A esquerda colombiana, liderada pelo partido Pacto Histórico do presidente Gustavo Petro, prevaleceu nas eleições legislativas de domingo, 9 de março de 2026. O Pacto Histórico obteve a maioria no Senado e se manteve como força principal na Câmara dos Deputados. Os resultados, que renovaram 103 cadeiras no Senado e 183 na Câmara para o período de 2026 a 2030, posicionam a esquerda como competitiva para a disputa presidencial de 31 de maio.
Com quase 99% das apurações concluídas, o Pacto Histórico conquistou 25 cadeiras no Senado (22,7%), quatro a mais do que em 2022. As principais forças seguintes foram o Centro Democrático, com 17 vagas (15,6%), o Partido Liberal Colombiano, com 13 cadeiras (11,7%), e a Aliança pela Colômbia, com 11 assentos (9,8%). O ex-presidente Álvaro Uribe, que ocupava a 25ª posição na lista do Centro Democrático, não conseguiu se eleger.
Na Câmara dos Deputados, o Centro Democrático liderou com 13,53% dos votos, seguido pelo Partido Liberal Colombiano (11,13%) e o Partido Conservador (10,4%). O Pacto Histórico obteve 4,8%, sendo a quarta força. A organização Directorio Legislativo indicou que a fragmentação legislativa deve continuar, exigindo negociações do próximo presidente e sugeriu que "o governo poderia acelerar medidas econômicas, como o aumento do salário mínimo, e promover projetos mais radicais, como a reforma constitucional". Três primárias presidenciais foram definidas, somando 16 candidatos. Iván Cepeda, do Pacto Histórico, expressou otimismo: "Hoje começa nosso segundo tempo, com um banco forte e comprometido iniciaremos uma nova fase de transformações." Abelardo de la Espriella, da ultradireita, declarou que a esquerda ter a "maior bancada do Congresso" era "muito grave".
O presidente Gustavo Petro não pode buscar um novo mandato pela Constituição colombiana. As eleições legislativas são um termômetro para o pleito presidencial, que projeta um segundo turno entre Cepeda e De la Espriella em 21 de junho. O governo de Petro aprovou apenas 2 de suas 15 propostas de reformas no último ano. Observadores apontaram atos de violência política, incluindo o assassinato do senador Miguel Uribe em 2025.
O recente avanço da esquerda nas eleições legislativas colombianas, com a significativa performance do Pacto Histórico, oferece um vislumbre de esperança para a democratização do poder. Contudo, interpretar estes resultados como uma vitória consolidada, sem uma análise mais profunda das estruturas que persistem, seria um equívoco. A persistente fragmentação na Câmara dos Deputados e a dificuldade em aprovar reformas substantivas do governo Petro nos últimos anos evidenciam que o caminho para uma transformação social genuína está longe de ser linear, revelando a tenacidade das forças conservadoras e a profundidade dos entraves institucionais.
As assimetrias de poder na Colômbia não se dissolvem apenas com o voto. Como bem nos ensina Florestan Fernandes ao analisar as dinâmicas de dependência e as resistências à modernização em contextos periféricos, a "elite do atraso" mantém mecanismos de controle que vão muito além do processo eleitoral formal. A menção de que o governo Petro aprovou apenas 2 de 15 reformas propostas, bem como a ocorrência de violência política – culminando no assassinato de um senador em 2025 –, sublinha a ferocidade com que certos setores reagem a qualquer tentativa de redistribuição de poder e renda. Quem se beneficia da manutenção deste status quo são grupos oligárquicos e econômicos historicamente privilegiados, enquanto a vasta maioria da população, especialmente os vulneráveis socialmente, continua aguardando o acesso efetivo a direitos fundamentais.
A proposta de "acelerar medidas econômicas, como o aumento do salário mínimo, e promover projetos mais radicais, como a reforma constitucional", como sugerido na tese, ilustra precisamente a tensão entre a demanda por políticas públicas inclusivas e a resistência das estruturas. Boaventura de Sousa Santos nos alerta sobre a "colonialidade do poder", onde modos de ser, saber e poder hegemônicos continuam a operar, travando a emergência de outras epistemologias e modelos de sociedade. Neste cenário, as conquistas eleitorais da esquerda, embora cruciais, representam apenas um passo inicial em um processo de descolonização de estruturas que historicamente perpetuaram desigualdades, marginalizando a participação popular e a construção de uma equidade verdadeira.
Para que a Colômbia avance rumo a uma sociedade mais justa, é imperativo que a esquerda não apenas capitalize sobre suas vitórias eleitorais, mas também aprofunde o debate e a mobilização em torno da necessidade de reformas constitucionais e institucionais que realmente desmantelem as bases da desigualdade estrutural. A verdadeira democratização exige não apenas representatividade, mas a garantia de que as políticas públicas sejam desenhadas e implementadas para promover a redistribuição de recursos e oportunidades, enfrentando de forma corajosa os interesses que se opõem à emancipação coletiva e à construção de um futuro mais inclusivo para todos os colombianos.
