Enquanto olhos ávidos se voltam para a Lua, sonhando com bases e colônias, os pés descalços de milhões de brasileiros ainda tateiam em um chão que carece de saneamento básico, educação digna e saúde acessível. A “nova corrida espacial”, catalisada pelo programa Artemis da NASA, que já conta com a participação brasileira, acende uma faísca de ambição e um desejo legítimo de inovar. Não há como negar o fascínio de projetos como o Space Farming, o satélite Selenita e o nanosatélite Garatéa, que prometem avanços em biotecnologia lunar e monitoramento climático extraterrestre. O setor espacial, afinal, movimenta centenas de bilhões globalmente, e a ideia de o Brasil não ficar para trás parece, à primeira vista, um imperativo estratégico em um mundo cada vez mais tecnológico.
Essa ânsia por protagonismo, no entanto, esbarra numa realidade terrestre que o polemista não pode ignorar. O Brasil, sim, tem a capacidade de gerar mão de obra qualificada e base tecnológica. Há uma preocupação legítima com a autonomia em infraestrutura espacial e com o potencial de gerar empregos de alta qualificação e valor agregado. Mas a verdade é crua: com um orçamento anual da Agência Espacial Brasileira (AEB) de meros R$ 100 milhões, e apesar de uma liberação recente de R$ 1 bilhão pela Finep — um valor expressivo, mas ainda pífio diante da escala global de US$ 138 bilhões anuais —, o país amarga a última posição do G20 em investimento espacial. A mera vontade de ascender, isolada da base real, não basta. A Doutrina Social da Igreja nos ensina que a ordem da caridade começa pela casa.
Aqui, a distinção tomista entre bens essenciais e bens de aperfeiçoamento torna-se crucial. A exploração espacial, em si, pode ser um bem, um avanço do intelecto humano e da técnica. Contudo, em uma nação onde a carência material ainda é uma chaga aberta, onde a saúde pública clama por recursos e a educação básica agoniza, o investimento maciço em projetos de longo prazo e retorno incerto para alcançar “protagonismo” sideral é uma inversão da reta ordem dos bens. A justiça social exige que os recursos escassos do Estado sejam primariamente dirigidos às necessidades fundamentais do povo. Não se pode falar em dignidade da pessoa humana enquanto se ignora a base de sua subsistência e desenvolvimento aqui na Terra. Pio XI, em suas encíclicas, advertiu contra a estatolatria; poderíamos hoje estender a crítica a uma forma de tecnolatria, onde o esplendor de um projeto técnico distante eclipsa as urgências de milhões. A humildade, aqui, não é falta de ambição, mas o reconhecimento das nossas prioridades mais prementes.
A tese de um investimento massivo para o espaço, destarte, não apenas falha na hierarquia dos bens, mas tropeça na falta de prudência e responsabilidade na governança. A “confusa governança ligada ao setor espacial no Brasil”, mencionada na própria tese, e o histórico de projetos que “entraram em falência no passado por falta de investimento regular”, não oferecem garantias de que bilhões adicionais seriam bem empregados. Quais são os mecanismos concretos de accountability? Como se evitará o “elefante branco” espacial, ao invés de “elefantes brancos” de infraestrutura terrestre? Sem um plano robusto que detalhe o retorno social e econômico, o cronograma realista e, sobretudo, um financiamento sustentável e transparente, corre-se o risco de desviar recursos de onde são mais urgentemente necessários para um poço sem fundo de promessas estelares.
Não seria, talvez, uma sanidade chestertoniana questionar a lógica que nos impele a mirar as estrelas mais distantes enquanto a fundação da própria casa geme por socorro? A grandeza de uma nação, para ser real e duradoura, não se constrói apenas em laboratórios de ponta ou em órbita lunar. Ela se edifica nas escolas que funcionam, nos hospitais que salvam vidas, na justiça que ampara o fraco e na infraestrutura que serve a todos. A perseguição de um “protagonismo” global no espaço, divorciada do fortalecimento das bases que sustentam a vida comum no país, é um delírio que confunde o ideal com a utopia, o legítimo avanço com a fuga da realidade.
O Brasil tem o dever de inovar e de participar do avanço tecnológico. Mas essa participação deve ser calibrada pela justiça e pela prudência, e não pela vaidade de um suposto “protagonismo” que custaria a dignidade de seu próprio povo. Os céus podem esperar um pouco mais, ou receber de nós o que podemos dar sem hipotecar o presente. A verdadeira realeza social de Cristo se manifesta na atenção aos mais pequenos, e não no brilho das ambições mais distantes. A ordem justa não é a que ignora o aqui e agora em nome de um futuro incerto e talvez inatingível.
Fonte original: Folha de Londrina
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.