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Cuba: ‘Ajuda’ dos EUA, Coerção e Soberania Nacional

Crise em Cuba: 'ajuda' dos EUA revela coerção, ineficaz e ofensiva à soberania. O artigo defende autodeterminação e justiça, segundo a Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

A ilha de Cuba, assolada por uma escuridão que já não é metafórica, mas real nos lares e hospitais, vê-se a braços com a escassez mais aguda em décadas. A falta de combustível, o racionamento severo e o colapso de serviços básicos desenham um cenário de privação que castiga o povo. Nesse contexto de calamidade, o anúncio público de Miguel Díaz-Canel, confessando “intercâmbios” com autoridades americanas, soa não como um sinal de abertura, mas como o amargo reconhecimento de uma fragilidade existencial. De Washington, o presidente Donald Trump propõe-se a “ajudar os cubanos”, em um movimento que surge após a pressão que resultou na prisão de Nicolás Maduro e na interrupção do petróleo venezuelano para a ilha, seguido pelo bloqueio mexicano de remessas de combustível.

Contudo, a história, que não perdoa a leviandade dos atalhos, ensina-nos uma lição severa. Desde 1959, treze presidentes americanos tentaram, por diversos meios, alterar o status quo cubano. A estratégia de coerção máxima, sanções asfixiantes e ameaças de intervenção tem-se mostrado consistentemente ineficaz para gerar uma transição democrática autêntica. Pelo contrário, tem fortalecido o discurso nacionalista do regime, que, ao se apresentar como bastião da soberania contra um inimigo externo, desvia o foco das suas próprias e profundas falhas estruturais. A “ajuda” que se apresenta sob o martelo da pressão e da miséria não é, porventura, mais do que uma forma de coação, uma inversão da lógica que Chesterton, com sua sanidade paradoxal, denunciaria como a pretensão de curar um doente infligindo-lhe mais dor.

A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade inalienável da pessoa humana, estende seu olhar à soberania dos povos e à justiça nas relações internacionais. Leão XIII, em sua Rerum Novarum, e Pio XI, com a Quadragesimo Anno, sublinharam que a liberdade ordenada e a justiça social devem ser construídas de dentro para fora, pelo protagonismo de corpos intermediários e pela livre associação dos cidadãos, e não pela imposição de modelos ou pelo esmagamento da identidade nacional por potências externas. A voz do povo, distinto da massa amorfa e manipulável que Pio XII tanto alertou, deve ser ouvida e respeitada. Como bem observa a especialista Sara Kozameh, os cubanos, independentemente de suas inclinações políticas, são nacionalistas resolutos e rechaçam a intromissão em seus assuntos.

É neste ponto que a virtude da veracidade se torna um farol indispensável. O que são, de fato, esses “intercâmbios” noticiados? São eles um sinal de negociação de boa-fé, buscando uma ordem justa e o alívio do sofrimento, ou representam uma tática para forçar a capitulação de Havana, explorando sua vulnerabilidade energética? A solidariedade, um dos pilares da DSI, demanda que se carreguem custos em comum e que o mais forte não abandone ou oprima o mais fraco, mas que o auxilie a florescer por seus próprios meios. A proposta de “ajudar” cubanos que foram forçados a deixar o país, enquanto se aperta o cerco sobre os que lá permanecem, revela uma profunda incongruência moral, que disfarça interesses geopolíticos sob o manto da caridade.

A busca por uma solução para Cuba deve transcender a retórica de “libertação” imposta e o ciclo vicioso da retaliação. A verdadeira liberdade não pode ser um produto de laboratório estrangeiro, nem uma mercadoria a ser trocada pela soberania nacional. Um caminho de justiça e ordem implica em reconhecer o direito do povo cubano de definir seu próprio futuro, forjar suas instituições e construir sua prosperidade a partir de suas próprias bases, sem a ameaça de ocupação econômica ou militar. A comunidade internacional pode e deve apoiar esse processo, mas sempre com o discernimento prudente de quem sabe que as soluções duradouras nascem do respeito mútuo e da autodeterminação.

Não se constrói a liberdade arrancando a alma do povo, mas cultivando a verdade e a justiça no solo de sua soberania, para que floresça uma ordem duradoura e realmente livre.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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