Eleições na Colômbia: Transformação Política e os Princípios Perenes
Os recentes resultados das eleições legislativas na Colômbia, que apontam para uma significativa reconfiguração do cenário político com o avanço de novas forças, servem como um espelho para questões perenes que desafiam qualquer sociedade em sua busca por justiça e ordem. Longe de ser um mero balanço de poder partidário, a dinâmica colombiana nos convida a meditar sobre a natureza da verdadeira transformação social e os alicerces morais que devem sustentar a edificação de uma vida política virtuosa.
Além das Urnas: Desafios Estruturais e a Persistência do Poder
É inegável que a vontade popular manifestada nas urnas exige uma resposta das instituições. Contudo, a análise que aponta que o sucesso eleitoral, por si só, não desfaz as complexas teias de poder e os entraves institucionais que historicamente moldam a vida de uma nação acerta em seu diagnóstico. A persistência de assimetrias de poder e a tenacidade de resistências a reformas substantivas, como observado pela dificuldade do governo atual em avançar com suas propostas, são realidades insofismáveis que exigem uma reflexão profunda. Mais grave ainda é a recorrência de violência política, um ferimento à dignidade humana que macula qualquer processo democrático. Como nos alertava Edmund Burke, a sociedade é um contrato entre gerações, um organismo complexo que não pode ser desfeito ou refeito por meros caprichos ideológicos, mas que exige uma contínua e prudente renovação.
A demanda por uma transformação que vá além da superfície eleitoral, que desmantele as bases da desigualdade estrutural, é uma aspiração justa e legítima. Contudo, a maneira como essa transformação é concebida e implementada é crucial. O risco reside em confundir a necessidade de reforma com a sedução de projetos que, em sua ânsia por um futuro idealizado, negligenciam a prudência e a sabedoria acumulada pela tradição, trocando a evolução por uma revolução que pode gerar mais males do que bens.
A Sabedoria dos Antigos: Aristóteles, Aquino e a Vida Boa
É neste ponto que a sabedoria perene de pensadores como Aristóteles e São Tomás de Aquino nos oferece um farol. Para Aristóteles, o objetivo da política não é meramente a distribuição de poder ou recursos, mas a promoção da vida boa, da eudaimonia, onde o cidadão pode desenvolver suas virtudes em uma comunidade justa. São Tomás, por sua vez, alicerça toda a lei humana na lei natural, que revela os princípios universais para uma convivência humana digna, orientando a sociedade para o bem comum. A verdadeira mudança, portanto, não é uma mera substituição de elites ou a imposição de uma nova ordem, mas a criação de condições para que a dignidade da pessoa humana seja respeitada em todas as suas dimensões, e para que as instituições reflitam essa ordenação natural.
A Virtude da Prudência na Ação Política
A prudência, a phrónesis aristotélica, é a virtude intelectual e moral que nos permite discernir o caminho do meio-termo, a ação justa e eficaz em meio à complexidade política. Ela nos adverte contra a tentação de soluções simplistas ou utópicas, que prometem revoluções mas frequentemente semeiam desordem e tirania. A prudência exige que as reformas, por mais necessárias que sejam, sejam implementadas de forma gradual, respeitando a estrutura orgânica da sociedade e buscando o consenso mais amplo possível, em vez de rupturas abruptas. Acelerar medidas econômicas ou propor reformas constitucionais sem essa cautela, sem uma análise profunda de suas consequências para o bem comum de todos os cidadãos, pode gerar mais instabilidade do que justiça genuína.
Superando o Embate: Princípios Perenes e o Bem Comum
A verdadeira superação do embate colombiano não reside em um avanço incondicional de uma agenda em detrimento de outra, nem em uma mera conciliação tacanha, mas na elevação do debate para o plano dos princípios perenes. Isso implica que a busca por uma sociedade mais justa e equitativa deve ser orientada pela lei natural, que defende a inviolabilidade da vida e a dignidade humana em cada indivíduo, rechaçando categoricamente a violência política como instrumento de ação. Significa, ainda, fortalecer a subsidiariedade, permitindo que as comunidades e indivíduos resolvam o que lhes compete, enquanto o Estado garante as condições para o florescimento do bem comum e a defesa dos mais vulneráveis, em um espírito de solidariedade responsável.
Rumo a um Futuro Promissor: Virtudes Cívicas e Estabilidade
O desafio colombiano, e de qualquer nação em transição, é o de construir pontes sobre as fissuras ideológicas, buscando um projeto de nação que transcenda as vitórias eleitorais e as resistências pontuais. Um futuro verdadeiramente promissor para a Colômbia dependerá da capacidade de seus líderes e cidadãos de cultivarem as virtudes cívicas, de agirem com razão reta e prudência, e de manterem o bem comum como a estrela-guia inabalável, honrando a dignidade de cada pessoa e preservando a estabilidade que permite a prosperidade genuína e a paz social.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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