O chão de Beirute tremeu, uma vez mais, sob o estrondo da guerra, e com ele a frágil estrutura de uma trégua que mal havia ensaiado seus primeiros compassos. A capital libanesa, que um dia foi pérola do Oriente, viu-se novamente palco de um massacre, com 182 mortos e quase 900 feridos. Estes números, por si sós, são um clamor à consciência, um grito pela ordem moral que precede e fundamenta qualquer pacto entre nações. Mas, para além da tragédia humana imediata, o episódio desvenda a teia intrincada de meias-verdades e conveniências políticas que, amiúde, se disfarçam de diplomacia.
A dor dos civis libaneses, que fogem aos milhões do sul e do Vale do Bekaa, é uma realidade inegável e a primeira preocupação de qualquer juízo reto. Vidas ceifadas, lares destruídos, uma população “psicologicamente devastada” – tudo isso aponta para a necessidade urgente de justiça e misericórdia. Não há acordo geopolítico que justifique o abandono de um povo à própria sorte, transformando-o em mera massa de manobra no xadrez de potências. É precisamente a distinção que Pio XII fazia entre “povo” — comunidade orgânica, livre e responsável — e “massa” — conglomerado atomizado e manipulável — que nos obriga a olhar para as vítimas não como estatística, mas como pessoas de dignidade inviolável.
Contudo, a neblina da retórica busca obscurecer a verdade sobre os fatos. O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão, nasceu sob um véu de ambiguidades estratégicas. Enquanto o Irã do presidente Pezeshkian o condicionava à suspensão dos combates no Líbano, Donald Trump, pela Casa Branca, foi taxativo: o Líbano “não foi incluído no acordo” “por causa do Hezbollah”. A dissonância não é um mero detalhe, mas a fissura que expõe a fragilidade intrínseca de um pacto cujos termos são interpretados de forma antagônica pelas partes. Denunciar Israel como único sabotador, sem considerar essa contradição fundamental e a agência de todos os atores, é um reducionismo inaceitável para a veracidade.
O Hezbollah, ator não estatal, mas potência militar de fato no Líbano, que se autodeclara em “resistência ao ocupante” e entrou na guerra “em apoio ao Irã”, coloca o próprio Estado libanês em uma posição impossível. O primeiro-ministro Nawaf Salam e o presidente Joseph Aoun declararam, com razão, a ilegalidade do braço armado do Hezbollah, um passo fundamental para restaurar a soberania e a ordem legal. Mas esta declaração é, por ora, um ato formal que não encontra correspondência na realidade do terreno, onde o Hezbollah continua a operar e a envolver o Líbano em conflitos alheios à vontade do Estado legítimo. A ausência de controle efetivo sobre corpos intermediários beligerantes desestabiliza a ordem social e o bem da cidade.
Israel, por sua vez, age sob a prerrogativa da autodefesa contra um inimigo declarado que não apenas opera em suas fronteiras, mas que explicitamente rompeu uma trégua anterior e não se considera abrangido pelo cessar-fogo recém-negociado. A acusação de que Israel atacou “bairros sunitas” ou áreas “sem presença do Hezbollah” deve ser investigada com rigor e, se confirmada, condenada como violação do princípio da proporcionalidade e da distinção. Ataques indiscriminados contra civis são sempre inaceitáveis. Todavia, a mera intensificação de bombardeios contra uma força beligerante que não aceita o armistício, e que opera com impunidade dentro de um Estado vizinho, não pode ser sumariamente qualificada como “sabotagem unilateral” de um acordo que sequer o incluía ou o reconhecia.
A verdadeira justiça requer, antes de mais nada, a verdade. É preciso clarear o escopo e os compromissos reais do cessar-fogo, desfazendo a “ambiguidade estratégica” que serve apenas para alimentar a instabilidade. O Irã, ao apoiar e armar o Hezbollah, tem responsabilidade direta na escalada do conflito no Líbano. O Líbano, por sua vez, enfrenta o desafio premente de reafirmar a autoridade do seu Estado sobre todos os grupos armados em seu território, para que seu povo não seja eternamente refém de uma guerra que não é sua. Enquanto o véu da retórica e da desinformação permanecer, a tragédia de Beirute não será a última.
A paz não é a ausência de guerra a qualquer custo, mas a tranquilidade da ordem. E essa ordem só pode ser estabelecida quando a veracidade prevalece sobre o ardil, e a justiça sobre o mero cálculo de poder.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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