A notícia de que a CBF convoca os clubes para fundir as ligas do futebol brasileiro, Libra e FFU, assemelha-se à tentativa de erguer uma nova estrutura sobre alicerces já rachados. Não basta reunir blocos que, por si sós, mal conseguiram manter a coesão interna. A promessa de uma “liga unificada” e a importação de modelos europeus, embora sedutoras na superfície, podem converter-se em nova fachada para velhas assimetrias de poder, se não forem precedidas por um compromisso irrestrito com a justiça e a verdadeira autonomia dos corpos intermediários.
Os fatos são claros: o presidente da CBF, Samir Xaud, articula um plano de fusão entre 40 clubes das séries A e B, contando com o engajamento do Ministério do Esporte e da Câmara dos Deputados. A imersão de dirigentes em ligas europeias e a visita de Javier Tebas de LaLiga pintam um cenário de modernização e alinhamento internacional. Contudo, a experiência recente de “rachas” na Libra, com o Flamengo e o Atlético-MG mudando de lado, e o bloqueio de verbas pela liderança de Bap, somados à Ação Civil Pública contra a Sports Media Entertainment na FFU, são cicatrizes profundas que desvelam a fragilidade subjacente. A questão crucial, portanto, não é apenas a unificação, mas a natureza e os pilares dessa nova unidade.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XI sobre a subsidiariedade e a justiça social, nos alerta contra a tentação de centralizar o que pode e deve ser gerido de forma mais próxima e autônoma. O futebol, com sua miríade de clubes e paixões regionais, é um ecossistema complexo, um conjunto de “corpos intermediários” vivos que devem ter sua liberdade de associação e ação respeitada. Uma liga forte e duradoura não nasce da imposição de cima para baixo, nem da mera soma de forças fragmentadas, mas da articulação orgânica de suas partes, onde cada membro – do grande ao pequeno clube – tem voz e participação justa.
A justiça exige que o “plano de fusão” seja transparente em seus detalhes, especialmente nos mecanismos de governança e, crucialmente, na distribuição de receitas. O histórico de conflitos e a dinâmica de bloqueio de verbas sugerem que o poder financeiro tem sido um instrumento de dominação, não de fomento mútuo. Se a nova liga apenas replicar essa hierarquia, com os clubes de maior porte ou os alinhados à CBF ditando as regras e abocanhando as maiores fatias, estaremos diante de um arranjo meramente formal, destituído de uma ética distributiva que considere o desenvolvimento sustentável de todo o sistema futebolístico. A retórica de “progresso” e “alinhamento europeu” não pode servir para mascarar a ausência de um pacto verdadeiro, onde a honestidade intelectual prevaleça sobre os interesses particulares.
Nesse sentido, a transposição acrítica de modelos de ligas estrangeiras, sem a humildade de reconhecer as particularidades do contexto brasileiro, com sua imensa diversidade regional e profundas desigualdades, é um risco. A sanidade, como diria Chesterton em seu melhor paradoxo, muitas vezes reside em aceitar a realidade complexa, não em forçá-la a caber em abstrações lógicas ou modelos importados. O Brasil tem suas próprias “tretas internas”, como a fonte factual aponta, e elas não serão resolvidas por um mero rearranjo de cadeiras ou por um verniz de organização.
A questão premente é como garantir que a nova entidade não se torne mais um braço da CBF, ou um condomínio de grandes clubes, mas um autêntico espaço de solidariedade e gestão compartilhada. Isso implica em mecanismos de governança robustos, que garantam a autonomia dos clubes em relação à entidade reguladora máxima, e que ofereçam salvaguardas contra novos “rachas” e bloqueios de verbas. O desafio não é só construir uma liga, mas sim tecer uma rede onde cada fio, cada clube, sustente e seja sustentado, em um acordo justo e transparente que eleve a ordem comum do futebol nacional.
Uma liga brasileira verdadeiramente forte será aquela que honra sua própria identidade e investe na justiça interna, garantindo que o brilho dos grandes não ofusque a existência dos pequenos, mas que todos contribuam para um corpo que se quer inteiro.
Fonte original: Blog do Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.