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Crises Atuais: Determinismo e a Urgência da Ordem Justa

Crises globais não se explicam por monocausalidade ou determinismo. Este artigo foca na responsabilidade moral humana e na Doutrina Social da Igreja como guia para a ordem justa.

🟢 Análise

O barômetro civilizatório, ao que parece, aponta para uma tempestade perfeita, e a humanidade, perdida num labirinto de crises que se sucedem, busca um fio de Ariadne para escapar. O diagnóstico de uma angústia profunda, gerada pela aceleração descontrolada das mudanças climáticas, a mercantilização da vida e o espectro de um conflito nuclear global, não pode ser refutado. O clamor que se eleva contra a dissonância cognitiva, a hipernormalização da ruína e a tirania do cálculo econômico sobre a pessoa humana, é legítimo e encontra eco nas preocupações mais prementes do nosso tempo. Há uma verdade incômoda na percepção de que certas lógicas parecem conduzir-nos a um abismo, e que a soberba de um certo modo de pensar nos cegou para a vulnerabilidade do mundo e a interdependência de seus habitantes.

No entanto, a tentação de reduzir a vastíssima e complexa teia da história humana a um único fio, a atribuir a todas as calamidades de nossa era a um primordial “Ocidente cognitivo” ou a uma “Cultura Patriarcal” que remonta a seis milênios, é uma simplificação que beira o determinismo histórico. Afirmar que a fonte de todos os problemas atuais reside num hiato ancestral entre como pensamos e como a natureza funciona, ou que a cognição ocidental nunca comportou a coexistência multipolar, confunde influências remotas com causas imediatas e ofusca a responsabilidade moral do homem no tempo presente. A aceleração exponencial das crises climáticas, nucleares e sociais nos últimos oitenta a cem anos não pode ser atribuída a um “desvio” de eras imemoriais como sua única origem, sem negar a agência humana e as decisões políticas, econômicas e tecnológicas mais recentes que moldaram o mundo moderno. A verdadeira humildade intelectual exige que reconheçamos a complexidade multifatorial dos eventos, e não a monocausalidade confortável.

A Doutrina Social da Igreja, herdeira da reta razão aristotélico-tomista, sempre apontou para a natureza do homem, não como um mero produto de sua cultura mais antiga, mas como criatura dotada de razão e liberdade, vocacionada à verdade e ao bem. A verdadeira crise não está num “Ocidente psíquico” abstrato, mas na desordem que se estabeleceu no coração do homem, na sua liberdade mal usada e na sua recusa em reconhecer uma lei natural inscrita em sua própria natureza. Os problemas contemporâneos são, antes de tudo, falhas da justiça – seja na distribuição dos bens da criação, seja na verdade devida ao próximo e às instituições, seja no respeito à vida e à casa comum. A obsessão por um mercado expansionista termo-fóssil e a lógica do armamento nuclear, que hoje se espalham globalmente para além de quaisquer fronteiras culturais, são sintomas de uma desordem moral profunda, e não apenas de um enquadramento cognitivo ancestral.

É aqui que a perspicácia de Chesterton se faz necessária. Ele nos lembraria do paradoxo daqueles que, para curar o mundo, propõem uma revolução tão radical que acabam por destruir o que de bom ainda resta, ou que buscam um Éden perdido em um passado idealizado, esquecendo a grandeza do ordinário e a necessidade de reformar o presente. A sanidade contra a loucura lógica das ideologias exige que se resista à tentação de culpar uma abstração de seis milênios e, em vez disso, se encare as escolhas concretas que temos feito nas últimas décadas. A veracidade nos impele a reconhecer que, mesmo no seio do que se chama “Ocidente”, floresceram ideias e movimentos que lutam pela dignidade da pessoa humana, pela proteção ambiental e pela paz – mostrando que a virtude e o discernimento sempre foram possíveis, independentemente da era.

A saída para a encruzilhada atual não reside, portanto, na busca de uma “ancestralidade matrística” idealizada, cuja viabilidade em um mundo de oito bilhões de habitantes é, para dizer o mínimo, incerta. Tampouco está na hipernormalização do colapso ou na profecia do fim inevitável. Ao invés disso, a via autêntica passa pela reconstrução moral-cultural, por uma renovação da ordem justa que valorize a família anterior ao Estado, a propriedade com função social, a subsidiariedade que fortalece os corpos intermediários e a cooperação orgânica entre os povos. É preciso retornar à primazia da pessoa, ao governo sábio que se dobra à lei moral, à educação que forma virtudes e à comunicação que busca a verdade. Tais eixos concretos – legados de Leão XIII e Pio XI – oferecem um farol para o destino comum, longe das abstrações perigosas.

A verdadeira esperança não jaz na busca por um Éden perdido ou na profecia do colapso inevitável, mas na redescoberta da ordem perene que a razão e a fé nos oferecem para edificar o presente com justiça e a olhar o futuro com fortitude.

Fonte original: GGN

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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