A glória de um esporte, por sua natureza, reside na paixão que ele inspira e na união que pode forjar entre gentes de toda parte. Mas o que fazer quando essa glória, em vez de ser celebrada por si mesma, é instrumentalizada para um cálculo político que a desfigura? A Copa do Mundo de futebol de 2026, com sedes em Estados Unidos, Canadá e México, tornou-se, nos últimos meses, palco de uma curiosa reviravolta: um ex-presidente americano, outrora crítico ferrenho da modalidade, agora a abraça com fervor, buscando angariar apoio conservador para um evento que, até ontem, era tachado de “socialista” ou “antiamericano”.
Este movimento, à primeira vista, pode parecer uma simples jogada de conveniência política. No entanto, ele revela uma tensão profunda entre a veracidade dos propósitos e a instrumentalização do que deveria ser uma celebração da arte e da comunidade. Não se pode ignorar que o futebol, neste solo americano, não brotou de um edito político, mas da seiva vibrante das comunidades imigrantes, da paixão das novas gerações e de um espírito que, via de regra, inclina-se à diversidade e aos direitos humanos. São essas raízes orgânicas que dão ao esporte sua vitalidade, muito antes de qualquer endosso de campanha.
A Doutrina Social da Igreja, em sua sabedoria perene, nos adverte contra a instrumentalização de qualquer bem ou atividade humana para fins meramente transitórios ou facciosos. Quando um esporte, por sua própria natureza vetor de união e celebração, é transformado em mero instrumento para a política partidária, a veracidade de propósito se dilui. A inconsistência de outrora – quando a seleção feminina, por exemplo, e seus posicionamentos progressistas, eram alvo de ataques incessantes – choca-se com o entusiasmo súbito. Tal guinada, sem um reconhecimento explícito da mudança de rota ou um acerto de contas com o passado, gera mais ceticismo do que convicção.
A justiça, uma das virtudes cardeais, exige que se reconheça o devido a cada um e a cada comunidade. A base de torcedores de futebol nos EUA é marcadamente composta por imigrantes e seus descendentes, muitos dos quais sentiram na pele as políticas e retóricas anti-imigração. Pretender cooptar essa energia cultural sem uma ponte de reconciliação autêntica, sem uma reparação moral pela desconfiança gerada, é um exercício que beira a desonestidade. A dignidade da pessoa humana não se compra com o patrocínio de um evento, nem se apaga a memória de políticas que visaram fragilizar laços comunitários com um aceno momentâneo de aceitação.
Pio XII, ao diferenciar “povo” de “massa”, já alertava para o risco de transformar cidadãos em meros números a serem manipulados. O “povo” tem rosto, história, valores e vínculos autênticos; a “massa” é um aglomerado informe, facilmente direcionável por um slogan ou uma promessa vazia. A tentativa de redefinir o futebol para uma base ideológica que historicamente o rechaça, ignorando o “povo” que o cultiva, é um erro de cálculo que pode custar mais do que ganha. O risco, portanto, não é apenas o de alienar a base fiel do esporte, aquela que, com genuinidade, o cultiva e sustenta, mas o de comprometer a “oportunidade geracional” de popularização do futebol, transformando-o em mais um campo de batalha nas guerras culturais, em vez de um símbolo de unidade.
Chesterton, com sua sagacidade inveterada, talvez sorrisse com a reviravolta, mas advertiria que a lógica política que oscila entre a condenação e a apologia de um mesmo fenômeno cultural, conforme a conveniência, trai a sanidade da razão. O esporte, em sua essência, nos ensina a lealdade, o esforço e o respeito às regras, valores que não podem ser dobrados ao sabor de interesses transitórios. A FIFA, ao “abraçar” figuras políticas tão polarizadoras, arrisca a própria mensagem de diversidade e inclusão que a deveria guiar.
O desafio, portanto, é discernir entre o aplauso sincero e a aclamação estratégica. Pois a bola que rola no campo, ainda que sujeita a ventos e revezes, não serve a senhores que negam suas raízes. Ela é um convite à lealdade, à beleza do jogo e à verdade que, por si só, é digna de ser buscada.
Fonte original: Istoe dinheiro
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.