Em 10 de março de 2026, o professor Jiang Xueqin afirmou, em entrevista ao programa de Glenn Diesen no YouTube, que a guerra contra o Irã "expõe declínio dos Estados Unidos e acelera mudança na ordem mundial," conforme reportado pelo Brasil 247. Ele sustentou que o conflito marca um ponto de inflexão na geopolítica global e pode acelerar o declínio da hegemonia dos Estados Unidos. Avaliou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, iniciou a guerra "sem estratégia clara, sem narrativa consistente e sem um objetivo político bem definido."
Jiang Xueqin indicou que a fragilidade da Casa Branca reside na incapacidade de justificar o conflito à sociedade americana. Ele afirmou que "Trump falhou em articular um propósito e uma estratégia para esta guerra," com a justificativa sobre o enriquecimento de urânio perdendo consistência. O professor observou uma escalada perigosa, incluindo bombardeios, retaliação iraniana, relatos de mobilizações de tropas terrestres e especulações sobre armas nucleares táticas, declarando: "Esta guerra está completamente fora de controle." Jiang diferenciou as abordagens, afirmando que "o Irã está tentando travar uma guerra de atrito" para pressionar economias, enquanto "Os americanos estão lutando uma guerra de destruição," visando demolir a capacidade do Estado iraniano.
Os efeitos econômicos do conflito foram destacados por Jiang, que mencionou a interrupção no estreito de Ormuz causando "forte choque ao mercado de energia." Ele citou Japão, China, Coreia do Sul, Índia e Paquistão como economias vulneráveis, com o Japão enfrentando "risco severo de desabastecimento." O professor associou o conflito ao enfraquecimento da ordem global liderada pelos EUA, afirmando que a "imagem de Dubai como centro financeiro está agora destruída por esta guerra." Jiang reiterou que "A América é viciada no petrodólar" e que "Se o petrodólar for destruído, isso faria a economia americana colapsar também." Interpretando o comportamento americano como típico de "impérios em declínio," ele concluiu que "A América é realmente o fim de um império neste momento," atribuindo a uma possível derrota dos EUA à ausência de vontade política interna, perda de capacidade industrial e baixa tolerância a baixas humanas.
Jiang Xueqin não previu uma "saída para esta guerra," apontando o risco de expansão regional e global, com Israel buscando "arrastar o maior número possível de atores." Ele projetou que o Conselho de Cooperação do Golfo "sairia devastado," Israel "emergiria como a principal potência regional," e o Irã "manterá sua soberania." Para a Europa, descreveu um cenário de crise estrutural, definindo-a como "um incêndio em uma lixeira." O professor vislumbrou três tendências globais — desindustrialização, mercantilismo e remilitarização — concluindo que "A ordem global morreu." Glenn Diesen encerrou a entrevista destacando o perigo da "ilusão de controle da escalada," e Jiang Xueqin, apesar de prever a invasão, declarou: "No momento em que aconteceu, eu fiquei chocado e atordoado e não consegui dormir, porque pensei: por que eles fariam isso?"
A análise do professor Jiang Xueqin, ao retratar o conflito no Irã como um catalisador do declínio hegemônico dos Estados Unidos, oferece uma leitura essencialmente geopolítica, mas deixa implícitos os profundos abismos éticos e as desigualdades estruturais que tais guerras impõem. A noção de uma "guerra de destruição" travada por uma potência em declínio, sem propósito articulado, transcende a mera incompetência estratégica; ela sinaliza a persistência de um modelo de intervenção que, independentemente de sua justificativa oficial, inevitavelmente precariza a vida e a soberania de nações vulneráveis, enquanto reconfigura um sistema global já marcado por assimetrias de poder e extração de recursos. Este cenário é um espelho das contradições inerentes a uma ordem mundial que, apesar de falar em multilateralismo, ainda opera sob a lógica da força e da imposição.
