O estampido seco da história ecoa, mais uma vez, nas paisagens bíblicas do Oriente Médio. Cai um avião militar americano, sete soldados perdem a vida em duas semanas, uma base italiana é atingida, e os céus do Líbano rasgam-se com a fúria dos bombardeios, ceifando centenas de vidas civis e desalojando outros tantos milhares. Em Teerã, um novo líder exibe a retórica da vingança enquanto o petróleo, nervo vital do mundo, jorra para cima dos cem dólares, afogando economias e apertando o cinto do homem comum. Não é apenas uma guerra remota; é o espelho distorcido de uma modernidade que, em sua ânsia por ordem, teima em semear o caos.
É inegável a gravidade das ações do Irã: o bloqueio ameaçado ao Estreito de Ormuz, a paralisação do tráfego marítimo, os ataques a navios mercantes, e as bravatas de um líder que promete atacar bases americanas. Tais movimentos são atos de desestabilização que demandam condenação e uma firme resposta da comunidade internacional, pois minam a segurança das nações e a liberdade do comércio, pilares indispensáveis do bem comum. Ninguém, com reta razão, pode defender a agressão ou a intimidação como via legítima de política externa. Mas a defesa da ordem não pode, por sua vez, ser pretexto para uma desordem ainda maior, sob pena de nos tornarmos aquilo que pretendemos combater.
Quando a resposta militar de potências como Estados Unidos e Israel resulta em 634 mortos, 1.586 feridos e mais de 800.000 deslocados no Líbano, a virtude da prudência e o princípio da proporcionalidade são atirados ao vento. Há uma assimetria de poder gritante, e a destruição de infraestruturas civis e de sítios do patrimônio cultural, como os reconhecidos pela Unesco no Irã, Líbano e até em Israel, não são meros acidentes de percurso. São, na verdade, uma ofensa à dignidade da pessoa humana e uma agressão à memória coletiva da civilização. Qual a lógica que nos leva a crer que a defesa da cultura se faz pela sua aniquilação? A verdade, como Chesterton nos lembrava, é frequentemente um paradoxo de senso comum que a modernidade prefere ignorar.
A opacidade que envolve as perdas militares, como a queda de aeronaves americanas por “fogo amigo” ou “causas não hostis”, e os altos custos financeiros do conflito para os Estados Unidos – 11,3 bilhões de dólares em apenas seis dias – não inspira confiança nem transparência. Uma guerra que se inicia para combater uma suposta desordem não pode, ela própria, ser um poço de incertezas, sem um plano estratégico claro, sem responsabilidades definidas e sem um horizonte temporal que transcenda a retórica de “rendição incondicional”. A dignidade da pessoa, seja ela militar ou civil, exige que a autoridade legítima preste contas, e não se refugie em eufemismos bélicos.
O reflexo imediato do conflito na economia global, com a interrupção no fornecimento de petróleo e as medidas emergenciais tomadas por países como o Brasil para subsidiar o diesel, demonstra a interdependência brutal de nosso mundo. A solidariedade, nesse caso, manifesta-se no sofrimento partilhado dos povos que, distantes dos campos de batalha, arcam com o preço da gasolina e o custo dos alimentos que sobem. A liberação recorde de reservas estratégicas da Agência Internacional de Energia (AIE) é uma medida de reação, mas não aborda a raiz do problema: a fragilidade de um sistema global que se recusa a buscar soluções diplomáticas duradouras, preferindo o caminho fácil da força.
Diante do clamor das vítimas e da insensatez da escalada, a voz do presidente iraniano Pezeshkian, que fala em paz, reparação e garantias contra futuras agressões, não pode ser sumariamente descartada como mera retórica. É um dever da prudência e da caridade na verdade explorar toda e qualquer via diplomática, por mais estreita que seja. A resolução do Conselho de Segurança da ONU, embora um passo, precisa ser aplicada sem padrões duplos, condenando toda e qualquer agressão que atente contra a lei natural e a dignidade humana. A busca pela paz justa, ensina-nos São Tomás, exige mais do que a capacidade de usar a força; exige, antes de tudo, a capacidade de usar a razão e a vontade para construir a concórdia.
É a desordem moral, mais do que a desordem política ou econômica, que se instala quando a guerra se torna o fim em si mesma, e não o último e gravíssimo recurso para restaurar uma paz justa. Pretendemos defender a civilização destruindo aquilo que a define – suas vidas, sua memória, seus laços de solidariedade. E assim, na miragem da vitória militar, a verdadeira paz, aquela que é fruto da justiça e da caridade, torna-se a primeira e mais amarga de todas as baixas.
Fonte original: ISTOÉ Independente
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.