A saúde de uma comunidade não se assenta apenas em tijolos de hospitais e promessas de atendimento; ela se edifica sobre a dedicação e a competência de seus profissionais, cujo valor do trabalho precisa ser reconhecido para que possam, de fato, dedicar-se. O concurso público anunciado pela Prefeitura de Coaraci, no sul da Bahia, com suas 29 vagas para médicos em diversas especialidades, surge como uma resposta à carência evidente de pessoal. A intenção é louvável, a necessidade, inegável. Contudo, a análise detida dos valores remuneratórios propostos expõe uma falha estrutural que pode transformar a promessa de alívio em uma ilusão custosa para a população.
Os números falam por si e desenham um quadro preocupante. Vagas para Cardiologista por R$ 2.746,28 para 20 horas semanais, Psiquiatra por R$ 2.500 também para 20 horas, ou o salário de plantonista, fixado em R$ 1.068,12 em 2026, são remunerações que se chocam frontalmente com a complexidade, a responsabilidade e o longo e custoso tempo de formação inerentes à medicina. Em um país com a dimensão e as demandas do Brasil, é um juízo temerário esperar que profissionais altamente qualificados se atraiam e se fixem por valores tão aquém do mercado e da dignidade da profissão. A questão não é mera preferência, mas a base material para uma vida digna, para a contínua atualização profissional e para a própria subsistência do médico e de sua família.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII com a Rerum Novarum, sublinha que o trabalho não é uma mercadoria e que o salário justo não é apenas uma questão econômica, mas moral. Ele deve ser suficiente para sustentar o trabalhador e sua família, com base na natureza do trabalho e nas condições do mercado. Ignorar essa premissa é cair nos reducionismos que tanto comprometem a vida pública: a ideia de que “é o que o orçamento permite” não pode sobrepor-se à exigência de um mínimo de decência. Tampouco se sustenta a ilusão de que “sempre haverá interessados” ou que o “serviço público é um chamado” que dispensa condições materiais básicas. Tais argumentos, mais que simplificações, revelam uma compreensão limitada da justiça e da realidade da vocação profissional.
O resultado prático de uma política remuneratória tão descompassada é a corrosão da confiança e da qualidade do serviço. Médicos talentosos, com opções de mercado mais justas, não migrarão para Coaraci ou, se o fizerem por necessidade imediata, rapidamente buscarão outras portas. Isso gera alta rotatividade, descontinuidade do cuidado, sobrecarga dos que ficam e, em última instância, uma população desassistida ou atendida de forma precária. O custo real dessa “economia” é impagável: a degradação da saúde pública, o sofrimento dos mais vulneráveis e o descrédito nas instituições que deveriam zelar pelo bem da cidade. A validade do concurso de até quatro anos pode apenas camuflar um problema que ressurgirá, talvez agravado, no futuro próximo.
É verdade que a gestão municipal lida com orçamentos restritos e demandas múltiplas. Mas a prudência, que é a reta razão no agir, exige que se faça um cálculo moral e político honesto. Não se trata de uma simples conta de custo, mas de um investimento na dignidade humana e na capacidade de uma comunidade prosperar. Quais estudos de mercado foram feitos? Há um plano para compensar a baixa atratividade salarial com outras estratégias (moradia, segurança, infraestrutura para as famílias dos médicos)? A resposta para a carência não pode ser uma oferta que, na prática, repulsa o talento. É preciso um juízo reto que reconheça que o custo de não ter médicos qualificados é sempre maior do que o investimento em remunerações justas.
O edital de Coaraci, ao oferecer salários que flertam com o irrisório para uma profissão tão vital, não apenas desrespeita o médico; ele se arrisca a negar à própria população o cuidado que ela merece. A verdadeira sustentabilidade de um serviço público não reside na mesquinhez de seus termos, mas na capacidade de atrair e manter os melhores, porque a vida de um cidadão não tem preço, mas o trabalho que a protege deve ter um valor justo.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.