As assimetrias de poder tornam-se flagrantes na caracterização de uma "guerra de destruição" versus uma "guerra de atrito". Enquanto o Irã, buscando sua sobrevivência, adota uma estratégia de desgaste econômico, a potência americana almeja a demolição do Estado inimigo, revelando uma desproporção abissal na capacidade de causar e suportar sofrimento. Essa dinâmica ilustra o que Achille Mbembe concebe como necropolítica, a capacidade de certos Estados de determinar quem pode viver e quem deve morrer, exercendo um poder de soberania que se manifesta na aniquilação física e social de populações e infraestruturas. Os impactos distributivos desse conflito, com o choque no mercado de energia e o risco de desabastecimento para economias dependentes, como Japão e Índia, evidenciam como a instabilidade gerada por decisões de poucos afeta desproporcionalmente a segurança e o bem-estar de milhões, em especial no Sul Global, que se veem reféns de disputas hegemônicas e da "adicção" ao petrodólar, uma ferramenta de poder que Joseph Stiglitz já criticou por distorcer incentivos e prolongar conflitos.
A "morte da ordem global" proclamada por Xueqin, portanto, não é um evento neutro, mas a ruína de um arranjo que já era intrinsecamente injusto e excludente. A projeção de Israel como principal potência regional e a devastação do Conselho de Cooperação do Golfo apontam para uma reconfiguração da periferia sob a égide da violência, sem que os povos da região tenham voz ou participação nos rumos que lhes são impostos. A ausência de "saída" e o risco de expansão global são o resultado de uma lógica imperial que se retroalimenta da desordem. A real alternativa a essa espiral de violência não reside na substituição de uma hegemonia por outra, mas na construção de uma ordem verdadeiramente multilateral, baseada na democratização das relações internacionais, na primazia do direito internacional e na descolonização do pensamento geopolítico.
Para emergir desse "incêndio em uma lixeira", como Xueqin descreve a Europa, e de uma ordem global morta, é imperativo que os debates sobre desindustrialização, mercantilismo e remilitarização sejam substituídos por políticas públicas inclusivas que priorizem a equidade, a redistribuição de poder e a participação popular. A busca por uma nova arquitetura global exige não apenas o questionamento das atuais assimetrias de poder, mas a articulação de modelos de desenvolvimento que garantam direitos fundamentais, promova a sustentabilidade e coloque a vida e a soberania dos povos, e não os interesses de impérios em declínio, no centro das decisões políticas e econômicas.
Crise Global: O Declínio da Hegemonia e o Vácuo Ético
A recente guerra, analisada por Jiang Xueqin como sintoma e catalisador do declínio da hegemonia americana, expõe uma crise que transcende a mera disputa geopolítica. Embora seja crucial compreender as dinâmicas de poder e as reverberações econômicas que abalam o estreito de Ormuz e a estabilidade global, o verdadeiro dilema reside na falha em articular um propósito que se alinhe à razão e à dignidade humana. Estamos diante de um cenário em que a “morte da ordem global” não é apenas um fato estratégico, mas um profundo sintoma de um esvaziamento ético que precede o derramamento de sangue.
A Análise de Xueqin e a Realpolitik: Uma Visão Sombria
A perspicaz análise de Xueqin desenha um quadro sombrio de uma potência em declínio, carente de estratégia e coerência, travando uma “guerra de destruição” que coloca em risco não apenas a região, mas a economia mundial, com suas consequências para o petrodólar e o desabastecimento de nações dependentes. Esta visão, centrada na realpolitik, captura a fragilidade de uma política externa desprovida de um norte ético claro. Contudo, a contra-análise nos adverte para a urgência de olhar para além das manobras de poder, revelando os "abismos éticos e as desigualdades estruturais" que tais conflitos impõem. A noção de uma "guerra de atrito" versus uma "guerra de destruição" evidencia as assimetrias brutais onde o sofrimento recai desproporcionalmente sobre os mais vulneráveis.
