Atualizando...

Brasil: Florestas, Saneamento e o Clamor por Justiça Social

Brasil: vasta riqueza hídrica e florestal, mas desmatamento e milhões sem saneamento persistem. O artigo analisa este paradoxo cruel e as soluções pautadas na justiça social e subsidiariedade.

🟢 Análise

É um paradoxo cruel: o Brasil, detentor de uma das maiores reservas hídricas do planeta e de biomas que são pulmões do mundo, ostenta também cifras vergonhosas de desmatamento e de milhões sem acesso a água potável e saneamento básico. A cada Dia Internacional das Florestas, em 21 de março, e Dia Mundial da Água, no dia seguinte, somos confrontados não apenas com a beleza da criação, mas com a chaga da sua degradação, um eco do que o Papa Francisco, na Laudato Si, tão bem descreveu: “Tudo está estreitamente interligado no mundo”, e “o clamor da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.

Os fatos são implacáveis. Mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas foram perdidos no Brasil desde 1985. A destruição não apenas libera gases de efeito estufa, mas desequilibra ciclos hídricos vitais. Paralelamente, a crise do saneamento atinge quase 90 milhões de brasileiros sem coleta de esgoto e mais de 32 milhões sem água tratada no meio urbano. As consequências são palpáveis: mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em 2024 por doenças relacionadas à precariedade do saneamento. Essa é uma tragédia em câmera lenta, um atentado contínuo à dignidade humana e à própria ordem natural.

Contudo, a gravidade dos fatos não autoriza a simplificação das soluções ou a retórica que demoniza sem discernir. É preciso encarar a verdade sem véus: a universalização do saneamento e a proteção de biomas em larga escala não são meras questões de “boa vontade”, mas exigem investimentos trilionários, complexos marcos regulatórios e uma governança que, infelizmente, é muitas vezes minada pela corrupção e pela fragilidade institucional. A crítica que ignora esses “trade-offs” ou que atribui a culpa apenas à “commodificação” dos recursos pode, ironicamente, desviar a atenção das causas reais e das soluções viáveis, esbarrando naquilo que Chesterton denunciaria como a loucura lógica de ideologias desconectadas do real.

A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, oferece um caminho mais robusto. A água e as florestas são, antes de tudo, bens naturais que servem à vida, parte da ordem criada e elementos essenciais para a dignidade da pessoa humana. Sua gestão não pode ser reduzida nem a um mero produto de mercado cego, nem a um objeto de estatolatria que centraliza todas as decisões sem considerar as realidades locais. A propriedade, seja da terra ou dos recursos hídricos, possui uma função social inegável. Não basta clamar pela proteção ambiental; é preciso garantir que as decisões sobre o uso da terra e dos recursos hídricos reflitam uma justiça distributiva e social, que assegure o acesso aos mais vulneráveis e preserve o patrimônio comum para as gerações futuras.

A solução exige a aplicação da subsidiariedade: o fortalecimento dos corpos intermediários – das associações de moradores às cooperativas, das empresas que investem em tecnologias sustentáveis aos conselhos de bacia hidrográfica. Não se trata de negar o valor econômico intrínseco aos recursos – o que seria irrealista –, mas de assegurar que seu manejo esteja subordinado ao bem da pessoa e da comunidade, respeitando a ordem natural e a função social. A crítica genérica a ‘governantes’ e ‘empresários’ é um reducionismo. A veracidade nos impõe buscar os mecanismos concretos que garantam a responsabilidade e a laboriosidade de todos os atores – públicos e privados – em cumprir seus deveres para com o bem comum.

O longo tempo estimado para universalizar o saneamento no Brasil – mais três ou quatro décadas nos níveis de investimento atuais – é uma denúncia de que não basta lamentar. O caminho para reverter este quadro exige a magnanimidade de um projeto civilizacional, com planejamento de longo prazo, marcos regulatórios claros, investimentos transparentes e fiscalização exercida por uma sociedade civil organizada e verdadeiramente engajada. Como alertava Pio XII, é o povo, e não a massa inerte, que deve exigir dos seus governantes e dos setores produtivos um pacto pela vida, que transcenda os ciclos eleitorais e os lucros imediatos.

Não é a terra que nos clama por benevolência, mas a justiça que nos convoca à ação, para que a água que flui não seja apenas recurso, mas a expressão visível de uma civilização que sabe honrar a vida.

Fonte original: O Documento

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados