Quando se observa a China, é como estar diante de uma imponente máquina de estado, projetada e operada com uma precisão quase absoluta. Cada engrenagem, cada ciclo de cinco anos do planejamento, cada diretriz emanada do Comitê Central do Partido Comunista Chinês parece obedecer a uma lógica interna férrea, que coordena desde a eleição de seus mais altos quadros — como o Comitê Permanente do Politburo, a autoridade política máxima do país — até a antecipação de discussões cruciais como a do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), que, de forma atípica, foi deliberada já na 4ª plenária do 20º Comitê Central. É um sistema que se autoapresenta como a vanguarda de uma “democracia do povo em processo integral”, onde o próprio povo seria o “mestre do país”.
Essa descrição, que elogia a eficiência e a coerência estratégica, nos convida a admirar a complexidade de um aparato que integra oito partidos legalmente reconhecidos numa “Frente Unificada”, tudo sob a liderança do PCCh. No entanto, o dever da reta razão e da verdade nos obriga a perguntar: o que, exatamente, se entende por “democracia” quando não há alternância de poder por eleições livres, quando a liberdade de expressão é rigidamente controlada e quando um poder judiciário independente é, na prática, inexistente? Não se trata de uma mera diferença cultural ou de um modelo alternativo; trata-se de uma fundamental assimetria de poder que inverte a ordem natural dos bens.
Segundo a Doutrina Social da Igreja, a dignidade da pessoa humana é o fundamento e o fim da ordem social. Ora, um sistema que concentra o poder decisório de forma quase absoluta no Partido Comunista, sem freios e contrapesos externos robustos, inevitavelmente vulnera essa dignidade. A ideia de que o “povo é o mestre” soa como um eco distorcido quando a participação é orquestrada, e não fruto de uma escolha livre e informada. A eficiência do planejamento centralizado não pode servir de véu para a ausência de responsabilização real dos líderes nem para a supressão da capacidade do cidadão de contestar o poder sem temor. O que ali se propõe como “cooperação multipartidária sob liderança do PCCh” é, na verdade, uma subordinação que nega a legítima pluralidade de ideias e propostas essenciais à vitalidade de um corpo social.
Esta pretensão de gerir a totalidade da vida social e econômica, de cima para baixo, assemelha-se à estatolatria criticada por Pio XI, que via no Estado a absorção indevida dos corpos intermediários e das liberdades individuais. Um regime que se arroga o direito de definir o “processo integral” da democracia acaba por tratar o povo não como um conjunto de pessoas livres e responsáveis, mas como uma massa a ser moldada e dirigida, perdendo de vista a subsidiariedade — o princípio segundo o qual o que pode ser feito pela instância menor não deve ser avocado pela maior. A verdadeira justiça política exige que a autoridade, em vez de se impor, emerja de um consentimento genuíno e se submeta a uma fiscalização efetiva.
O planejamento estratégico, por mais detalhado que seja, não pode suplantar os direitos inalienáveis da pessoa. A ausência de eleições competitivas pluripartidárias, a supressão sistemática da dissidência e as restrições severas à liberdade de imprensa e de expressão são custos éticos que nenhuma promessa de estabilidade ou desenvolvimento pode justificar. Como notava Chesterton, a loucura mais perigosa é aquela que se veste de lógica impecável. Chamar de “democracia” um sistema que desautoriza a livre escolha e a crítica aberta é um paradoxo que esvazia o próprio sentido da palavra.
Ainda que a “ficha factual” descreva um sistema funcional em seus próprios termos, e a diplomacia exija diálogo — como o encontro de Xi Jinping com Donald Trump em Busan demonstra —, a Doutrina Social da Igreja adverte que o valor de um sistema político não se mede apenas por sua capacidade de produzir resultados materiais ou manter a ordem aparente, mas por sua adesão aos princípios da justiça, da veracidade e do respeito intrínseco à dignidade humana. A pretensa “democracia do povo em processo integral” revela-se, sob escrutínio ético, um processo de controle integral, onde a alma da liberdade é silenciada em nome de uma racionalidade tecnocrática.
A história nos ensina que nenhuma estrutura, por mais imponente que seja, pode substituir o edifício da dignidade humana, construído tijolo a tijolo pela liberdade responsável.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.