Além da Estratégia: A Dimensão Moral do Conflito
É neste ponto que a visão puramente estratégica se choca com a inescapável dimensão moral da vida política. A incapacidade de justificar o conflito com um propósito que resista ao escrutínio da razão, como observa Xueqin, não é apenas um erro tático, mas sintoma de uma erosão dos fundamentos morais. Como Alasdair MacIntyre tão bem diagnosticou em sua obra, a sociedade moderna frequentemente perdeu uma linguagem moral comum e uma compreensão teleológica da ação humana, resultando em debates marcados por uma retórica emotivista, onde decisões cruciais carecem de uma base racional e ética compartilhada. Tal lacuna torna a “ilusão de controle da escalada” ainda mais perigosa, pois se perde a bússola que guiaria os líderes em direção ao bem, e não à mera afirmação de poder ou interesse.
A Razão Prática e a Lei Natural como Fundamentos
Para superar essa dicotomia, elevamos o debate aos pilares da razão prática e da lei natural. Aristóteles, em sua ética, ensinou que a prudência (phrónesis) é o guia para a ação correta, discernindo o meio-termo não por cálculo de utilidade, mas pela compreensão do bem para o homem e a comunidade. Uma guerra sem "estratégia clara, sem narrativa consistente e sem um objetivo político bem definido" é uma afronta à prudência, carecendo da deliberação e propósito justo que deveriam caracterizar empreendimentos que envolvem vida e morte. A "demolição da capacidade do Estado iraniano" não pode ser um fim em si, mas precisa ser avaliada à luz do bem comum e da dignidade da pessoa.
São Tomás de Aquino, seguindo a tradição clássica, nos lembra que a lei natural se manifesta na razão reta, inclinando-nos ao bem. A dignidade da pessoa humana é a base inalienável de qualquer ordem justa, e a vida é sagrada. Uma “guerra de destruição” ou a imposição de uma necropolítica violenta de maneira radical essa dignidade e os preceitos básicos da lei natural. O bem comum, que transcende interesses nacionais e exige paz e justiça para todos, não se alcança pela força bruta ou imposição unilateral, mas pela solidariedade e diálogo pautado pela subsidiariedade. Assim, os povos participam na construção de seu destino, longe de dinâmicas predatórias de impérios.
Reconstruindo a Ordem: Diplomacia Virtuosa e o Bem Comum
A superação dialética desta crise, portanto, não reside em meramente diagnosticar o declínio de um império ou em lamentar as injustiças, mas em um compromisso firme com a edificação de uma ordem global fundamentada na primazia da lei moral e do bem comum. Isso exige que as nações voltem a priorizar a diplomacia virtuosa, buscando soluções que respeitem a soberania de cada povo e a inviolabilidade da vida. Não se trata de uma paz obtida pela exaustão ou pelo equilíbrio precário de forças, mas de uma paz enraizada na justiça, onde as relações internacionais sejam guiadas pela solidariedade e pelo reconhecimento da humanidade partilhada, em vez de se renderem à lógica cínica da força bruta. A Doutrina Social da Igreja oferece um mapa moral claro para tal empreendimento.
O Convite à Reconstrução: Justiça e Misericórdia na Ordem Global
Em última análise, a "morte da ordem global" deve ser encarada não como resignação, mas como um convite urgente à reconstrução. A verdadeira alternativa à espiral de violência e ruína ética não é a substituição de uma hegemonia por outra, mas a edificação de uma comunidade global de nações que, imbuídas de prudência e da razão reta, busquem incansavelmente a paz. Somente através de um retorno consciente aos princípios que salvaguardam a vida e promovem o bem comum será possível transcender o ciclo de conflitos e erigir uma ordem que verdadeiramente sirva à humanidade, reconhecendo que a força de uma nação reside em sua capacidade de agir com justiça e misericórdia, e não apenas com poderio militar ou econômico.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.