O estrondo que rasgou a manhã em Minab, no sul do Irã, em 28 de fevereiro de 2026, não foi apenas o som de um míssil Tomahawk atingindo seu alvo, mas o estampido da pretensão moderna de uma guerra cirúrgica. Na escola Shajareh Tayyebeh, ao lado de uma base da Guarda Revolucionária, mais de cento e cinquenta crianças foram ceifadas, seus pequenos corpos transformados em pó e tragédia, enquanto o mundo, ou parte dele, ainda debatia a autoria do crime. Os Estados Unidos, após uma semana de negação presidencial e promessas de apuração, viriam a admitir a provável responsabilidade por um “erro de direcionamento”, uma falha técnica de inteligência que, no campo da moral, é um abismo de imprudência e irresponsabilidade.
Ainda que a investigação preliminar americana aponte para dados “desatualizados” como causa do bombardeio, reduzindo a catástrofe a uma falha burocrática da inteligência, o julgamento moral não pode ser tão simplório. Não se trata de uma peça de maquinário enguiçada, mas da vida de crianças inocentes, almas sem culpa ou defesa. A mera explicação técnica ofusca a preocupação legítima de que o “erro” é sintoma de um problema sistêmico mais profundo na distinção entre alvos militares e civis, uma chaga na doutrina de engajamento que permite que vidas humanas sejam categorizadas como “danos colaterais aceitáveis”. Reconhece-se a ambiguidade da situação, com a escola adjacente a uma unidade militar e parte de uma rede de ensino com ligações à corporação militar iraniana. No entanto, a lei natural, reiterada pelo Direito Internacional Humanitário e pela Doutrina Social da Igreja, estabelece que escolas são santuários e crianças, não-combatentes por excelência, são invioláveis. A proximidade de um alvo militar não transforma automaticamente um refúgio infantil em legítimo teatro de guerra.
Aqui, a virtude da prudência, tão cara a São Tomás de Aquino, revela sua ausência mais dramática. A prudência exige a reta razão em ação, a consideração de todas as circunstâncias para discernir o bem e agir corretamente. Como pode haver prudência quando uma nação com capacidade tecnológica para uma vigilância sem precedentes falha tão catastrófica e previsivelmente na salvaguarda da vida inocente? O uso de “dados desatualizados” num contexto de guerra letal não é um mero descuido; é uma falha grave na responsabilidade que se deve à dignidade da pessoa humana, uma omissão que tem consequências eternas. A falha não é apenas técnica, mas moral, uma vez que a vida das crianças era previsivelmente posta em risco.
A Doutrina Social da Igreja sempre insistiu que a guerra, mesmo quando defensiva, está sujeita a limites morais rigorosos. O princípio de distinção entre combatentes e não-combatentes, o princípio de proporcionalidade (o bem visado deve ser maior que o mal causado) e a necessidade de evitar danos aos civis são pilares da jus in bello. O bombardeio de Shajareh Tayyebeh com o resultado de centenas de crianças mortas representa uma violação brutal e inaceitável desses princípios. A alegação de “erro” não purga a culpa, mas a aprofunda, revelando uma incapacidade – ou uma indiferença – em priorizar a vida sobre a eficácia militar percebida. O poderio de uma nação não a exime da obediência à lei moral universal e à busca do bem comum.
A ironia chestertoniana explode neste cenário: a modernidade que prometeu precisão cirúrgica na guerra nos entrega uma barbárie de “erro”. Mísseis guiados por satélite, supostamente capazes de distinguir um fio de cabelo, atingem o centro de uma escola cheia de crianças, e o crime é justificado por uma desculpa que poderia vir de um arquivista desorganizado. Não é o progresso técnico que falha, mas a bússola moral que o guia, ou que deveria guiá-lo. A imagem de Mikaeil Mirdoraghi, a criança morta, brincando ingenuamente de “Irã contra Estados Unidos” na noite anterior ao ataque, em que ele se declara o “Irã vencedor”, é um eco assombroso de uma realidade em que a inocência é a primeira vítima, não um “dano colateral” aceitável, mas o preço incalculável da negligência e da desumanidade.
O fato de que nem os EUA nem o Irã reconhecem o Tribunal Penal Internacional, e o poder de veto americano no Conselho de Segurança da ONU, expõe uma grave assimetria de poder que mina a justiça internacional. Este cenário não pode servir de pretexto para a impunidade. Há um imperativo moral para uma investigação rápida, imparcial e exaustiva, com responsabilização real, e não meramente burocrática. Embora o Irã carregue a responsabilidade de ter exposto suas crianças ao risco ao posicionar uma escola ao lado de um alvo militar, esta falha não dilui a responsabilidade primária do atacante em garantir que sua ação não resulte em assassinatos em massa de civis. O mal praticado por um não justifica o mal respondido por outro, especialmente quando a vida inocente está em jogo.
O bombardeio da escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, não é um “erro” a ser arquivado, mas um grito moral que ressoa pelos séculos, exigindo justiça e lembrando que, na guerra, a primeira baixa real é sempre a verdade sobre a dignidade do homem. A precisão de um míssil jamais justificará a imprecisão da consciência.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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