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Cálculo Cínico da Guerra: Falsa Vantagem e Caos Global

Criticar o cálculo cínico de uma guerra no Oriente Médio como 'benefício' é crucial. Este artigo expõe a miopia estratégica que ignora a interdependência global, a moral e o caos sistêmico, revelando uma falsa vantagem.

🟢 Análise

Há certas lógicas no palco geopolítico que, por mais sofisticado que se lhes tente dar o verniz de “estratégia”, não passam de um cálculo cínico e redutor. A premissa de que uma guerra no Oriente Médio entre potências como Estados Unidos e Israel contra o Irã, com o suporte logístico e de inteligência da Rússia ao Irã, pode de algum modo “beneficiar” a Rússia na sua contenda com a Ucrânia, é uma dessas construções. Tal visão, apresentada por alguns analistas, assume uma racionalidade tática que ignora os fundamentos da ordem moral e da própria realidade da vida humana, transformando nações e pessoas em meros peões num tabuleiro de xadrez em chamas.

O pesquisador Andrés Malamud, ao abordar este cenário, acena para uma série de desdobramentos preocupantes: a distração da Europa e dos EUA do conflito ucraniano, a valorização do petróleo que injetaria fôlego na economia russa e, paradoxalmente, a suspensão de sanções que o ex-presidente Donald Trump teria imposto, de certa forma “financiando o inimigo”. É uma preocupação legítima, pois o desvio de recursos e atenção ocidentais da Ucrânia é um risco real, e a cooperação russa com o Irã pode, sim, intensificar conflitos regionais. Igualmente compreensíveis são os alertas sobre fissuras na União Europeia e a possibilidade de que líderes ocidentais, inadvertidamente, reforcem adversários estratégicos.

Contudo, a ideia de que um conflito global e multifacetado resultaria em um “benefício” líquido para qualquer grande ator é uma simplificação perigosa que trai uma profunda falta de magnanimidade. Não é digno de uma verdadeira arte de governar conceber a própria segurança ou vantagem em meio à desordem generalizada de outros. Como ensinou Pio XII, o “povo” é uma entidade orgânica de comunidades e pessoas, com dignidade e anseios, enquanto a “massa” é uma coleção amorfa manipulável. Quando a geopolítica se reduz a uma fria contabilidade de ganhos e perdas, ignorando o clamor dos inocentes e a desestruturação de sociedades inteiras, trata-se o povo como massa, descartável em nome de uma miragem de vantagem.

A verdadeira questão, portanto, não é se a Rússia pode extrair algum ganho tático temporário de uma desgraça alheia, mas se tal “benefício” não seria, no fim das contas, um presente de grego, um cálice envenenado. A Antítese aponta corretamente para a “profunda interdependência do sistema global”: um conflito ampliado no Oriente Médio, longe de ser um evento isolado, desencadearia uma crise econômica global severa, com colapso de cadeias de suprimentos, recessão e instabilidade financeira. Esses choques sistêmicos, invariavelmente, minariam a capacidade de qualquer nação, inclusive a Rússia, de sustentar seus próprios projetos estratégicos e domésticos, transformando qualquer aparente vantagem em uma desestabilização contraproducente. É uma premissa que exige honestidade e veracidade: o mundo não é uma soma de silos independentes; é um organismo interligado.

Aqui, o paradoxo chestertoniano é elucidativo: a loucura moderna muitas vezes reside em uma lógica excessivamente linear, que perde de vista a totalidade do real. A acreditar que a desordem alata de uma parte do globo não contamina o todo é uma ilusão que só a soberba intelectual pode sustentar. A verdadeira sabedoria, portanto, não reside em calcular como tirar proveito da miséria alheia, mas em reconhecer que a ordem e a paz social global são bens inestimáveis, cuja violação acarreta custos imprevisíveis e universais. É uma humildade necessária diante da complexidade do mundo, que a pretensão de engenharia total costuma ofuscar.

A crítica de Pio XI à estatolatria, quando o Estado se erige em fim último e amoral, encontra um eco potente aqui. A ideia de que um conflito em uma região vital pode garantir o financiamento de outra guerra, ignorando a possível queda da demanda global por petróleo devido a uma recessão e as interrupções nas exportações, é uma projeção baseada em um controle irrealista sobre os mercados globais e a estabilidade regional. O juízo final é inequívoco: a busca por um “benefício” tão mesquinho e de curto prazo, à custa de uma instabilidade global potencialmente catastrófica, é uma falha moral e uma miopia estratégica de proporções lamentáveis. A paz duradoura não se constrói sobre as ruínas alheias, mas sobre a justiça compartilhada e o destino comum.

É preciso, pois, que as nações e seus líderes elevem o olhar para além do horizonte tático. A verdadeira segurança e a prosperidade autêntica nascem da reta ordem entre os povos, não do caos habilmente explorado. O silêncio das cidades devastadas não aplaudirá os ganhos momentâneos de nenhum jogador.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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