Na grama de Orlando, em 31 de março de 2026, Brasil e Croácia se encontrarão em um amistoso que, para muitos, já carrega o peso de uma revanche, o ar de um juízo final. O calendário do futebol, por vezes, mais parece um roteiro de tragédias e heroísmos, onde a memória de um lance decide o valor de um futuro inteiro. É verdade que a Croácia eliminou o Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, um corte seco na carne da expectativa nacional. E não se pode negar a resiliência dessa equipe, que sob a batuta de Zlatko Dalic, com pilares como Livakovic, Gvardiol e, sobretudo, Luka Modric, garantiu sua vaga na Copa de 2026 com uma campanha sólida nas Eliminatórias.
Há, portanto, uma preocupação legítima em encarar um adversário que soube ser competitivo em grandes palcos, mantendo uma espinha dorsal de jogadores experientes e um técnico de longa data. Essa coesão é um dado objetivo. Entretanto, a tentação de congelar a imagem da Croácia no auge de 2022, transformando-a em um “algoz” eterno, é um reducionismo perigoso. A veracidade exige que olhemos para a totalidade dos fatos, e não apenas para o que convém à narrativa dramática.
O mesmo discernimento que reconhece a força passada da Croácia precisa encarar sua mais recente performance: a eliminação na fase de grupos da Eurocopa de 2024. Com dois empates e uma derrota, a equipe croata somou meros dois pontos. Onde estava ali o time “coeso, bem treinado e com muito potencial” que se quer projetar indefinidamente? A vida, e o futebol, não são estáticos. Jogadores como Luka Modric, que terá quase 41 anos no Mundial de 2026, representam uma glória que se aproxima do ocaso, não uma permanência intemporal. Ignorar esses sinais é flertar com a abstração, descolando-se da realidade concreta.
Um amistoso de preparação, realizado meses antes de um Mundial, é, por sua própria natureza, um campo de experimentação, um laboratório tático. Sua função é testar novas formações, integrar novos talentos e ajustar o sistema, não servir de palco para uma “revanche” ou um “termômetro definitivo” da prontidão de uma seleção. Atribuir-lhe um peso desproporcional é inflar uma bolha de expectativas que pode estourar com pressões desnecessárias sobre a comissão técnica e os jogadores, distorcendo a ordem dos bens que rege a preparação de alto nível.
Neste cenário de informações e contrainformações, a sanidade está em discernir a propaganda do progresso. Como Chesterton bem notaria sobre a loucura lógica das ideologias, é absurdo insistir em uma premissa — a Croácia como inabalável força mundial — quando a realidade recente — a Eurocopa 2024 — apresenta evidências contraditórias. A verdadeira prudência não se curva à comoção do momento nem à teimosia da memória, mas avalia os fatos com olhos limpos, sem permitir que o passado sequestre o presente.
A Seleção Brasileira, em seu próprio processo de reconstrução após diversas trocas de treinadores, necessita de um ambiente de trabalho que privilegie o desenvolvimento e a integração, e não a urgência de uma resposta imediata a um fantasma antigo. O confronto contra a Croácia é uma oportunidade valiosa de aprendizado, sim, mas seu resultado será apenas uma das muitas variáveis no complexo cálculo da preparação para a Copa do Mundo. A verdadeira medida da excelência não está em vingar-se de uma derrota pretérita, mas em construir, com realismo e disciplina, um futuro sólido.
Fonte original: R7
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.