O Brasil conquistou seu primeiro Oscar em pleno Carnaval, colecionou prêmios em Cannes e Berlim, produziu mais filmes do que nunca e injetou na indústria audiovisual um volume de dinheiro público que beira o inacreditável, ultrapassando um bilhão de reais em 2025. Que país! Que potência cultural! Não fosse por um pequeno detalhe: a despeito de tanta glória e tanto investimento, o público brasileiro simplesmente não viu esses filmes. As salas de cinema nacionais registraram uma queda de 14,77% na venda de ingressos para produções locais, enquanto mais da metade dos longas lançados sequer vendeu mil entradas. Um em cada sete títulos foi visto por menos de cem pessoas. Eis um paradoxo que faria Chesterton sorrir amargamente: temos uma fábrica de filmes que funciona a todo vapor, mas uma plateia que desertou antes mesmo que as luzes se apagassem. Não se trata de uma anomalia do mercado; é a anomia da prudência em matéria de bem comum.
A primeira falha é um vício de origem, um pecado capital na gestão pública: a idolatria da produção em detrimento da fruição. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) despejou R$ 546 milhões apenas em 2025, fora leis de incentivo e linhas de crédito, elevando o aporte público em quase 30% em relação ao ano anterior. Mas, para a comercialização – isto é, para que o filme chegue ao espectador – não se destina mais que 20% do investimento total. É como construir catedrais suntuosas sem portas ou como forjar martelos de ouro que jamais atingirão o prego: o valor intrínseco de uma obra, seu potencial cultural e sua capacidade de dialogar com a alma da nação, minguam se ela permanece invisível, condenada a estrear às 14h30 de uma quinta-feira para uma sala vazia, agonizando por uma semana antes de ser esquecida. O produtor Thiago Correia e a veterana Mariza Leão gritam o óbvio: sem publicidade e distribuição, o filme é um fruto proibido que apodrece na árvore da burocracia.
Alguns, é certo, argumentam que o objetivo do fomento público não é o retorno de bilheteria, mas a diversidade cultural, a manutenção da cadeia produtiva e o prestígio internacional. Nobre intenção, talvez. Mas, se o objetivo é a diversidade, que diversidade é essa que ninguém consome? Se é a cadeia produtiva, que indústria é essa que não dialoga com seu cliente final, o povo? E se o objetivo é o prestígio internacional, a que preço o Oscar ou o Urso de Prata, se a obra premiada é, no país que a gerou, um corpo sem alma, sem público? São Tomás nos ensina que toda ação visa um fim, e o fim último da arte, especialmente quando custeada pela coletividade, deve ser o enriquecimento da vida humana, a elevação do espírito e o fomento da comunidade. Um filme não visto é um fim abortado, um bem potencial que se esvai na indiferença.
A Doutrina Social da Igreja adverte sobre o dever de responsabilidade e a prudente administração dos bens, especialmente aqueles que pertencem a todos. Que dizer, então, de um passivo de R$ 2,27 bilhões em prestações de contas não analisadas pela Ancine, alguns projetos desde 2013? É uma brecha moral, um abismo de descontrole que afronta o princípio da transparência e a justiça para com o contribuinte. Enquanto isso, o exibidor, como Adhemar Oliveira do Espaço Petrobras, confessa-se “para-raio” de filmes que não pagam o custo da luz, obrigado a fazer girar uma economia que agoniza sob o peso de produções que não geram interesse. A cota de tela, um remendo legal, mal consegue abarcar um terço das estreias, revelando a futilidade de impor por decreto o que deveria brotar do encontro entre a obra e seu público.
Não se trata de advogar pela idolatria do mercado, que tem seus próprios vícios e distorções. Mas a subsidiariedade nos ensina que o Estado deve apoiar, não asfixiar; deve criar condições, não gerar monopólios de ineficiência ou fomentar a produção de “arte” que só existe para um círculo íntimo. Quando o poder público desvia recursos maciços para um setor sem garantir que o fruto desse investimento alcance o bem comum, ele se torna um agente de desordem. O cinema não é apenas uma arte; é uma indústria, uma cadeia de valor, e, acima de tudo, um espelho da alma coletiva. Se esse espelho está empoeirado e quebrado, a culpa não é apenas do “mau gosto” do público, mas da mão imprudente que o financia e da visão míope que o gesta.
A retórica de que se está “sustentando a existência do cinema nacional” é uma quimera, se o que se sustenta é uma forma de produção apartada de sua razão de ser: o público. Os raros sucessos de bilheteria, como “Ainda Estou Aqui” ou “O Auto da Compadecida 2”, mostram que há sede de histórias que ressoem com a alma popular. Mas esses são, por vezes, milagres que o sistema não se propõe a replicar. A virtude da prudência, que São Tomás eleva a rainha das virtudes morais, exige que se pondere os meios e os fins. O fim é o cinema como bem cultural para o povo brasileiro; os meios atuais estão falhos. É preciso coragem para reavaliar a métrica de sucesso, deslocando o foco da quantidade de fitas produzidas para a qualidade do impacto cultural e o alcance real da audiência.
O juízo, portanto, é inescapável: o atual modelo de fomento ao cinema brasileiro, apesar de suas boas intenções declaradas, padece de uma miopia crônica e uma grave imprudência na gestão dos recursos. Ele produz uma montanha de obras invisíveis, gerando prestígio para poucos, emprego para um nicho, mas desconexão e desperdício para a nação. O dever da autoridade legítima é zelar pelo bem comum com reta razão e transparência. Se a cultura deve ser acessível, se o cinema deve espelhar e elevar o povo, então é preciso que as luzes da sala se acendam para que o filme possa ser visto. Pois um filme, como a verdade, de nada vale se não for contemplado.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.