Chile: Kast, Segurança e Justiça Social | A Busca pelo Bem Comum

Analise a ascensão de Kast no Chile e o debate entre segurança e justiça social. Descubra como a lei natural e o bem comum podem guiar uma governança próspera e digna.

🔵 Tese — O Relato Factual

José Antonio Kast, advogado de extrema direita, assumiu a presidência do Chile nesta quarta-feira, 11 de março, em uma cerimônia solene no plenário do Congresso em Valparaíso. Sua posse o estabelece como o chefe do Executivo conservador mais radical no país desde a ditadura de Augusto Pinochet. Ele sucede o presidente esquerdista Gabriel Boric, que concluiu seu mandato de quatro anos.

Kast, de 60 anos, proferiu "Sim, juro" ao tomar posse em Valparaíso, a 110 km de Santiago. Minutos antes, declarou a jornalistas que "As coisas vão mudar", após condenar um ataque a tiros contra um policial no sul do país. Ele prometeu um "governo de emergência" para enfrentar a criminalidade e a imigração irregular. Seu primeiro ato foi empossar os 24 ministros do gabinete, incluindo dois que foram advogados de Augusto Pinochet, cuja ditadura (1973-1990) registrou mais de 3.200 mortos e desaparecidos.

Cidadãos expressaram esperança por segurança, como o vendedor José Miguel Uriona, de 65 anos, que afirmou à AFP ter "expectativas esperançosas" com Kast após "muitos anos com muito vandalismo e muita criminalidade". A estudante Ingrid Pino, de 38 anos, esperava que "o país cresça economicamente e que a criminalidade finalmente possa acabar e possamos viver tranquilos". Embora o Chile tenha registrado uma taxa de homicídios de 5,4 por 100 mil habitantes em 2025, uma das mais baixas da América Latina, Kast apresentou o país como um "Estado falido" durante a campanha, vencendo as eleições presidenciais. A nova porta-voz do governo, Mara Sedini, informou à AFP que a administração focará em "solucionar crises que são importantes e prioritárias para os chilenos", visando crescimento econômico e "segurança migratória".

A cerimônia de posse contou com a presença de diversos líderes, incluindo os presidentes Javier Milei (Argentina), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador), além do subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, e a Nobel da Paz venezuelana María Corina Machado. O analista político Rodrigo Arellano avaliou que Kast representa "uma direita conservadora como não se conhecia desde o retorno à democracia", em 1990.

🔴 Antítese — O Contra-Argumento

A ascensão de José Antonio Kast à presidência do Chile, embora revestida da solenidade inerente à transição democrática, não pode ser lida como um simples capítulo da alternância de poder. O que a narrativa factual sublinha é a efetivação de uma estratégia que instrumentaliza o medo e a ansiedade social, forjando uma percepção de "crise" para legitimar uma agenda de recuo nos direitos coletivos e de aprofundamento das assimetrias de poder. Este movimento é particularmente preocupante quando se observa a explícita filiação a um passado autoritário, sugerindo uma reorientação estrutural do Estado que transcende a mera gestão administrativa.

A ênfase na "segurança" e no combate à "criminalidade" e à "imigração irregular", conforme expressa pelas expectativas populares e pelas promessas de Kast, revela uma tática eficaz de desvio do foco das verdadeiras vulnerabilidades sociais. Como apontaria Jessé Souza em suas análises sobre a construção social da "ralé", a invocação do crime e da desordem serve muitas vezes como um biombo ideológico para mascarar a ausência de políticas públicas inclusivas e a persistência de desigualdades econômicas e sociais. A criação de um "Estado falido" na retórica eleitoral, em contradição com dados objetivos sobre taxas de homicídio, evidencia a manipulação de narrativas que penalizam os estratos mais marginalizados, enquanto os benefícios do crescimento econômico prometido tendem a se concentrar nas elites.

A nomeação de advogados com ligações à ditadura de Pinochet e o alinhamento com líderes regionais de perfil similar sinalizam uma agenda que, para além da segurança, visa consolidar um modelo de Estado que revaloriza a ordem autoritária em detrimento da democratização e da ampliação de direitos fundamentais. A busca por um "crescimento econômico" sem a devida preocupação com a redistribuição equitativa dos seus frutos pode gerar, como Nancy Fraser argumentaria, uma falsa dicotomia entre reconhecimento cultural e justiça socioeconômica, onde a retórica da "ordem" encobre a resistência a qualquer iniciativa que questione a acumulação de capital e as estruturas de privilégio. A "segurança migratória", nesse contexto, pode traduzir-se facilmente em políticas xenófobas que desumanizam e desprotegem.

Para superar as armadilhas dessa retórica, seria imperativo defender um modelo de desenvolvimento que priorize a equidade e a participação popular, compreendendo que a verdadeira segurança emana da garantia de direitos, acesso à educação de qualidade, saúde e oportunidades econômicas para todos. A construção de uma sociedade resiliente e justa exige um compromisso com políticas públicas inclusivas que ataquem as raízes da desigualdade estrutural, promovam a solidariedade e o diálogo intercultural, e fortaleçam as instituições democráticas contra o risco de revisionismo histórico e autoritarismo. A responsabilidade é resistir à narrativa do medo e propor soluções que empoderem os vulneráveis, em vez de marginalizá-los.

