A fumaça tóxica que se eleva sobre Teerã, a fumaça de depósitos de combustível bombardeados e de esperanças calcinadas, é um monumento trágico à mais recente ilusão de que a violência externa pode ser a paragem limpa para uma nação em agonia. O assassinato do Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, numa operação militar conjunta dos Estados Unidos e Israel, prometeu, para alguns, o alvorecer de uma nova era. Mas, quase duas semanas após o início desta guerra brutal, a realidade que se impõe é mais um paradoxo cruel: um regime que era odiado por muitos em casa parece, em sua resiliência tática, ter sido inadvertidamente fortalecido, e não derrubado, pela mão que buscava libertar.
Os fatos são frios e inegáveis. Milhares de iranianos foram mortos em janeiro por seu próprio regime. Agora, mais de mil civis sucumbiram aos bombardeios, e mais de oito mil casas foram reduzidas a escombros, junto com escolas, o Grande Bazar de Teerã e monumentos históricos. Em 8 de março, Mojtaba Khamenei, filho do líder falecido, foi prontamente nomeado seu sucessor, selando uma espécie de herança dinástica que desafia qualquer pretensão de meritocracia teocrática. A infraestrutura civil, e não apenas alvos militares, foi repetidamente visada, culminando em apagões generalizados e uma paisagem de fumaça negra sobre a capital. Diante de tal destruição, as vozes anônimas dos iranianos – Mandana, Mahboubeh, Sara, Marjan – ecoam um desespero profundo: “Não era para sermos bombardeados”, “Estamos em uma situação pior”, “Um país destruído”.
A preocupação moral central, para além das intrigas geopolíticas, reside na dignidade da pessoa humana e no bem comum. A Doutrina Social da Igreja é inequívoca: a violência indiscriminada contra civis, a destruição de infraestrutura essencial à vida de uma comunidade, viola flagrantemente os princípios da proporcionalidade e da imunidade dos não-combatentes, pilares de qualquer justa guerra. Não se pode pretender construir a paz e a liberdade sobre uma montanha de cadáveres e escombros. A promessa de uma “mudança de regime limpa”, como a que Mandana ingenuamente sonhava para a Venezuela, evapora-se diante da realidade de um país em ruínas, onde a liberdade se torna um luxo insustentável quando se luta pela mera sobrevivência. O uso da força, mesmo para depor uma tirania, exige prudência e deve ser medido pelos seus efeitos reais sobre os mais vulneráveis, e não pela retórica simplista de um presidente estrangeiro.
O Polemista Católico, contudo, não se furta a reconhecer a força dos argumentos contrários. É inegável que a agressão externa tem o poder de mobilizar um sentimento nacionalista, mesmo entre os mais descontentes com o regime. A aparente “resiliência” da República Islâmica, expressa na rápida sucessão e na mobilização de apoiadores, não é primariamente uma prova de amor ou apoio ideológico genuíno ao clero governante, mas uma reflexão sobre a profunda aversão à intervenção estrangeira e o instinto humano de defender a pátria em momentos de crise. O regime iraniano, mestre em instrumentalizar crises para solidificar seu poder, explorou essa reação. Ademais, a população já estava exaurida e desiludida pela brutal repressão interna em janeiro. A intervenção militar não trouxe esperança, mas adicionou uma nova camada de sofrimento a uma ferida já aberta, pavimentando o caminho para a resignação.
A ascensão de Mojtaba Khamenei, uma figura percebida como mais linha-dura e sem a aura carismática de seu pai, é, em si, um sinal de uma crise de legitimidade velada, e não de força. Uma sucessão que beira o dinástico em um regime que se diz teocrático, e não monárquico, expõe as fragilidades intrínsecas e as disputas de poder nos bastidores. O que o regime apresenta como “lealdade genuína, enraizada no islamismo xiita”, pode ser, em grande parte, uma obediência forçada pelo medo, uma conformidade sob a mira de patrulhas de motocicletas e a sombra da repressão. A “resiliência” do regime não é a saúde vibrante de um corpo social unido pela virtude, mas a teimosia de um sistema que, como um parasita, se alimenta tanto da violência que inflige quanto da violência que sofre.
A verdade, tão cara a São Tomás de Aquino, revela-se aqui com a clareza cortante de um paradoxo chestertoniano: o martelo que buscava demolir um trono acabou por cimentar os alicerces de uma tirania, não na rocha da virtude, mas na areia movediça do desespero e do patriotismo forçado. A intervenção militar, movida talvez por uma intenção nobre de libertação, falhou em sua prudência e em sua caridade, deixando para trás não um caminho para a liberdade, mas um país em ruínas, onde a nova liderança, apesar de mais jovem, não oferece mais esperança que a anterior, e a população se pergunta se, porventura, um reformador de dentro, por mais improvável que pareça, não seria, afinal, a única saída. A liberdade, afinal, não se pode bombardear em um povo; ela floresce, se for para florescer, na retidão da justiça e na caridade da verdade.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.