ChatGPT e Humanidades: A Abdicação da Razão na Cultura

A NEH delegou ao ChatGPT o julgamento de projetos de humanidades, cancelando verbas por 'viés'. Um alerta sobre o perigo de entregar a razão e a cultura a algoritmos ideológicos.

🟢 Análise

A tentação de delegar o discernimento humano à fria eficiência da máquina é um mal antigo disfarçado em novidade tecnológica. No caso da Fundação Nacional para as Humanidades dos EUA, esta tentação se manifestou de forma quase grotesca: um departamento governamental, o Doge, sob a égide de uma administração ansiosa por “reverter” a cultura, entregou ao ChatGPT a tarefa de julgar projetos complexos de pesquisa. A pergunta binária — “O seguinte se relaciona de alguma forma com Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI)? Responda de forma objetiva em menos de 120 caracteres. Comece com ‘Sim’ ou ‘Não’.” — não era uma busca por clareza, mas uma senha para a guilhotina intelectual. E assim, verbas para estudos de línguas indígenas, digitalização de jornais de comunidades negras ou um documentário sobre mulheres judias no Holocausto foram sumariamente canceladas, reduzidas a uma etiqueta ideológica por um algoritmo.

A preocupação com o viés ideológico que por vezes perverte a academia e as instituições culturais não é, em si, ilegítima. Há, sim, um debate sério e necessário sobre a amplitude do conceito de DEI e se sua expansão indiscriminada pode, paradoxalmente, marginalizar outras narrativas ou sobrepor agendas políticas a uma genuína busca pela verdade histórica e cultural. É compreensível que cidadãos e eleitores, de diferentes espectros, questionem como os fundos públicos são utilizados e se representam um interesse nacional abrangente. No entanto, a forma como a administração Trump, via Doge, escolheu “corrigir” essa suposta inclinação ideológica não foi um ato de prudência nem de sabedoria política, mas de força bruta e superficialidade.

A Doutrina Social da Igreja, informada por São Tomás de Aquino, sublinha a importância da reta razão e da prudência no governo do bem comum. Reduzir a complexidade das humanidades a uma categorização “Sim” ou “Não” por uma inteligência artificial é uma abdicação vergonhosa do intelecto humano e da deliberação que deve preceder qualquer juízo, especialmente sobre questões de cultura e história. Não se trata apenas de uma falha de método; é uma falha moral. A autoridade legítima não se afirma pela imposição sumária de sua visão, mas pelo cultivo de um ambiente onde a verdade possa ser buscada, mesmo em meio à diversidade de perspectivas. O que ocorreu foi o inverso: a supressão de uma multiplicidade de vozes em nome de uma “folha em branco” para uma agenda monolítica.

Quando Michael McDonald, presidente interino do NEH, aceitou a lista de 1.477 verbas problemáticas e concordou em “começar do zero” com a agenda “América em Primeiro Lugar”, ele não estava reequilibrando o barco; estava inclinando-o perigosamente para o outro lado. A missão de “América em Primeiro Lugar”, com seu foco na “civilização americana, ocidental, judaico-cristã”, é uma visão que, por si só, pode ser legítima, mas não quando imposta pela exclusão sumária do que é percebido como divergente. Chesterton teria percebido o paradoxo: na ânsia de combater uma ideologia “woke”, criou-se uma nova ideologia de Estado, igualmente dogmática e intolerante, agora revestida da pseudo-objetividade de um algoritmo.

A beleza das humanidades reside precisamente na sua capacidade de explorar a plenitude da experiência humana, em todas as suas manifestações e contradições. Ignorar ou censurar partes dessa experiência, seja por um viés progressista excessivo ou por uma reação conservadora igualmente míope, empobrece a todos. A NEH foi fundada sobre o princípio de que “as humanidades pertencem a todos os americanos”. Mas a questão crucial permanece: quem define o que são “as” humanidades para “todos” os americanos? Certamente, não é um chatbot instruído por funcionários sem formação humanística, nem uma cúpula política que enxerga o financiamento cultural como mera ferramenta de guerra cultural.

A verdadeira vocação da cultura é elevar o espírito humano, fomentar o pensamento crítico e aprofundar nossa compreensão de quem somos e de onde viemos. Quando o Estado, ou seus proxies tecnológicos, busca moldar essa vocação a um molde ideológico pré-definido, ele não está servindo ao bem comum, mas sufocando a liberdade e a vitalidade da nação. Um governo que teme a inquirição intelectual, ou que a confunde com ativismo político, revela uma fragilidade alarmante. A integridade da razão não pode ser terceirizada a um algoritmo, nem a riqueza da história humana pode ser reduzida a um “Sim” ou “Não” partidário. A máquina, afinal, só pode amplificar a estupidez humana que a programa.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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