A ambição de forjar uma unidade nacional, por mais louvável que se apresente em seus intentos retóricos, jamais se concretiza por decreto. Uma nação, em sua vitalidade orgânica, não é um mero agregado de indivíduos a ser moldado pela vontade do Estado, mas um povo, uma complexa tessitura de famílias, comunidades, tradições e linguagens que se entrelaçam no tempo. A “lei da unidade étnica” da China, aprovada com pompa e quase unanimidade forçada, não promete coesão; ela exige conformidade, e nessa exigência reside uma profunda contradição moral.
Os fatos são claros: o Partido Comunista Chinês, através de sua Assembleia Popular Nacional, impôs uma lei de 65 artigos que obriga o ensino do mandarim desde a pré-escola, restringe as línguas minoritárias, criminaliza “atividades de divisão étnica” e “extremismo religioso” com definições vagas, e ainda pretende intervir nos costumes matrimoniais de comunidades de fé. Para além, força a identificação com a “cultura chinesa, o Partido Comunista Chinês e o Socialismo com Características Chinesas”, e fomenta a diluição demográfica de minorias através de “comunidades mistas” com a maioria Han. Tudo isso sob o pretexto de “forjar um forte senso de comunidade do povo chinês” e promover um “grande rejuvenescimento”.
É inegável que todo Estado tem o direito e o dever de zelar pela ordem pública e pela segurança nacional. A legítima preocupação com separatismos violentos ou extremismos religiosos que ameacem a paz social não pode, contudo, servir de salvo-conduto para a supressão de direitos fundamentais. A Doutrina Social da Igreja, ecoando a lei natural, ensina que a dignidade da pessoa humana e a de suas comunidades culturais e religiosas são anteriores e superiores à vontade do Estado. O que a China chama de “unidade” não passa de uma homogeneização autoritária que confunde “povo” com “massa”, ignorando a riqueza da diversidade orgânica que Pio XII tão bem distinguiu. Onde há imposição cultural e linguística, onde a identidade mais profunda de um grupo é forçada à resignação, não há verdadeira coesão, mas uma mera pacificação imposta pela força.
A virtude da justiça é aqui clamada em sua totalidade. É justo que um povo preserve sua língua materna, que as famílias transmitam sua herança cultural aos filhos, que as comunidades de fé vivam seus costumes religiosos sem interferência indevida do poder civil. Ao invadir a esfera íntima da formação educacional e religiosa, o Estado chinês comete uma grave injustiça, usurpando prerrogativas da família e de corpos intermediários. O princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social desde Leão XIII, é brutalmente violado. O que pode ser resolvido ou preservado pelas comunidades locais não deve ser absorvido ou aniquilado pela autoridade superior. É a soberba da estatolatria, denunciada por Pio XI, em plena operação, acreditando poder moldar a alma de seus cidadãos como argila em suas mãos.
Além da injustiça, a lei peca contra a veracidade. A “unidade” que Pequim almeja é uma quimera, uma uniformidade imposta que, paradoxalmente, semeia o terreno fértil para a alienação e o ressentimento. G. K. Chesterton, em sua lucidez contra a loucura lógica das ideologias, diria que ao tentar cortar todas as pontas salientes de um edifício para que ele se torne perfeitamente “liso”, corre-se o risco de derrubá-lo. A verdadeira solidez vem da harmonização das diferenças, não de sua eliminação. A pretensão de “liderar cada grupo étnico a cultivar um espírito étnico com o patriotismo em seu cerne e persistir na identificação com… o Partido Comunista Chinês e o Socialismo com Características Chinesas” não é outra coisa senão doutrinação em larga escala, disfarçada de civismo.
O histórico de repressão contra uigures em Xinjiang e os protestos de mongóis na Mongólia Interior são testamentos vivos da insensatez dessa abordagem. As “atividades de divisão étnica” e o “extremismo religioso” são rótulos convenientes para silenciar qualquer manifestação legítima de identidade ou discordância. Ao invés de edificar uma nação onde diferentes povos possam contribuir com sua riqueza única para o bem comum, a China escolhe o caminho da uniformidade coercitiva. Uma nação não se rejuvenesce esmagando a alma de seus filhos, mas liberando sua legítima e ordenada capacidade de florescer.
No fim das contas, a chamada “lei da unidade étnica” não construirá a tão proclamada “comunidade do povo chinês”. Ela a fragmentará em segredo, gerando uma lealdade artificial e uma paz superficial que se esvaziará na primeira rachadura, por não ter sido edificada na rocha do respeito à dignidade de cada pessoa e à pluralidade natural de suas raízes. Um Estado que confunde unidade com uniformidade, e lealdade com submissão ideológica, está condenado a uma coexistência frágil, não a uma verdadeira comunhão de corações.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.