Há cenas que se repetem com a frequência do infortúnio, e poucas são tão reveladoras quanto o corpo doente de um homem público no centro da arena política, transformado de paciente em peça de xadrez, de sofrimento em suspeita. Jair Bolsonaro, ex-presidente, encontra-se internado em uma Unidade de Terapia Intensiva com broncopneumonia bacteriana bilateral, um diagnóstico que por si só deveria bastar para evocar a mais elementar compaixão e o mais básico respeito pela dignidade da pessoa humana. Contudo, em um país onde a virtude parece estar em constante convalescença e o vício da desconfiança prospera, a enfermidade de um detento rapidamente se transmuta em “cheiro de acordão”, um fantasma que embaça a reta razão e distorce a verdade mais simples.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na lei natural e na filosofia tomista, é inequívoca: a dignidade da pessoa humana é inalienável e universal, antecedendo qualquer título, cargo ou mesmo qualquer acusação. São Tomás de Aquino nos ensina que o respeito pela vida e pela integridade física é um dos bens fundamentais que a lei humana deve proteger, mesmo e especialmente para aqueles sob custódia do Estado. O que, então, significa reduzir um quadro médico de febre alta, calafrios, vômitos e falta de ar, culminando em uma internação em UTI, a uma mera “manobra” para justificar um pedido de prisão domiciliar? Significa, em sua essência, negar a realidade concreta do sofrimento humano em favor de uma narrativa ideológica que vê em cada evento uma trama oculta.
O “cheiro de acordão”, essa abstração venenosa que emana dos “bastidores” e ecoa nas redes sociais, é um sintoma alarmante de uma desordem moral pública. É a expressão daquele tipo de mente que, como bem observou Chesterton, é tão aberta que o cérebro lhe cai para fora. A incredulidade sistemática, que desqualifica diagnósticos médicos confirmados e processos legais legítimos por mera suspeita sem provas, não é sinal de inteligência crítica, mas de uma profunda cegueira alimentada pela polarização. Ao invés de exercermos a prudência, que discerne a verdade e age conforme o bem comum, afundamo-nos no pântano do sentimentalismo político, onde a presunção de má-fé suplanta qualquer fato objetivo.
A aplicação da justiça, para ser reta, exige transparência e a estrita observância do devido processo legal. Pedidos de prisão domiciliar por questões de saúde grave não são privilégios recém-inventados, mas prerrogativas previstas em lei, que visam garantir a dignidade do detento e a eficácia do tratamento médico, conforme a Doutrina Social da Igreja sobre o cuidado dos doentes e a responsabilidade do Estado. Minimizar a broncopneumonia bacteriana bilateral como um mero pretexto não apenas deslegitima o sofrimento do paciente, mas também lança uma sombra de desconfiança sobre a autonomia dos profissionais de saúde e a imparcialidade do próprio Judiciário, pressionando juízes a tomarem decisões não com base na lei e nos laudos, mas na conveniência de uma narrativa popular.
O perigo maior reside na universalização deste ceticismo corrosivo. Se a enfermidade grave de um ex-presidente pode ser sumariamente descartada como artifício político, o que sobra para o cidadão comum, cujos males raramente alcançam a ribalta da imprensa? O princípio de solidariedade nos obriga a reconhecer que, ao rebaixarmos a dignidade de um, rebaixamos a de todos. A justiça não pode ser seletiva; ela deve garantir a cada indivíduo, independentemente de sua notoriedade ou dos erros que lhe são atribuídos, o direito fundamental à saúde e a um julgamento justo, livre das pressões de um circo midiático que troca a verdade pelos espetáculos da intriga.
É mister que separemos o que é problema moral real do que é vício ideológico ou abstração burocrática. A enfermidade de um homem é um fato. A suposta trama por trás dela, sem qualquer evidência concreta, é uma ficção. A obsessão pela conspiração, que faz o mundo girar em torno de interesses ocultos, é o que São Tomás de Aquino chamaria de um desvio da reta razão. O bem comum não se constrói sobre a desconfiança generalizada, mas sobre a verdade e a caridade.
Em última análise, a discussão sobre o “acordão” revela mais sobre a doença do corpo social do que sobre a do corpo de Bolsonaro. É a manifestação de uma sociedade que perdeu a capacidade de ver a humanidade para além dos rótulos políticos, preferindo a penumbra da suspeita à luz crua da realidade. A verdade é que a vida humana, mesmo na prisão e sob acusações graves, é um valor inestimável. Ignorar isso, em nome de uma suposta vigilância cívica, é apenas a triste confissão de que a ideologia, quando cega, transforma até a febre em febre de delírio coletivo.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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