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Bem-estar escolar: Exige Justiça e Recursos, Não Mero Idealismo

O bem-estar e a saúde mental nas escolas são cruciais, mas a coluna denuncia a farsa de implementá-los "sem recursos extras". Exige justiça social e investimento real na educação brasileira.

🟢 Análise

A notícia da vinda da pesquisadora Sue Roffey a São Paulo, celebrando a importância do bem-estar e da saúde mental nas escolas, em especial com o prêmio concedido à Pueri Domus, acende uma luz necessária sobre um aspecto crucial da formação humana. É louvável que se reconheça a integralidade do estudante, para além da mera memorização, e que se busque, com metodologias como a “Circle Solutions”, criar ambientes mais seguros, inclusivos e respeitosos. De fato, a educação, em sua plenitude, deve capacitar cada pessoa a desenvolver-se na sua melhor versão, e nisso a dimensão socioemocional tem papel insubstituível.

Contudo, a ingenuidade da premissa de que tais avanços podem ser implementados “sem recursos extras” e dependendo primariamente da “crença” e de meras “habilidades de facilitação” é um reducionismo perigoso, uma afronta à realidade mais crua. É uma miragem que, ao invés de construir, desvia o olhar dos verdadeiros alicerces de uma educação justa e eficaz. A ideia de que uma transformação tão profunda em escolas de um país tão desigual quanto o Brasil pode florescer apenas com boa vontade é, no mínimo, uma desonestidade intelectual com a qual o polemista católico não pode contemporizar.

A justiça, virtude cardeal que ordena as relações e distribui o que é devido, clama por uma verdade inegável: professores já exaustos, muitas vezes sobrecarregados com turmas numerosas e condições de trabalho precárias, não podem ser transformados em terapeutas ou facilitadores de debates complexos (como mudanças climáticas ou misoginia) sem a devida formação, suporte psicopedagógico e remuneração condigna. A expectativa de que escolas públicas em áreas de alta vulnerabilidade, desprovidas de infraestrutura básica, psicólogos escolares e assistentes sociais, possam absorver plenamente essa demanda “sem recursos extras” é uma farsa. Isso não é inovação; é um atestado de miopia para com o sofrimento e a carência real.

A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XI sobre a subsidiariedade e a justiça social, ensina que os corpos intermediários, como a escola, devem ser fortalecidos e apoiados, e não sobrecarregados com tarefas para as quais não possuem meios. A família é a primeira célula social, e sua função educadora, embora complementada pela escola, não pode ser substituída ou esvaziada. O Estado, por sua vez, tem o dever de garantir as condições materiais e profissionais para que a escola possa cumprir sua missão com dignidade. Reduzir a saúde mental e o bem-estar à gestão de “habilidades de facilitação” é ignorar a interconexão intrínseca entre o espírito e a matéria, entre a alma e as condições concretas de existência.

É preciso ter a magnanimidade de reconhecer a boa intenção da pesquisadora, mas a veracidade nos impele a denunciar a romantização de um ideal que, quando descolado da realidade material e da justiça devida aos trabalhadores da educação, serve apenas para camuflar o abandono. Um projeto de bem-estar que só floresce em escolas de elite, onde os recursos são fartos e o corpo docente já dispõe de suporte, corre o risco de aprofundar as desigualdades, transformando o “bem-estar” em mais um privilégio inacessível à maioria. A proibição de celulares ou o veto a redes sociais para menores de 16, medidas pertinentes, não substituem o investimento fundamental em infraestrutura, pessoal qualificado e tempo para o cuidado genuinamente humano.

O desafio não é se o bem-estar importa; ele importa sobremaneira. O nó górdio reside em como construí-lo sobre solo fértil, com os alicerces da justiça e da verdade, e não sobre a areia movediça de promessas vazias. Não se edifica uma casa sem tijolos, nem se nutre um povo sem pão. Da mesma forma, não se constrói uma saúde mental robusta em um sistema educacional carente e professores exauridos.

A verdadeira vocação da escola, em parceria com a família e a sociedade, é formar cidadãos íntegros, capazes de discernimento e de contribuir para a civilização. Mas essa formação, que inclui o cuidado com a pessoa em sua totalidade, exige um compromisso que vá além da retórica: pede investimento real, respeito profissional e, acima de tudo, a coragem de enfrentar as duras verdades sobre a desigualdade.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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