A reluzente tinta fresca numa fachada pode enganar o olho, mas não a umidade que corrói os alicerces. Em Duque de Caxias, a recente sessão plenária dos vereadores exibiu um contraste incômodo entre o apelo do simbólico e a exigência do substancial, entre a urgência das aparências e a paciência da verdade que a realidade sempre impõe.
Não há como negar a gravidade da violência que destrói vidas e fere a dignidade humana dentro do próprio lar. É justo e necessário que o Estado intervenha, e o Projeto de Lei que amplia o monitoramento eletrônico de agressores é, em princípio, um passo na direção de maior segurança para as vítimas. Mas a discussão sobre a cor de uma tornozeleira — rosa, no caso, uma proposta local — é um desvio que trai a seriedade do tema. A eficácia de uma medida protetiva não reside na sua estética, mas na robustez operacional: um sistema de resposta rápida, monitoramento ininterrupto e, mais crucialmente, programas de reabilitação para agressores que abordem as raízes do comportamento violento. O Estado não pode chegar tarde, como bem disse o vereador, mas tampouco pode chegar apenas com a aparência da solução. A família, célula primeira da sociedade, deve ser o foco de uma política de segurança que não se contente com paliativos tecnológicos, mas que promova a paz e a ordem onde ela é mais fundamental.
A mesma dissonância entre números e realidade ecoou na pauta da saúde. A celebração do primeiro ano do Hospital do Coração São José, com milhares de atendimentos e procedimentos, é motivo de orgulho. Contudo, essa alegria dos números altos azeda quando confrontada com a denúncia de falta de regulação e insumos essenciais para procedimentos críticos como o cateterismo. A gestão pública deve à população a veracidade da informação. Não basta exibir volume; é preciso garantir qualidade, segurança e pleno acesso. A diligência dos vereadores, embora necessária, revela uma fiscalização reativa, não a proatividade exigida para assegurar que um serviço vital funcione com excelência desde o primeiro dia. O bem-estar do povo exige mais do que estatísticas; exige uma atenção diligente e honesta aos fatos.
Também a revitalização do Centro de Caxias e o combate à poluição visual, pautas legítimas para a ordenação da cidade, correm o risco de se perder na superfície. A ânsia por uma cidade “mais bonita e organizada” pode negligenciar os problemas estruturais de mobilidade, saneamento e a permanência de pequenos comerciantes. Um pacto para melhorar o Centro, como proposto, deve ser um projeto de justiça e de responsabilidade partilhada, não um esforço meramente estético que beneficie poucos em detrimento de muitos. O patrimônio da cidade, sua arquitetura e seu tecido social, são bens que devem servir a todos, e não apenas a uma imagem idealizada.
O que se manifesta, portanto, nesse caleidoscópio de discussões, é a perigosa inclinação a confundir a ação política com o espetáculo, a governança com a encenação. O povo de Duque de Caxias não é uma massa a ser entretida com anúncios e símbolos, mas uma comunidade viva com necessidades concretas. A eles é devida uma política edificada sobre a veracidade dos diagnósticos e a responsabilidade da execução. A verdadeira magnificência de uma cidade não se mede pela cor de uma tornozeleira ou pelo brilho de fachadas recém-pintadas, mas pela solidez dos lares, pela retidão das leis aplicadas e pela fidelidade ao real. A verdadeira obra do político é edificar, paciente e honestamente, um lar para o povo, e não um mero palco para a massa.
Fonte original: Home
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.