O Pacto Histórico, liderado pelo presidente Gustavo Pietro, consolidou-se como a principal força política da Colômbia ao vencer as eleições para o Congresso no domingo, 8 de março de 2026. Com 100% das urnas apuradas, o Polo Patriótico obteve 4.203.192 votos (22,86% do total) e assegurou 25 das 100 cadeiras do Senado colombiano, um aumento em comparação com as 20 cadeiras conquistadas em pleitos anteriores. Apesar de formar a maior bancada, a coalizão ainda não possui maioria absoluta, o que indica dependência de acordos para aprovar projetos legislativos.
O Centro Democrático obteve 2.881.793 votos (15,67%) e 17 cadeiras, posicionando-se como a segunda força política. Em seguida, o Partido Liberal alcançou 2.150.998 votos (11,7%) e 13 cadeiras, enquanto a Aliança pela Colômbia registrou 1.809.242 votos (9,84%) e 11 cadeiras. O Partido Conservador somou 1.759.967 votos e 10 cadeiras. O Partido Social de Unidade Nacional obteve oito cadeiras, a Coalisão Mudança Radical-ALMA, sete, Agora Colômbia, cinco, e o Movimento de Salvação Nacional, quatro. As 100 cadeiras do Senado incluem ainda dois assentos para comunidades indígenas e cinco para o partido Comunes, conforme acordo de paz.
O candidato presidencial do Polo Patriótico, Iván Cepeda, afirmou que "Com uma bancada forte e comprometida iniciaremos uma nova etapa de transformações. Aprofundar as mudanças não é extremismo, nem significa dividir o país, significa torná-la apenas mais justa, mais próspera e mais humana". Cepeda também declarou o objetivo de transformar a Colômbia em "uma potência mundial da vida", e enviou uma mensagem "Aos corruptos do país: estamos notificando-os a partir de agora. Nossa luta será firme e implacável", indicando que o Pacto promoverá a "rebelião dos cidadãos contra a grande corrupção". As eleições marcaram a não eleição do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez (2002-2010) e a redução da presença do Cambio Radical, partido do ex-vice-presidente Germán Vargas Lleras. Figuras da oposição, como Angélica Lozano, também ficaram de fora do Senado.
As consultas interpartidárias definiram os candidatos presidenciais para as eleições de 31 de maio contra Iván Cepeda: a senadora Paloma Valencia, a ex-prefeita Claudia López e o ex-senador Roy Barreras. Abelardo de la Espriella e Sergio Fajardo também estão entre os candidatos. Um eventual segundo turno está agendado para 21 de junho, caso nenhum candidato obtenha maioria absoluta.
A celebração do avanço eleitoral do Pacto Histórico na Colômbia, como narrado, apresenta-se como um marco para a concretização de transformações sociais. Contudo, a análise estritamente factual dos resultados eleitorais pode, inadvertidamente, mascarar as profundas e persistentes assimetrias de poder que continuam a moldar a paisagem política e social do país. A vitória, embora expressiva, não garante a maioria absoluta no Congresso, um indicativo claro de que as forças conservadoras e os interesses estabelecidos mantêm uma capacidade considerável de obstruir ou diluir agendas progressistas. O que à primeira vista parece um passo para a democratização pode, na realidade, ser apenas mais um capítulo na luta contínua contra o que Jessé Souza, em sua crítica às elites, descreve como a "elite do atraso", que perpetua estruturas que se opõem à equidade e aos direitos coletivos em nome de privilégios.
A fragmentação do poder legislativo exige a construção de alianças, um processo que frequentemente força concessões e compromissos capazes de enfraquecer o ímpeto das reformas mais radicais necessárias para enfrentar a vulnerabilidade social e as desigualdades estruturais. A retórica do candidato Iván Cepeda sobre uma "rebelião dos cidadãos contra a grande corrupção" é crucial, mas deve ser compreendida não apenas como uma batalha contra malfeitos individuais, mas como um desafio à própria arquitetura de um sistema que permite a captura do Estado por interesses privados. Este sistema desvia recursos e impede a redistribuição justa, comprometendo a efetivação de políticas públicas inclusivas. A inclusão de assentos para comunidades indígenas e para o partido Comunes, embora represente um avanço simbólico e resultado de acordos de paz, ainda está longe de reverter séculos de exclusão e marginalização sistêmica.
A proposta ambiciosa de transformar a Colômbia em uma "potência mundial da vida" implica um reconhecimento das vastas carências e potencialidades do país, mas exige um aprofundamento que transcenda o discurso. Conforme argumenta Nancy Fraser, a busca por justiça social eficaz demanda tanto a redistribuição material quanto o reconhecimento cultural e social. Sem uma agenda robusta que promova a despatriarcalização, a descolonização e a desmercantilização de serviços essenciais, a democratização plena corre o risco de permanecer um projeto incompleto. A persistência de partidos tradicionais e o poder de figuras da oposição, mesmo após reveses eleitorais pontuais, demonstram a resiliência das lógicas que historicamente serviram a poucos em detrimento da maioria e que se oporão vigorosamente a qualquer projeto que ameace seus privilégios.
Para que a "nova etapa de transformações" do Pacto Histórico se traduza em uma Colômbia verdadeiramente mais justa e equitativa, é imperativo que as políticas públicas promovam não apenas uma maior redistribuição de recursos, mas também uma radicalização da participação popular e um redesenho das estruturas institucionais. Isso implica ir além da lógica meramente eleitoral para focar em reformas estruturais profundas, como uma reforma agrária significativa, a universalização de serviços públicos de qualidade, a taxação progressiva das grandes fortunas e a proteção e valorização dos direitos dos trabalhadores e das comunidades tradicionais. Somente com um compromisso inabalável com a democratização do poder e da riqueza, e com a construção de uma economia que sirva ao bem-estar coletivo e à sustentabilidade ambiental, será possível romper com o ciclo de desigualdade estrutural e avançar rumo a uma sociedade que realize plenamente os direitos fundamentais de todos os seus cidadãos.
Colômbia: Pacto Histórico e a Era de Reformas sob o Governo Petro
A Ascensão do Pacto Histórico e a Esperança de Mudança
A Colômbia assiste a um momento político de inegável significado com a ascensão do Pacto Histórico, liderado pelo presidente Gustavo Pietro e representado por Iván Cepeda nas urnas, alcançando uma bancada expressiva no Congresso. Este resultado, que a Tese apresenta com o otimismo de uma nova era de transformações e uma "rebelião dos cidadãos contra a grande corrupção", reflete um anseio legítimo por mudanças, justiça e uma vida mais digna para a nação. O clamor por uma Colômbia que se torne uma "potência mundial da vida" ressoa com a esperança de muitos, sugerindo um futuro onde a prosperidade seja partilhada e os direitos, assegurados.
Desafios e a Necessidade de Prudência na Transformação Política
Contudo, a celebração de um avanço eleitoral, por mais promissor que seja, precisa ser temperada pela prudência e por uma compreensão mais profunda das complexidades sociais e políticas, como bem aponta a Antítese. Não basta a mudança de cadeiras no parlamento para que as estruturas profundas que perpetuam a desigualdade se desfaçam. A voz que se ergue contra as "assimetrias de poder" e a "elite do atraso" não pode ser ignorada, pois ela sinaliza a necessidade de um olhar atento às raízes históricas e institucionais que impedem a plena realização do bem comum. Alexis de Tocqueville já advertia sobre as ilusões das maiorias e a resiliência das forças sociais arraigadas, lembrando-nos que a democracia, por si só, não garante a justiça se não for acompanhada de virtude cívica e respeito pelos limites da ação política.
O real desafio, portanto, não reside apenas em vencer eleições ou em proferir discursos contra a corrupção, mas em forjar um caminho que, em meio a um legislativo fragmentado, seja capaz de discernir e implementar reformas duradouras. A retórica de "transformações radicais" ou de uma "rebelião" deve ser cuidadosamente avaliada sob a luz da razão prática. É aqui que a sabedoria de Aristóteles nos adverte sobre a necessidade da phrónesis, a prudência, para a ação política. As reformas devem ser um meio-termo virtuoso, evitando tanto a paralisia conservadora quanto a impetuosidade revolucionária que muitas vezes destrói mais do que constrói. A política não é a arte da guerra entre facções, mas a busca pela vida boa na polis, o que exige diálogo, compromisso e a busca incessante pelo justo.
Princípios para um Bem Comum Duradouro: Dignidade, Solidariedade e Subsidiariedade
Para que a Colômbia se eleve verdadeiramente, é imprescindível que suas ações se pautem pelos princípios perenes da lei natural e pelo bem comum, tão caros a São Tomás de Aquino. A dignidade da pessoa humana, inviolável desde a concepção, deve ser o centro de toda política pública, guiando a redistribuição material e o reconhecimento cultural e social. A solidariedade com os mais vulneráveis exige que os bens da terra sirvam a todos, mas a subsidiariedade, por sua vez, nos lembra que as comunidades e os indivíduos devem ter espaço e responsabilidade para resolver suas próprias questões, sem que o Estado absorva suas prerrogativas. A busca por um "redesenho das estruturas institucionais" deve fortalecer os laços comunitários e a livre iniciativa, não os sufocar com uma centralização excessiva.
Além das Polarizações: O Caminho para uma Colômbia Potência da Vida
Assim, a "nova etapa de transformações" proposta pelo Pacto Histórico só será genuína se transcender as polarizações ideológicas para abraçar uma visão mais ampla, onde a justiça seja construída a partir da virtude cívica e da busca pelo bem comum em todas as esferas. Uma Colômbia que almeja ser uma "potência mundial da vida" não o fará apenas pela via de reformas econômicas ou institucionais, mas pela renovação moral de seus cidadãos e líderes, pela educação que forma a consciência e pelo respeito à tradição que informa a ação presente. A superação dialética não se opera pela anulação de uma parte pela outra, mas pela elevação do debate a um plano de princípios universais, onde a liberdade e a responsabilidade caminham de mãos dadas em prol de uma sociedade verdadeiramente humana e florescente.
Fonte original: Hora do Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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