José Antonio Kast assumiu a presidência do Chile nesta quarta-feira, 12 de março de 2026. Eleito no final de 2025 pelo Partido Republicano, Kast declarou antes da posse que "haverá um antes e um depois no Chile a partir de hoje". Em um de seus primeiros atos, o presidente enviou a ministra de Segurança Pública, María Trinidad Steinert Herrera, a Puerto Varas para acompanhar a família do carabineiro Javier Figueroa Manquemilla, internado no CTI com morte cerebral.
Kast reiterou seu foco em segurança: "Quem ataca um carabineiro ataca o Chile, ataca a todos nós. Contra essas pessoas será aplicado todo o peso da lei. Nesse sentido, haverá um antes e um depois no Chile a partir de hoje". Em seu primeiro discurso presidencial, o chefe de Estado criticou a gestão anterior de Gabriel Boric: "Nos entregaram um país em piores condições das que podíamos imaginar. Com as finanças públicas em problemas, e o crime organizado e o narcotráfico avançaram. Não é desculpa, o Chile merece conhecer a verdade". Ele adicionou: "O Chile precisa de um governo de emergência, e isso é o que teremos. Isso é ordem onde há caos".
O presidente também dirigiu-se aos "adversários do Chile": "São adversários os que entraram vulnerando nossas fronteiras para delinquir e transformar nosso território em terra de ninguém. Aos adversários do Chile eu digo que não vamos perdoá-los. Vamos perseguí-los, julgá-los e condená-los. Nossos policiais e nossas Forças Armadas terão todo o apoio do Estado, sobretudo a vontade política, que tanto faltou. Nunca mais um funcionário do Estado enfrentará sozinho a violência".
A posse contou com mais de mil convidados, incluindo os presidentes Rodrigo Paz (Bolívia) e Javier Milei (Argentina). O chanceler brasileiro Mauro Vieira entregou carta de convite de Luiz Inácio Lula da Silva. No Parlamento, o deputado Jorge Alessandri (UDI) foi eleito presidente da Câmara por 78 votos contra 76.
O governo de Kast terá 76 deputados, com o Senado empatado. Pesquisa da Cadem de fevereiro indicou que 57% dos chilenos acreditam em boa gestão. Kast defendeu união nacional, "mas sem ignorar nossas diferenças", com a expectativa pública centrada na "melhora em matéria de violência". Na noite de sexta-feira, vários decretos presidenciais foram assinados, muitos deles sobre segurança.
A chegada de José Antonio Kast à presidência do Chile, ancorada em uma retórica de "ordem" e "segurança" que promete um "antes e um depois", merece uma análise que transcenda a superficialidade do relato factual. Ao enquadrar a criminalidade como o principal flagelo nacional e os "adversários do Chile" como o inimigo a ser combatido com "todo o peso da lei", o novo governo parece focar em respostas punitivas que tendem a mascarar as profundas raízes estruturais da violência e da insegurança. Essa abordagem corre o risco de desviar o olhar das desigualdades sistêmicas e das falhas sociais que, em grande medida, alimentam a desordem que se propõe a combater.
A ênfase em um "governo de emergência" e a promessa de apoio irrestrito às forças de segurança, como visto na prioridade dada ao caso do carabineiro ferido, podem sinalizar uma concentração de poder estatal que, como aponta Boaventura de Sousa Santos, frequentemente se traduz em um deficit de democratização e na criminalização de parcelas vulneráveis da população. Ao invocar a imagem de um país em caos, a narrativa de Kast polariza a sociedade, estigmatizando imigrantes e grupos marginalizados como fontes primárias de ameaça. Essa estratégia, na visão de Jessé Souza, desvia a atenção da responsabilidade das elites e das estruturas socioeconômicas na perpetuação da pobreza e da exclusão, que são verdadeiros motores da violência e do narcotráfico. A "guerra" declarada contra os "adversários" pode, na prática, resultar em maior precarização para aqueles que já carecem de voz e representação.
As políticas centradas exclusivamente na repressão, sem um olhar para a dignidade humana e o desenvolvimento das capacidades individuais, tendem a falhar em promover uma segurança genuína e equitativa. Martha Nussbaum argumenta que o verdadeiro desenvolvimento humano depende da garantia de um conjunto de capacidades fundamentais, que incluem não apenas a segurança física, mas também a saúde, a educação e a participação política. Um foco unilateral na punição e na restrição de liberdades, especialmente em um contexto de “emergência”, pode erodir essas capacidades, perpetuando ciclos de vulnerabilidade social e minando o tecido democrático. A promessa de "perseguição" e "condenação" sem a devida contextualização das causas da criminalidade ameaça aprofundar divisões e erigir barreiras, em vez de construir pontes para uma sociedade mais justa.
