O governo do Irã afirmou nesta terça-feira, 10 de março, que bloqueará a exportação de petróleo do Golfo, desconsiderando as advertências dos Estados Unidos sobre a intensificação de ofensivas militares. Ali Mohamad Naini, porta-voz da Guarda Revolucionária, declarou que as forças iranianas "não vão permitir a exportação de um único litro de petróleo da região para a parte hostil e seus aliados até novo aviso", visando o Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto da produção mundial de petróleo. Este é o 11º dia de um conflito que começou em 28 de fevereiro com ataques conjuntos de EUA e Israel.
Na mesma data, Teerã anunciou novos ataques com mísseis contra Israel, visando Tel Aviv, e instalações americanas no Oriente Médio. O Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, qualificou a terça-feira como "o dia mais intenso dos ataques". A refinaria de Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos, interrompeu operações após um ataque de drone, com testemunhas relatando "duas bolas de fogo" e "barulhos fortes que pareciam explosões". O preço do petróleo WTI caiu mais de 13%, para cerca de US$ 80 por barril, após ter superado US$ 100 no dia anterior.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na rede social Truth Social a destruição de "10 navios lança-minas do Irã", seguindo um aviso de que minar o Estreito de Ormuz provocaria "consequências (...) de uma magnitude militar nunca antes vista". O Pentágono informou 140 militares americanos feridos em ataques iranianos no Golfo Pérsico, incluindo oito graves, e sete mortes americanas no conflito. Uma postagem do secretário de Energia Chris Wright sobre uma escolta naval foi retratada, com a porta-voz Leavitt confirmando que a Marinha dos EUA não escoltou nenhuma embarcação "até o momento".
A Agência Internacional de Energia (AIE) convocou reunião extraordinária para discutir estoques estratégicos de hidrocarbonetos. A União Europeia recomendou reduzir impostos sobre energia; o chanceler alemão Friedrich Merz defendeu evitar "uma guerra sem fim". Autoridades iranianas, como Ali Larijani e Mohammad-Bagher Ghalibaf, prometeram responder "olho por olho, dente por dente". O Ministério da Inteligência iraniano prendeu 30 pessoas por espionagem. O aiatolá Mojtaba Khamenei foi nomeado novo guia supremo em 8 de março, sucedendo seu pai, falecido em bombardeios.
O relato factual sobre a escalada do conflito no Oriente Médio, com suas descrições de ameaças militares, volatilidade do preço do petróleo e movimentos estratégicos de grandes potências, embora detalhado, tende a obscurecer as profundas estruturas de poder e os interesses hegemônicos que se beneficiam de tais crises. Ao focar na retórica de "partes hostis" e na lógica da escalada bélica, a narrativa falha em questionar o contexto histórico de intervenção externa na região, a dependência global de combustíveis fósseis e a instrumentalização da segurança para fins econômicos e geopolíticos, naturalizando a violência como uma resposta inevitável em vez de um sintoma de desequilíbrios sistêmicos.
O controle do Estreito de Ormuz e a exportação de petróleo não são meras questões de soberania nacional, mas epicentros de uma disputa global pela hegemonia energética e econômica. Como Joseph Stiglitz tem reiterado em suas análises sobre a economia política da guerra, esses conflitos, embora frequentemente apresentados como embates de segurança ou ideológicos, servem para consolidar o poder de oligopólios energéticos e do complexo militar-industrial. A volatilidade dos preços do petróleo, que atinge de maneira desproporcional as economias mais vulneráveis e os cidadãos de baixa renda em todo o mundo, é um sintoma dessa falha sistêmica, onde o ônus da especulação e da beligerância recai sobre a população global. A retórica sobre "ataques" e "destruição" desumaniza o conflito, eclipsando as vidas humanas em jogo e os impactos duradouros sobre a infraestrutura e a sociedade civil na região, já fragilizada por décadas de intervenção externa.
A perspectiva progressista, ecoando Boaventura de Sousa Santos em sua crítica às epistemologias do Norte e à colonialidade do poder, exige que se questionem as narrativas hegemônicas que legitimam intervenções militares e sanções econômicas em nome da "segurança" ou da "democracia". A prisão de 30 pessoas por "espionagem" em Teerã, por exemplo, ilustra como a escalada de tensões externas é frequentemente espelhada por um aprofundamento da repressão interna, limitando a participação popular e os direitos civis sob o pretexto da segurança nacional. Essa dinâmica reforça regimes autoritários, tanto no Irã quanto em outros países com interesses estratégicos no conflito, onde o controle do poder e a manutenção de alianças geopolíticas se sobrepõem à democratização e à defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos. A sucessão na liderança iraniana, ocorrendo em meio a bombardeios, sublinha a perigosa intersecção entre a política interna e a geopolítica, com implicações profundas para a estabilidade e a equidade social.
Diante de tal cenário, urge a busca por alternativas que desmilitarizem as relações internacionais e priorizem a redistribuição de poder e riqueza. Isso implica uma transição energética global justa, que diminua a dependência de combustíveis fósseis e, consequentemente, o poder geopolítico associado ao seu controle, bem como o investimento em diplomacia multilateral e na resolução pacífica de conflitos. A democratização das instituições globais de governança, o respeito à soberania popular e a promoção de políticas públicas inclusivas que abordem as raízes da desigualdade e da injustiça social são cruciais para desarmar a lógica da guerra e construir um futuro de verdadeira segurança e equidade para todos.
