A cada ano, à medida que as estações se alternam, a orquestra da vida se move em padrões ancestrais. Baleias-jubarte sulcam os oceanos da Antártida às águas brasileiras, borboletas monarcas voam do Canadá ao México, e a onça-pintada traça seus domínios fluidos entre fronteiras políticas que não a contêm. São as rotas da vida, uma teia invisível de interdependência que a humanidade, em sua ânsia por progresso, tem sistematicamente desfeito. A COP15, cúpula da ONU sobre espécies migratórias, que o Brasil acolherá em Campo Grande (MS) em março de 2026, é um reconhecimento tardio e, esperemos, eficaz dessa devastação.
Os fatos são alarmantes e indiscutíveis: um relatório preliminar recente revela que 49% das 1.189 espécies migratórias listadas pela Convenção das Espécies Migratórias (CMS) estão em declínio populacional, um aumento de 5% em apenas dois anos. Ameaçadas de extinção, cresceram de 22% para 24% no mesmo período. A superexploração e a perda de habitat, filhas da atividade humana desordenada, são os algozes. O Brasil, que assume a presidência das negociações, tem a oportunidade de liderar não apenas na retórica, mas na ação concreta, como já sinaliza ao criar o Parque Nacional do Albardão, no extremo sul, uma área de mais de um milhão de hectares para conservação marinha.
Contudo, a história das grandes cúpulas internacionais, por mais bem-intencionadas que sejam, é pródiga em promessas que esbarram na dureza da realidade. A diplomacia, por sua natureza, é lenta e busca o consenso entre 132 nações, e mais 23 convidadas. Há um perigo real de que os “editais de pesquisa” e o “aumento do conhecimento” se tornem paliativos para a inércia, enquanto a fauna continua a desvanecer. A mera inclusão de 42 novas espécies nas listas da CMS, por si só, não garante que os tubarões-martelo, corujas-das-neves ou hienas-listradas terão seus destinos revertidos. As preocupações legítimas quanto à insuficiência de financiamento e a ausência de mecanismos vinculativos robustos para a implementação efetiva dos acordos não podem ser varridas para debaixo do tapete do otimismo oficial.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar da função social da propriedade, nos lembra que o domínio humano sobre a criação não é um direito absoluto, mas uma responsabilidade de administração, de stewardship, para o bem de todos, incluindo as gerações futuras e a própria ordem natural. Leão XIII, ao tratar da liberdade ordenada, sublinha que o uso dos bens da terra deve servir à vida e não à sua aniquilação. A superexploração da natureza, portanto, não é apenas um erro técnico, mas uma falha moral.
Nesse contexto, a busca por uma verdadeira justiça ecológica exige mais do que a reunião de milhares de pessoas ou a assinatura de novos papéis. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, nos adverte contra a tentação de depositar todas as esperanças em estruturas centralizadas e distantes. A subsidiariedade, princípio basilar da ordem social católica, nos ensina que a ação deve ser fortalecida nos níveis mais próximos ao problema, nas comunidades locais, onde a interação entre humanos e natureza se dá diariamente. Corredores ecológicos e novas unidades de conservação são vitais, sim, mas precisam ser concebidos e implementados com a participação ativa e o consentimento informado das comunidades que vivem nessas áreas, evitando conflitos sociais e deslocamentos que apenas trocam um problema por outro.
A fala de Pio XII sobre “povo versus massa” ganha relevância aqui: uma massa de participantes em uma cúpula não é o mesmo que um povo engajado em ações de conservação enraizadas na realidade local e nacional. O compromisso do Brasil de “caminhar em três direções simultaneamente” – buscar novas adesões, aumentar contribuições financeiras e ampliar o conhecimento – deve se traduzir em políticas públicas concretas, fiscalizáveis e sustentáveis. Isso requer fortaleza para resistir às pressões imediatistas do desenvolvimento econômico predatório e veracidade para não camuflar a ineficácia com a grandiosidade dos eventos.
A verdadeira rota para salvar as espécies migratórias não se fará apenas com grandes conferências, mas com uma mudança profunda na nossa responsabilidade moral para com a criação. É preciso reconhecer que o bem da cidade não se dissocia do bem do planeta, e que a paz social inclui a paz com a natureza. Não basta mapear as rotas que os animais percorrem; é preciso pavimentar a rota da governança com uma consciência moral que transcenda o mero papel e se manifeste na disciplina contínua e na justiça para com a casa comum.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.