🟢 Síntese — Visão Integrada

Chile: Kast, Segurança e Justiça Social | A Busca pelo Bem Comum

O panorama político chileno, com a recente posse de José Antonio Kast, oferece-nos um palco vívido para a reflexão sobre as tensões inerentes à vida em comunidade e os desafios perenes da boa governança. A ascensão de uma liderança com pautas de segurança e ordem, que ressoam com a ânsia de parte da população por estabilidade, coloca-nos diante de uma encruzilhada que não se resolve com a mera alternância de poder, mas exige uma compreensão mais profunda do que constitui uma sociedade verdadeiramente justa e próspera. Não se trata de escolher entre a liberdade ou a segurança, mas de discernir como ambas, em sua justa medida, contribuem para o florescimento humano.

O Anseio Legítimo por Ordem e Prosperidade

É inegável que o clamor por segurança e por uma economia robusta expressa um anseio legítimo da população. A experiência cotidiana do cidadão, que busca tranquilidade para prosperar e um ambiente onde o esforço seja recompensado, é uma preocupação autêntica. De fato, como já nos ensinava Aristóteles em sua *Ética a Nicômaco*, a vida virtuosa e, por extensão, a busca pela felicidade, só é plenamente possível em uma polis estável e ordenada, onde a lei protege e fomenta o desenvolvimento das potencialidades humanas. Contudo, essa legítima busca por ordem não deve ser instrumentalizada para justificar o esquecimento de outras dimensões fundamentais da vida em sociedade.

Os Riscos de uma Ordem Unilateral

Neste ponto, emergem as preocupações legítimas sobre os riscos de uma agenda que, ao priorizar a ordem de forma unilateral, possa desconsiderar a justiça social e a dignidade de todos os seus membros, inclusive os mais vulneráveis. A história nos alerta, e pensadores como Edmund Burke, embora defensor da ordem e da tradição, também nos advertem sobre os perigos de um poder desmedido, capaz de atropelar as liberdades e os direitos arraigados na experiência e no costume de um povo. O receio de que a retórica da crise possa encobrir a supressão de direitos ou a perpetuação de desigualdades é uma apreensão que merece ser abordada com seriedade e prudência.

A Lei Natural e o Bem Comum na Governança

A verdadeira superação deste embate ideológico encontra-se na perspectiva da lei natural e do bem comum, tal como São Tomás de Aquino o elucidou. A lei, para ser justa, deve visar ao bem-estar de toda a comunidade, e não apenas de uma parte dela. A prudência (*phrónesis*), como virtude central da política, exige dos governantes a sabedoria de encontrar o meio-termo entre os extremos: um excesso de ordem que resvale para o autoritarismo é tão deletério quanto a ausência de ordem que degenera em anarquia. O papel do Estado, portanto, não se restringe a coibir o mal, mas, sobretudo, a criar as condições para que cada pessoa possa viver uma vida digna e participar da construção social.

Construindo uma Sociedade Justa e Digna

Assim, uma governança orientada para o bem comum não pode negligenciar a segurança, mas esta deve ser exercida de forma a salvaguardar a dignidade inalienável de cada pessoa, coibindo a criminalidade sem desumanizar o imigrante ou o marginalizado. O crescimento econômico, por sua vez, só será verdadeiramente benéfico se seus frutos forem amplamente compartilhados, em conformidade com o princípio do destino universal dos bens e da subsidiariedade, que preconiza que os problemas devem ser resolvidos no nível mais próximo possível dos cidadãos, com o apoio de estruturas maiores quando necessário, garantindo que a solidariedade prevaleça.

Segurança e Justiça: Complementares e Interdependentes

A superação autêntica do debate, portanto, não reside em um compromisso superficial, mas na elevação da discussão para um patamar onde segurança e justiça não são antagônicas, mas complementares e interdependentes. É preciso construir uma sociedade onde a busca pela ordem não se traduza em exclusão, e a promoção da justiça não se confunda com a desordem. Isso requer uma liderança que, pela razão reta e pela virtude, saiba equilibrar as legítimas demandas da população por um ambiente seguro e próspero com a imperativa proteção da dignidade de cada ser humano e a promoção de uma participação social equitativa.

Em suma, o desafio do Chile, e de qualquer nação, é forjar um modelo de desenvolvimento que, arraigado na tradição e na lei natural, seja capaz de conjugar uma ordem firme com uma justiça social profunda. Somente assim se poderá construir uma república onde a liberdade responsável floresça, a dignidade humana seja inviolável e o bem comum, compreendido em sua plenitude, seja a bússola para todas as decisões públicas, garantindo a paz e a prosperidade para as gerações presentes e futuras.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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