Um exercício militar multinacional, nomeado Cooperación XI, que inclui forças do Brasil e dos Estados Unidos, ocorre em 12 de março de 2026 em meio a um cenário de tensão diplomática, conforme reportado pelo Jornal Local. O treinamento é conduzido paralelamente a um debate nos Estados Unidos sobre a classificação de facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas. Embora o exercício seja apresentado oficialmente como humanitário, ele também visa testar a integração operacional entre tropas e sistemas de comando de diferentes países.
O treinamento permite que pilotos, comandos e centros de operações aprendam a atuar de forma coordenada em cenários multinacionais. Militares norte-americanos afirmam que "treinamentos bilaterais entre Brasil e Estados Unidos envolvem diferentes cenários operacionais, incluindo missões humanitárias, operações de paz, integração de sistemas de comando e controle e treinamento de combate em zonas urbanas", com o objetivo de "padronizar doutrinas e ampliar a interoperabilidade entre tropas de diferentes países". Exercícios conjuntos recentes incluíram simulações de combate aéreo e coordenação de missões operacionais. Entre os maiores treinamentos navais está o UNITAS, que envolve tiro real, manobras anfíbias e inspeções. A Operação CORE, planejada para Pernambuco com cerca de 350 militares dos dois países, foi suspensa em 2025 "após tensões diplomáticas". A Operação Formosa, da Marinha do Brasil, em algumas edições reúne mais de 2.500 militares.
A participação militar norte-americana acontece em um período de intensificação do debate nos Estados Unidos sobre a classificação de facções brasileiras como terroristas. Pela legislação norte-americana, grupos classificados como Foreign Terrorist Organizations "passam a ser alvo de sanções financeiras internacionais, bloqueio de ativos, ampliação da cooperação de inteligência e operações internacionais de combate ao terrorismo". Contudo, autoridades brasileiras manifestam resistência à classificação. No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva [PT], "a avaliação é que essa medida poderia abrir espaço para ações unilaterais e ampliar a interferência externa em questões de segurança interna".
O contexto diplomático reflete sensibilidade sobre o tema. Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro [PL], as relações militares entre Brasil e Estados Unidos registraram atritos institucionais. Antes das eleições de 2022, "comandantes militares norte-americanos chegaram a viajar a Brasília para alertar a cúpula das Forças Armadas brasileiras de que o governo do então presidente Joe Biden não apoiaria qualquer tentativa de ruptura democrática no país". Parlamentares do Senado norte-americano também apresentaram propostas prevendo "a suspensão de programas de cooperação militar caso houvesse ruptura institucional no Brasil". Após a eleição de Lula em 2022, Washington reconheceu o resultado e o diálogo foi retomado. No entanto, o cenário tornou-se novamente sensível após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos em novembro de 2024. Assessores do Palácio do Planalto avaliam que a discussão sobre terrorismo "pode abrir caminho para maior ingerência externa em assuntos internos e influenciar o ambiente político brasileiro às vésperas das eleições de 2026".
O exercício militar multinacional Cooperación XI, apresentado sob o manto da cooperação humanitária e interoperabilidade, deve ser lido com a necessária lente crítica. O relato factual, embora detalhado, tangencia as profundas assimetrias de poder que permeiam tais iniciativas, especialmente quando se inserem num cenário onde uma potência global busca redefinir as ameaças internas de outra nação. A aparente padronização de doutrinas militares esconde, na verdade, a tentativa de assimilação de paradigmas de segurança que nem sempre se coadunam com a realidade e os interesses soberanos do Brasil, sinalizando uma preocupante ingerência em assuntos de segurança interna e um potencial enfraquecimento da nossa autonomia política.
É fundamental questionar quem se beneficia primariamente dessas operações e qual é o custo real para a soberania e os direitos coletivos. A intensificação do debate nos Estados Unidos sobre a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, concomitante a esses exercícios militares, não é mera coincidência. Como bem argumenta Jessé Souza, a contínua dependência ideológica e material de parte das elites brasileiras em relação a agendas externas serve para desviar o foco dos problemas estruturais domésticos. A adoção de uma "guerra ao terror" nos moldes norte-americanos para combater o crime organizado, ao invés de enfrentar as profundas raízes sociais da desigualdade e da exclusão que alimentam tais fenômenos, representa uma externalização de responsabilidades e uma potencial criminalização de parcelas da população vulnerável.
A resistência do governo brasileiro à classificação dessas facções como terroristas é um ponto crucial, pois revela a consciência de que tal medida poderia legitimar ações unilaterais e aprofundar a interferência externa. Na perspectiva de Boaventura de Sousa Santos, a imposição de classificações e agendas por parte do Norte global sobre o Sul é uma manifestação da colonialidade do poder, onde as epistemologias e soluções para problemas locais são ditadas por centros hegemônicos. Isso não apenas mina a capacidade de auto-determinação democrática, mas também desqualifica as narrativas e estratégias construídas internamente para lidar com questões complexas de segurança pública, que demandam políticas públicas inclusivas e não uma abordagem meramente militarizada e punitiva.
