um povo. A justiça exige que o direito internacional seja respeitado, que a soberania das nações seja levada a sério, mas também que os direitos fundamentais do homem não sejam sacrificados no altar de ambições ideológicas ou estratégicas.
A crise cubana é, em última instância, um drama moral que nos força a olhar para o preço intangível da teimosia ideológica e da falta de imaginação para a solução real dos problemas. O juízo é claro: a dor dos cubanos, que se materializa nos hospitais sem luz e nas crianças à espera de cirurgia, é um lembrete pungente de que, sem caridade e justiça, a política não passa de uma dança macabra de sombras. A verdadeira dignidade de um Estado, e de sua política externa, mede-se não pela sua força de impor, mas pela sua capacidade de proteger e edificar a vida.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.