O mundo moderno, em sua busca frenética por segurança, muitas vezes tropeça na própria sombra, confundindo eficácia com virtude e cooperação com submissão. Diante da ameaça real e tentacular do crime transnacional, a proposta de combate entre Brasil e Estados Unidos prometia uma aliança de força, um baluarte contra a desordem moral que corrói nações e dignidades. Contudo, a contraproposta americana revela uma distorção grave, uma assimetria que transforma o espírito de solidariedade em uma perigosa externalização de ônus e, em última instância, em um atentado velado à soberania e à lei natural.
Os fatos são cristalinos: Brasil e EUA, enfrentando facções como PCC, CV e a sombra do Hezbollah em solo latino-americano, buscaram uma estratégia conjunta. A proposta brasileira, focada na cooperação contra a lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, o bloqueio de ativos ilícitos e o intercâmbio de informações sobre criptoativos, mirava uma colaboração de pares, um esforço mútuo contra um inimigo comum. A resposta americana, porém, soa menos como um aperto de mãos e mais como um ditame. Exige que o Brasil acolha em suas prisões os estrangeiros capturados pelos EUA, que apresente um plano para “acabar” com essas organizações – uma tarefa de Hércules imposta por decreto externo – e, mais alarmante, que compartilhe dados biométricos sensíveis de refugiados e solicitantes de refúgio. É uma oferta que, sob o manto da “segurança”, exige do Brasil que se torne um depositário de problemas alheios, um zelador de almas em risco e um entregador de informações delicadas.
Aqui, o Polemista Católico precisa ser implacável. A Lei Natural, que é a participação da lei eterna na criatura racional, estabelece que cada ente tem sua ordem própria e seu fim intrínseco. A nação, enquanto comunidade política, tem o dever e o direito de salvaguardar sua soberania e de governar para o bem comum de seus cidadãos. A demanda para que o Brasil receba prisioneiros capturados por outra nação em seu território, sem as devidas salvaguardas e sem uma proporcionalidade de benefícios, é um desvirtuamento do princípio da subsidiariedade. Não é um pedido de auxílio, mas a transferência de um problema de segurança e custódia para um terceiro, que já enfrenta uma crise carcerária endêmica. São Tomás de Aquino nos ensina que a autoridade legítima existe para a paz e a justiça da comunidade que a constitui. Submeter-se a tal exigência é abdicar de uma parte essencial dessa autoridade, comprometendo a própria capacidade de buscar o bem comum em seu próprio território.
Mais grave ainda é a exigência de dados biométricos de refugiados. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade inalienável de cada pessoa humana, nos lembra da particular vulnerabilidade daqueles que buscam refúgio. Compartilhar informações tão íntimas e sensíveis com uma potência estrangeira, sem garantias robustas de proteção e uso ético, é instrumentalizar a miséria humana em nome da segurança. É uma afronta à caridade na verdade e um risco patente aos direitos desses indivíduos, que já carregam o fardo da exclusão e da perseguição. Chesterton, com sua ironia aguda, provavelmente questionaria a lógica de “proteger” a segurança de uns, sacrificando a dignidade e a privacidade de outros, especialmente os mais desamparados. A prudência, uma das virtudes cardeais, exige que se calculem não apenas os ganhos imediatos, mas os custos morais e as consequências de longo prazo de tais concessões.
O que se revela aqui é uma profunda assimetria de poder e uma falha na solidariedade genuína. Enquanto o Brasil propunha enfrentar a lavagem de dinheiro que beneficia as organizações criminosas – um problema que tem seu ponto nevrálgico em locais como Delaware –, a contraproposta americana ignora essas preocupações e impõe medidas invasivas à soberania brasileira. Não se pode pedir a uma nação que “acabe” com problemas que são, em sua essência, sistêmicos e transnacionais, sem antes abordar as raízes de sua própria cumplicidade indireta. A ameaça velada de designar facções brasileiras como terroristas, se o Brasil não ceder, é a cartada final de uma diplomacia que confunde imposição com cooperação. Não é assim que se combate a desordem moral; é assim que se semeia o ressentimento e se fragiliza a base da justiça internacional.
O Brasil não pode e não deve se curvar a uma lógica que transforma cooperação em subordinação, e o combate ao crime em externalização de encargos. A reta razão nos impele a reconhecer que a verdadeira segurança não pode ser construída sobre a erosão da soberania, o desrespeito à dignidade dos mais vulneráveis ou a falha na reciprocidade. É preciso coragem para dizer não a propostas que, sob o pretexto de combater um mal, exigem a aceitação de males maiores. Uma nação, como um indivíduo, não pode comprometer sua alma para “salvar” sua pele. A verdadeira batalha contra o crime transnacional exige justiça, solidariedade e respeito mútuo, não um perigoso escambo de princípios. Afinal, tentar limpar a casa do vizinho sujando a própria não é auxílio, mas um convite à ruína.
Fonte original: Diario de Cuiabá
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.