Em vez de ceder a pressões externas que visam a militarização e securitização excessiva das questões sociais, o Brasil necessita fortalecer suas instituições democráticas e investir em políticas públicas que promovam a equidade e a justiça social. A verdadeira solução para o crime organizado e outras formas de violência passa pela democratização do acesso a oportunidades, pela educação de qualidade, pela saúde universal e pela geração de renda, elementos que constroem uma sociedade mais resiliente e menos suscetível à cooptação por grupos criminosos. A cooperação internacional deve ser pautada pela horizontalidade e pelo respeito mútuo, buscando a redistribuição de poder e recursos, e não a subordinação a agendas que servem a interesses geopolíticos alheios.
Brasil: Soberania e Segurança Nacional em Questão
O debate em torno do exercício militar Cooperación XI e a discussão sobre a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos revelam uma tensão perene e fundamental na arte de governar: como conciliar a necessidade de segurança com a salvaguarda da soberania nacional, tudo sob a égide do bem comum. Esta é uma questão que, longe de ser meramente tática ou diplomática, toca o cerne da prudência política e da responsabilidade de um Estado para com seus cidadãos.
As Preocupações com a Autonomia Nacional
Há uma preocupação legítima, veiculada por muitos, de que tais iniciativas, por mais que se apresentem sob a roupagem da cooperação humanitária e da interoperabilidade, possam, em última análise, mascarar assimetrias de poder e servir a agendas geopolíticas alheias aos interesses soberanos do Brasil. A história, como nos ensina Edmund Burke, é repleta de exemplos de como o abstrato e o "universal" podem desvirtuar o particular e o orgânico, impondo modelos que desconsideram as complexidades e a tradição de uma nação. A suspeita de que a militarização de questões sociais profundas, em vez de um enfrentamento estrutural da desigualdade e da exclusão, possa ser uma resposta simplista e perigosa, ecoa o clamor por uma política que olhe para as raízes da violência, não apenas para seus sintomas.
Crime Organizado e a Necessidade de Resposta Estatal
Contudo, a prudência aristotélica nos adverte contra o excesso e a carência. Se, por um lado, uma subordinação acrítica a paradigmas estrangeiros é danosa à autonomia, por outro, um isolacionismo absoluto ou uma negação da gravidade de certas ameaças transnacionais seria uma negligência temerária. O crime organizado em suas diversas manifestações, como o PCC ou o Comando Vermelho, não é um mero subproduto da pobreza que se resolverá apenas com políticas sociais de longo prazo; é uma força disruptiva que ataca diretamente a ordem jurídica, a paz social e a dignidade humana, exigindo do Estado uma resposta firme e eficaz no presente. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade da pessoa humana, não se cala diante da violência que a agride.
O Papel do Estado e o Princípio da Subsidiariedade
Aqui, os princípios tomistas da lei natural e da subsidiariedade nos fornecem um guia inestimável. É dever primário de um Estado proteger a vida e a segurança de seus cidadãos, garantindo a ordem e a justiça. Esta responsabilidade é, por natureza, indelegável. A subsidiariedade ensina que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo e competente. Assim, a segurança interna é, antes de tudo, uma questão brasileira, a ser resolvida por instituições brasileiras. Todavia, a realidade da criminalidade transnacional impõe a necessidade de cooperação. A questão, portanto, não é se devemos cooperar, mas sim como fazê-lo de forma a conservar a soberania e fortalecer nossas capacidades, e não as enfraquecer.
Rumo a uma Soberania Proativa e Discernidora
A superação genuína desse embate não reside na escolha entre a aceitação passiva de agendas externas ou uma negação ingênua da necessidade de cooperação, mas na construção de uma soberania proativa e discernidora. Isso implica que o Brasil deve definir suas próprias estratégias de segurança, balizadas pela razão reta e pelo bem comum, e buscar parceiros internacionais quando tal cooperação, avaliada com prudência, demonstre ser um meio eficaz para seus próprios fins. A negociação sobre a classificação de grupos criminosos como terroristas, por exemplo, deve ser conduzida com firmeza diplomática, garantindo que qualquer medida adotada preserve a autonomia nacional e não abra precedentes para ingerências indesejadas, ao mesmo tempo em que se reconhece a seriedade das ameaças.
Conclusão: Sabedoria na Governança Nacional
Em última análise, o caminho virtuoso reside na capacidade de um Estado de governar a si mesmo com sabedoria, discernindo os perigos e as oportunidades no cenário internacional. Tal sabedoria exige uma visão integrada que compreenda que o bem comum é indissociável de uma ordem jurídica justa, de instituições democráticas sólidas e de uma vigilância constante contra as forças que ameaçam a paz e a dignidade humana, sejam elas internas ou externas. A prudência nos convida a fortalecer a nação de dentro para fora, para que a voz do Brasil ressoe com autoridade e autonomia no concerto das nações, buscando a solidariedade quando ela serve aos propósitos de uma justiça maior.
Fonte original: JORNAL LOCAL
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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