Quando o clamor da doença se ergue e a fila da espera se alonga, qualquer alívio é bem-vindo, como um copo d’água para o sedento. A chegada da Carreta da Saúde da Mulher em Colombo, para ofertar exames e consultas especializadas, é, sem dúvida, um gesto de atenção que alcança centenas de mulheres há tempos em penúria. Permite diagnósticos rápidos e desafoga, ainda que minimamente, um gargalo real na saúde pública, especialmente para aquelas acima dos 35 anos que aguardam na rede. Nesse sentido, é um curativo necessário para uma ferida exposta e dolorosa.
No entanto, a sabedoria não se contenta apenas com a urgência do curativo. O Magistério Social da Igreja, com a clareza de Pio XI sobre a justiça social e a subsidiariedade, adverte-nos a olhar além do gesto espetacular. O problema não é o alívio imediato — que é um bem em si — mas a tentação de o confundir com a cura. É o paradoxo moderno de investir na jangada de emergência enquanto a ponte principal para a saúde da comunidade continua desmoronando, ou mesmo nunca é construída com a solidez que a dignidade humana exige.
A mobilidade e a capacidade de 2.400 atendimentos em 30 dias para oito municípios da Região Metropolitana de Curitiba, por mais louváveis que sejam, apontam para uma assimetria gritante: a demanda reprimida é uma montanha, e a carreta, uma pá pequena a mover um punhado de terra. A preocupação legítima que se impõe é: qual o destino dessas mulheres após a partida da unidade móvel? Que rede permanente as acolherá para a continuidade do tratamento? A não ser que haja um plano robusto de integração e de fortalecimento das unidades de saúde locais, o risco é transferir a fila dos exames para a fila dos tratamentos, gerando uma nova angústia no lugar da esperança.
A responsabilidade das autoridades públicas não se esgota na oferta de soluções pontuais e de alto impacto midiático. A verdadeira justiça social, aquela que busca a ordem permanente dos bens e a equidade no acesso, exige que o Estado se volte para a edificação de estruturas duradouras. Os “corpos intermediários” — as Unidades Básicas de Saúde e Policlínicas, os hospitais regionais — devem ser os pilares de uma política de saúde. A centralização de recursos em ações itinerantes pode ser uma arma poderosa em mãos inexperientes, capaz de minar a capacidade local, ao invés de fortalecê-la conforme o princípio da subsidiariedade. O que se gasta em uma carreta temporária poderia, talvez, irrigar de forma perene os postos de saúde da região.
A Carreta da Saúde é, sim, um reforço bem-vindo, mas que não deve ofuscar a necessidade premente de investimentos contínuos e menos “fotogênicos” na saúde de base e na infraestrutura permanente. A comunidade de Colombo e dos municípios vizinhos merece um sistema de saúde que não seja uma miragem no deserto da carência, mas uma fonte perene de cuidado e dignidade. A verdadeira fortaleza de uma nação se manifesta não nos eventos pontuais, mas na capacidade de construir e manter instituições que sirvam ao homem em sua integralidade e no longo prazo.
A verdadeira vocação do poder público, à luz da Doutrina Social, é a de ser um construtor, não um mero promotor de eventos. O desafio reside em transformar o alívio temporário em um avanço sustentável, garantindo que a saúde da mulher não seja uma prioridade apenas quando uma carreta chega, mas um direito assegurado por uma rede sólida e bem gerida. A saúde de uma comunidade não se edifica sobre a areia das promessas e dos paliativos, mas sobre a rocha de um compromisso constante e de uma infraestrutura que perdure.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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