Quando a alma de um povo se inclina a buscar seu valor mais profundo no espelho de aplausos distantes, e a medir sua alegria pelo brilho de estatuetas estrangeiras, algo se desordena na balança da própria identidade. É com essa inquietação que observamos a celebração dos 20 anos da produtora RT Features na Cinemateca Brasileira, um evento que, ao mesmo tempo em que festeja a ambição e a perseverança de talentos nacionais, revela as tensões entre o reconhecimento externo e a saúde do corpo cultural interno.
Não se pode negar o mérito de um percurso de duas décadas, marcado por coproduções que alcançaram palcos globais e por uma audaciosa agenda de novos projetos. A resiliência de Rodrigo Teixeira e de sua equipe, ao atravessar períodos difíceis e ainda assim manter uma produção notável, é digna de apreço. É um testemunho da capacidade criativa brasileira que nomes como Fernanda Torres e Wagner Moura, entre tantos outros, consigam tocar corações e mentes para além de nossas fronteiras. Entretanto, nessa euforia, é preciso que a verdade não seja vítima da emoção. A honrosa indicação de “Ainda Estou Aqui” ao Oscar de Melhor Filme Internacional foi, sim, um feito que eleva o cinema nacional, mas o filme não levou a estatueta. A veracidade dos fatos é a primeira pedra no alicerce de qualquer narrativa pública, e um lapso nesse registro não pode ser secundário.
O valor de um povo, como ensinava Pio XII ao diferenciar “povo” de “massa”, reside na sua capacidade de agir com consciência e de reconhecer seus próprios talentos e destinos de forma orgânica, não meramente de consumir a glória de poucos como entretenimento. O cinema, nesse sentido, tem uma função que vai além de “dar a alegria que o futebol deixou de dar”. Ele deve ser um campo fértil para a justiça cultural, assegurando que o investimento público, vital para o setor como aponta o produtor, se traduza em raízes profundas e não apenas em frutos sazonais colhidos por uma elite. A concentração de capital e oportunidades em poucas mãos, por mais talentosas que sejam, levanta questões sobre a equidade e a real capilaridade da indústria.
O gênio paradoxal de um Chesterton talvez risse da pretensão de que a alegria de um povo, complexa e tecida de mil fios, pudesse ser tão facilmente substituída ou medida por um prêmio cinematográfico. A sanidade cultural nos impõe a verdade de que a autoestima nacional se ergue sobre pilares mais robustos do que o aplauso internacional, por mais legítimo que ele seja. Ela se constrói na capacidade de gerar uma diversidade de narrativas que ressoem com a própria gente, de formar novas plateias, de sustentar carreiras em todas as etapas da cadeia produtiva e de criar um cânone cultural que seja reconhecido primeiro em casa, com reverência.
É preciso, portanto, ir além da celebração pontual e questionar como o sucesso de uma produtora ou de um filme se irradia para o vasto e vulnerável ecossistema audiovisual brasileiro. A dependência de grandes plataformas ou de festivais internacionais para a “luz verde” ou a validação não deve suplantar a urgência de um fomento que olhe para a base, para os talentos emergentes e para os projetos que, embora talvez não vislumbrem o Oscar, são essenciais para a vitalidade da “casa” brasileira. A propriedade com função social, um princípio que se aplica também aos recursos públicos destinados à cultura, pede que o benefício seja amplamente partilhado.
O grande desafio, então, é conciliar a ambição de voos altos com a atenção às fundações. Que o louvável esforço de Rodrigo Teixeira inspire uma reflexão mais ampla: como construir um cinema que seja, em sua plena veracidade e justiça, verdadeiramente um reflexo da alma brasileira, capaz de encantar o mundo sem esquecer suas próprias origens.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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