Não é a emergência de uma nova variante viral que mais assusta, mas a forma como a notícia dela é embalada para consumo público. A variante BA.3.2, cognominada “Cicada”, descendente da Ômicron, já se espalha por duas dezenas de países. Contudo, em meio às suas características de menor resistência imunológica e maior potencial de hospitalização para grupos vulneráveis, a Organização Mundial da Saúde proclama: “não é motivo para alarme”.
Esta dissonância não é um detalhe retórico. É o cerne de um problema moral e prático. A “Cicada” foi identificada pela primeira vez em novembro de 2024. É um fato. Apresenta um alto número de mutações. É um fato. Enfrenta menor resistência da imunidade prévia, seja por vacina ou infecção anterior. É um fato grave. E tem um maior potencial para elevar o número de hospitalizações, especialmente entre idosos, imunossuprimidos e pessoas com doenças crônicas. Outro fato inegável. Como, então, o conjunto destes fatos se traduz em “não é motivo para alarme”? Há aqui uma cortina de fumaça que impede a plena visibilidade da paisagem.
A doutrina social da Igreja, especialmente através das lentes de Pio XII, adverte sobre os perigos de reduzir o povo a uma massa passiva, desprovida de informação plena e do poder de discernir. A comunicação pública, sobretudo em matéria de saúde, exige a virtude da veracidade. Não se trata de insuflar pânico, mas de entregar a verdade integral, que permite a cada cidadão, e às comunidades intermediárias, assumir sua parcela de responsabilidade e agir com prudência. O Estado tem o dever de proteger, sim, mas esse dever se cumpre primeiramente pela honestidade intelectual e pela transparência, não por uma gestão da narrativa que edulcore os riscos.
No Brasil, o Ministério da Saúde afirma que a BA.3.2 ainda não foi registrada. Uma boa notícia, sem dúvida, mas que não pode gerar uma falsa sensação de segurança ou adiar a preparação. Enquanto isso, os reforços de vacinação previstos pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) são estritamente para os grupos prioritários — aqueles acima de 65 anos, a cada seis meses, ou pessoas com comorbidades. A médica infectologista Rita Medeiros corretamente sublinha que a imunidade dos mais velhos “tende a cair mais rapidamente”. Mas se a variante “Cicada” tem a capacidade de “escapar da proteção imunológica” mais facilmente, a restrição da vacinação não corre o risco de, paradoxalmente, aumentar a circulação viral na população em geral, elevando a probabilidade de contágio para os próprios vulneráveis que se pretende proteger? A justiça e a caridade exigem que se olhe para a teia social como um todo, onde a proteção de um grupo muitas vezes depende da mitigação do risco para todos.
É um paradoxo muito à Chesterton: tentar evitar o alarme suprimindo a informação completa, mas criando as condições para um impacto maior. A sanidade contra a loucura lógica das abstrações burocráticas reside no reconhecimento da realidade em sua plenitude. Em vez de simplesmente “monitorar” passivamente à espera da chegada da variante, seria mais razoável que se detalhassem os “critérios técnicos e operacionais” para o repasse de vacinas e se considerassem planos de contingência robustos para os sistemas de saúde, para além da mera distribuição “regular” de doses. A higiene das mãos é vital, sim, mas não pode ser a principal “vacina” contra uma variante que desafia a imunidade sistêmica.
A verdadeira ordem moral pública, tal como Pio XII a concebia, edifica-se sobre a confiança mútua e a clareza nas decisões. O bem da cidade não é um mero saldo de balanço, mas a integridade da vida comum, que exige do poder público a magnanimidade de expor a realidade como ela é, com seus riscos e incertezas, e a laboriosidade de preparar respostas que transcendam a mera gestão de crises. A comunicação transparente é a primeira e mais eficaz vacina contra o pânico desordenado e a desconfiança que corrói as fundações de qualquer sociedade. Um povo informado é um povo capacitado, não um rebanho a ser pastoreado com meias-verdades. A integridade da saúde pública exige a verdade sem véus.
Fonte original: Home
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.