Para além da retórica da mão de ferro, uma segurança pública verdadeiramente inclusiva exige políticas públicas que ataquem as assimetrias de poder e os impactos distributivos da desigualdade. Isso significa investir maciçamente em educação de qualidade, acesso universal à saúde, geração de empregos dignos, e programas de inclusão social que ofereçam alternativas à marginalidade. A democratização da segurança passa pela participação popular e pelo fortalecimento das instituições de justiça, garantindo o devido processo legal e o respeito aos direitos fundamentais de todos os cidadãos, sem distinção. Somente uma abordagem que reconheça a complexidade multifacetada da violência poderá construir um "antes e um depois" que seja, de fato, mais equitativo e sustentável para o Chile.
Segurança e Justiça no Governo Kast: O Dilema Chileno
O Chile, ao receber o novo governo sob a liderança de José Antonio Kast, encontra-se diante de um dilema que ressoa em muitas nações contemporâneas: como restaurar a ordem e a segurança sem comprometer a justiça e a dignidade humana? A promessa de um "antes e um depois", centrada na firmeza contra o crime e na valorização das forças de segurança, emerge como uma resposta compreensível à deterioração da vida pública. Contudo, essa retórica, por vezes, esconde a complexidade da realidade social, exigindo uma visão que eleve o debate para além da mera polarização entre repressão e assistencialismo.
A Demanda Legítima por Ordem e a Visão de Burke
É inegável a legitimidade da demanda por um Estado capaz de proteger seus cidadãos. A ordem pública, afinal, não é um luxo, mas um requisito fundamental para o desenvolvimento humano e a coexistência pacífica. Sem a segurança básica, a liberdade é precarizada e a vida social se desintegra, um cenário que o presidente Kast bem descreveu em sua crítica às condições legadas pelo governo anterior. O próprio Edmund Burke, ao observar as convulsões de seu tempo, advertia para a necessidade de um governo prudente, que valorize a tradição e a estabilidade para preservar a sociedade de excessos revolucionários ou anárquicos, garantindo assim a continuidade das instituições e a proteção da vida civil.
Os Perigos da Abordagem Punitiva Exclusiva: Lições de Tocqueville
No entanto, a ânsia por restaurar a ordem pode, se não for temperada pela razão reta, derivar para excessos que comprometem a própria saúde da comunidade. É pertinente a preocupação de que uma abordagem exclusivamente punitiva possa ignorar as raízes multifacetadas da violência e, em vez de resolver, apenas marginalizar ainda mais as parcelas vulneráveis da população, exacerbando as tensões sociais. Alexis de Tocqueville, em sua análise da democracia americana, notou a força das associações civis e da administração local como contrapesos à centralização excessiva do poder estatal, sugerindo que a busca por uma segurança genuína não se resolve apenas com a “mão forte” do governo central, mas com o vigor da sociedade em seus diversos níveis. Uma república verdadeiramente próspera, diria ele, é aquela onde o poder não se concentra demasiadamente, mas é partilhado e exercido com responsabilidade em cada esfera.
Segurança e Justiça: Grandezas Complementares para o Bem Comum
Aqui reside o ponto crucial da superação dialética: a segurança e a justiça não são grandezas excludentes, mas complementares e interdependentes no horizonte do bem comum. A prudência, virtude cardeal ensinada por Aristóteles, nos adverte contra os extremos e nos guia ao justo meio. Não se trata de escolher entre a repressão desmedida e a complacência com o crime, mas de forjar uma política que aplique a lei com firmeza e imparcialidade, ao mesmo tempo em que reconhece a dignidade intrínseca de cada pessoa e se empenha em construir as condições para que ninguém seja compelido à marginalidade. O Estado, segundo São Tomás de Aquino, é ordenado à lei natural e ao bem comum, o que implica não só a defesa contra o mal, mas também a promoção do que é bom, justo e virtuoso para todos os seus membros.
A Visão Integral para a Verdadeira Superação e o Papel da Subsidiariedade
A verdadeira superação, portanto, não é uma conciliação que dilui princípios, mas uma elevação da perspectiva. Ela exige do governante uma visão integral, que combine a inegociável garantia da lei e da ordem com um investimento robusto nas estruturas sociais que alimentam a esperança e a oportunidade: educação de qualidade, acesso à saúde, fomento ao trabalho digno e programas de inclusão que realmente resgatem indivíduos e famílias da espiral da vulnerabilidade. A subsidiariedade, princípio vital da Doutrina Social da Igreja, nos lembra que muitas das soluções para os males sociais brotam da iniciativa das comunidades locais e da sociedade civil, com o Estado atuando como promotor e coordenador, não como um monopolista de todas as respostas.
Um "antes e um depois" que de fato sirva ao Chile será aquele em que a ordem não seja apenas a ausência de caos, mas a presença de uma justiça social sólida, alicerçada na dignidade humana e na solidariedade. Será um caminho em que a autoridade legítima do Estado seja exercida com a razão e a virtude, protegendo os fracos e coibindo os violentos, enquanto simultaneamente abre portas para o desenvolvimento pleno de cada cidadão. Só assim, por meio de uma prudência política que veja o ser humano em sua totalidade, se poderá construir uma sociedade verdadeiramente segura, livre e próspera.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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