A tentação de expor um catálogo de nomes ilustres, adornados com o selo de “experiência em Copa do Mundo”, é compreensível. Ela acena com o brilho do passado, com a segurança de um currículo já testado no maior palco do futebol. Mas o campo de jogo, ao contrário do álbum de figurinhas, é um território vivo, implacável e em constante renovação, onde o mérito de amanhã se conquista no treino de hoje, e não na glória de ontem.
É fato que o Brasileirão 2026 abrigará em seus clubes talentos com participações em mundiais. Nomes como Rochet, Alex Telles, Alex Sandro, Danilo, Arboleda, Mercado, Luiz Gustavo, Arrascaeta, Lucas Paquetá, Neymar, Memphis Depay e Pedro trazem o peso da história e a vivência de competições decisivas. A Copa do Mundo de 2026, com sua expansão para 48 seleções em três nações anfitriãs – Estados Unidos, México e Canadá – promete um espetáculo grandioso, com abertura no icônico Estádio Azteca e final no MetLife Stadium. A estreia do Brasil contra Marrocos no dia 13 de junho, e os confrontos subsequentes contra Haiti e Escócia, já projetam o horizonte de um torneio colossal.
Contudo, o brilho do currículo, por mais respeitável que seja, não pode ofuscar a luz do presente nem a promessa do futuro. Reduzir a análise do valor de um jogador para um Mundial que ocorrerá daqui a dois anos à mera “experiência em Copas do Mundo” é um atalho intelectual que incorre em dupla falha. Primeiro, na veracidade do juízo: a lista, por mais que inclua atletas renomados, é intrinsecamente incompleta e carece de critérios transparentes sobre sua real projeção para 2026. Segundo, na justiça do reconhecimento: ao hipervalorizar o passado, corre-se o risco de invisibilizar a pujança de novos talentos e o esforço daqueles que, sem a chancela de Copas anteriores, demonstram hoje um desempenho superior e uma projeção mais concreta para o futuro.
Na visão tomista, a realidade se manifesta em suas causas e finalidades, e o bem de uma coisa reside em sua perfeição atual e em seu potencial de desenvolvimento. No futebol, isso se traduz na forma física, na adaptação tática, na disciplina e na vontade de vencer, que são bens presentes e dinâmicos, e não apenas no eco de feitos pretéritos. Valorizar excessivamente um selo histórico em detrimento do desempenho contínuo é uma distorção da ordem dos bens, onde a memória de um pico passado é eleita à frente do esforço da ascensão presente. O perigo é confundir a nostalgia com a análise, o brilho efêmero de uma manchete com a solidez de um mérito construído diariamente e a serviço de uma equipe. A veracidade exige que reconheçamos o valor de um atleta não apenas pelo que ele foi, mas pelo que ele é e pelo que pode vir a ser na dinâmica ininterrupta do jogo.
Um erro de julgamento assim, ensina a sabedoria que se ancora no real, confunde o mapa com o território. Não basta ter um bilhete antigo para entrar no jogo futuro. Como um bom estrategista, ou um Chesterton que defendia a sanidade contra a loucura lógica das ideologias, a verdadeira inteligência se recusa a reduzir a complexidade viva do futebol a uma etiqueta. O paradoxo da modernidade, no esporte, seria esperar que o campo de 2026 se adapte à vitrine de 2024, quando, na verdade, é a vitrine que precisa refletir o que realmente se move e vibra nos gramados do presente, e projeta-se no porvir.
A lição é clara: a valorização de uma liga, ou a expectativa sobre uma seleção nacional, não se constrói sobre fantasmas de glórias passadas, mas sobre a análise sóbria e honesta do mérito presente e do potencial de futuro. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade do trabalho e a justeza na retribuição, indiretamente nos lembra que o valor de um atleta, como o de qualquer profissional, deve ser avaliado por sua entrega e performance atuais, e não apenas por seu prontuário histórico. É preciso um olhar de magnanimidade para o horizonte, capaz de reconhecer tanto a grandeza dos veteranos que ainda performam com excelência, quanto a promessa vibrante dos novatos que irrompem com talento e fôlego renovado. A verdadeira edificação da paixão pelo futebol e do reconhecimento de seu valor intrínseco depende dessa clareza de julgamento e da honestidade em apontar o que realmente importa no campo.
O futebol, em sua essência, é um drama de possibilidades. Reduzir seus protagonistas a figuras de um passado distante é recusar-se a ver a beleza do jogo que ainda está por ser jogado.
Fonte original: Diário da Região
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.