A notícia dos ataques próximos à central nuclear de Bushehr, no Irã, vem envolta em uma névoa de eufemismos. O relatório do Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA) confirma a extrema gravidade do incidente, a Organização das Nações Unidas (ONU) clama por paz e proteção de civis. Tudo isso é vital, sim, mas a polidez da linguagem diplomática mal oculta a verdade mais incômoda: a identidade dos agressores permanece um silêncio eloquente. A gravidade não está apenas no risco radiológico iminente ou no sofrimento das populações civis – um flagelo que a Igreja incessantemente condena – mas na corrosão da própria ideia de justiça internacional, quando a condenação genérica substitui a atribuição de responsabilidade.
É inegável a preocupação com a vida humana. Milhares de famílias deslocadas, hospitais e escolas destruídos, o acesso à ajuda humanitária impedido: são chagas que sangram e exigem uma resposta enérgica e caridosa. No entanto, a “prioridade absoluta” na proteção de infraestruturas nucleares e a condenação da “escalada de conflitos” perdem seu peso quando não há um dedo apontado para quem puxou o gatilho. Essa omissão não é apenas uma lacuna jornalística; é uma falha moral das instituições internacionais que se arvoram em guardiãs da paz e do direito. O direito à soberania de um estado, o Irã, é violado, suas infraestruturas atacadas, e a resposta parece mais interessada em gerir a percepção do risco do que em confrontar a causa fundamental da agressão.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja nos interpela. Não basta uma caridade sentimental que lamenta o sofrimento sem buscar suas raízes na injustiça. A paz, como nos ensinou Pio XI, é obra da justiça (“Opus iustitiae pax”). Uma ordem internacional que permite ataques militares contra alvos estratégicos de um país soberano, mantendo os agressores no anonimato, não é uma ordem justa; é uma ordem seletiva e, portanto, injusta. Tal seletividade fomenta a impunidade e incentiva futuras agressões, erodindo a confiança nas regras que deveriam governar a convivência entre as nações. A veracidade, outra virtude cardeal, exige que a verdade seja proclamada, mesmo quando incômoda ou inconveniente para certas agendas geopolíticas. Quem atacou? Essa é a questão que as instituições, sob o manto da “preocupação”, evitam responder.
O governo iraniano tem razão em classificar tais ataques como crimes de guerra. A lei natural e o direito internacional, ainda que imperfeitos em sua aplicação, condenam a agressão contra não-combatentes e infraestruturas civis, ainda que próximas a alvos militares. Quando a comunidade global hesita em nomear os perpetradores de um ato tão temerário – um ponto a 75 metros de um reator nuclear, uma distância que roça o desastre deliberado – ela se torna cúmplice, por omissão, da normalização da barbárie. A mensagem enviada é nefasta: para alguns, a impunidade é um privilégio. Isso não é uma “escalada de conflitos”; é uma violação flagrante da ordem.
Pensemos na ordem internacional como um grande edifício, cujos alicerces são a justiça e a verdade. Quando esses alicerces são minados pela omissão deliberada, pela covardia em nomear o agressor, todo o edifício balança. O OIEA, por sua própria missão, deveria zelar não apenas pela não-proliferação, mas pela segurança das instalações existentes em face de agressões externas. Sua “dura crítica” aos agressores anônimos soa vazia. O bem comum da humanidade, a paz mundial, exige mais do que meras expressões de preocupação. Exige investigação transparente, atribuição de culpa e, se necessário, sanções para aqueles que ameaçam a segurança global com atos de guerra irresponsáveis.
A insistência do Irã para que a comunidade global aja não é mero clamor político, mas um apelo por justiça. Ignorá-lo sob o pretexto de uma generalizada “escalada” significa aceitar um mundo onde as regras são para uns, e a impunidade, para outros. A verdadeira defesa da segurança nuclear e da dignidade da pessoa humana passará, inevitavelmente, pela coragem de nomear o agressor e de exigir a devida reparação e responsabilização. Do contrário, a “preocupação” internacional será apenas a cortina de fumaça de uma conveniência que, no final, custará a paz.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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