Conflito no Oriente Médio: Geopolítica, Petróleo e a Busca pela Paz
A turbulência que assola o Oriente Médio, com suas ameaças de bloqueio do Estreito de Ormuz, a escalada de ataques militares e a vertiginosa oscilação dos preços do petróleo, não é apenas uma crise geopolítica de proporções alarmantes; é um espelho que reflete as profundas tensões da alma humana e da ordem internacional. A cada dia, os boletins de guerra narram a cronologia da violência, os feridos, os mortos, as movimentações de poder. Mas, para além da sucessão factual dos eventos, ecoam vozes que clamam por uma compreensão mais profunda, alertando para o risco de se naturalizar a violência como única resposta possível, ignorando as estruturas de poder e os interesses que se movem nas sombras das bombas.
Além dos Fatos: A Perspectiva Filosófica do Conflito
É, de fato, imperioso reconhecer que a leitura puramente factual dos conflitos, embora necessária para nos situar, pode ser insuficiente. Há uma legítima preocupação em questionar as narrativas que simplificam a complexidade do cenário, reduzindo-o a um embate entre "partes hostis" e obscurecendo a dimensão econômica e hegemônica por trás da retórica da segurança. Como ponderou Hannah Arendt, o poder e a violência não são idênticos; a violência, muitas vezes, surge onde o poder já se desintegrou. Ela assinala a urgência de olhar para além da mera coerção física, buscando as raízes da autoridade e da ação coletiva. A desumanização dos envolvidos, a aflição das populações civis e a instrumentalização da segurança para fins específicos são pontos que o olhar filosófico não pode ignorar.
Prudência e Responsabilidade: Equilibrando Análise Estrutural e Agência
Contudo, a busca por uma análise estrutural, embora vital, não pode se tornar um refúgio para o niilismo prático ou para a negação da responsabilidade individual e estatal. O excesso de um certo idealismo sistêmico pode nos levar a subestimar a agência de atores específicos e a imediatez de suas escolhas. É preciso prudência, aquela virtude aristotélica que nos ensina a deliberar bem sobre o que é bom e útil para viver bem, não apenas para o indivíduo, mas para a pólis e, por extensão, para a comunidade internacional. Edmund Burke nos advertiria contra a tentação de desmantelar sistemas complexos com base em teorias abstratas, sem considerar as consequências imprevistas e a fragilidade das construções humanas.
A Busca pela Paz Através da Justiça e da Lei Natural
Aqui, a sabedoria da lei natural, tão cara a São Tomás de Aquino, nos guia. A vida humana é um bem inviolável, e a paz, fruto da justiça, é uma aspiração intrínseca à convivência humana. A agressão injustificada, seja ela militar ou econômica, é uma ofensa à dignidade da pessoa e ao bem comum. A prudência exige que as nações, ao defenderem seus interesses legítimos, o façam com proporcionalidade e sempre com o olhar voltado para a possibilidade da paz, evitando o ciclo vicioso da retaliação que, não raro, conduz a uma guerra sem fim. A busca por um meio-termo virtuoso não significa passividade, mas uma ação firme e moralmente justificada, que reconheça tanto a necessidade de salvaguardar a vida quanto a imperiosidade de desescalar a violência.
Bem Comum e Solidariedade Global: O Papel da Comunidade Internacional
A superação desta aparente contradição reside na elevação do debate ao plano do bem comum, que se estende para além das fronteiras nacionais. O destino universal dos bens exige que os recursos naturais, como o petróleo, não sejam meros instrumentos de poder ou de ganância, mas serviam ao desenvolvimento integral de todos os povos. A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja, nos lembra que os problemas devem ser resolvidos no nível mais próximo possível dos afetados, mas a solidariedade impõe que a comunidade internacional intervenha quando a paz e a segurança globais estão ameaçadas, ou quando nações individuais se mostram incapazes de proteger a dignidade de seus cidadãos ou a livre navegação que serve a todos. Como ensinou o Papa João XXIII na Pacem in Terris, uma autoridade pública mundial é necessária para promover o bem comum universal, garantindo direitos e deveres em escala global.
Rumo à Resolução: Diplomacia, Transição Energética e Diálogo
Portanto, a superação deste dilema não se encontra em escolher entre a narrativa dos fatos brutos ou a crítica estruturalista, mas em integrá-las sob a luz da razão reta e da moral. Urge uma diplomacia vigorosa e multilateral que não apenas contenha a agressão, mas que busque desarmar as suas causas profundas: a injustiça social, a desigualdade econômica e a ânsia desmedida por poder. É preciso investir em uma transição energética justa, que diminua a dependência de combustíveis fósseis e, com ela, a fonte de muitas tensões geopolíticas. Acima de tudo, é preciso restabelecer a confiança mútua e a disposição ao diálogo, pautando as relações internacionais pelo respeito à dignidade humana e pela busca incansável da paz.
Construindo a Paz: Justiça, Solidariedade e Desenvolvimento Integral
Assim, o verdadeiro caminho para a resolução não é a imposição pela força, nem a paralisia pela crítica, mas a construção paciente de uma ordem internacional fundada na justiça e na solidariedade. Somente então poderemos transitar da lógica da guerra para a lógica do desenvolvimento integral, onde a prosperidade de uma nação não se faz às custas da outra, e onde a dignidade de cada pessoa é reconhecida como o alicerce de um bem comum verdadeiramente universal. Este é o desafio que se apresenta, e que exige de todos os líderes e cidadãos um exercício de prudência e uma renovada adesão aos princípios que elevam a civilização humana.
Fonte original: Exame
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.