A superfície da informação, em tempos de saúde pública, nem sempre revela a correnteza submersa. Enquanto a voz oficial aponta para a ausência de alarme diante da nova variante BA.3.2, conhecida como Cicada, os fatos científicos e a memória recente da pandemia sussurram uma advertência que não pode ser ignorada. É como se um capitão anunciasse mar calmo, mesmo sabendo que o navio navega sobre águas onde novas e potentes ressacas se formam, invisíveis aos olhos desatentos.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a Rede Global de Vírus monitoram a Cicada, descendente da Ômicron, identificada em mais de 23 países desde novembro de 2024. A ficha técnica não mente: a BA.3.2 ostenta um alto número de mutações, revelando uma capacidade notável de escapar à imunidade prévia, seja ela oriunda de vacinação ou de infecção anterior. Mais do que isso, apresenta um potencial real para elevar o número de hospitalizações, em especial entre os grupos mais vulneráveis: idosos, imunossuprimidos e pessoas com doenças crônicas. Ora, afirmar que tal sublinhagem “não é motivo para alarme”, enquanto se reconhecem tais atributos, não é apenas um otimismo seletivo; é um teste à veracidade da comunicação oficial.
A experiência amarga dos últimos anos ensinou-nos que variantes com elevada capacidade de escape imunológico, mesmo que inicialmente não se mostrem “mais agressivas” em termos de letalidade individual, podem gerar ondas massivas de infecção. E o volume, por si só, é um flagelo. Um alto volume de casos sobrecarrega sistemas de saúde, esgota profissionais, causa absenteísmo generalizado na força de trabalho e pode, sim, culminar em um número significativo de óbitos quando a população total exposta é imensa. A insistência na tranquilidade, sem uma consideração robusta sobre a real capacidade de disseminação da BA.3.2 e o declínio generalizado da imunidade na população, arrisca uma repetição de padrões que já deveríamos ter superado.
É aqui que a veracidade se impõe como virtude fundamental da governança pública. O povo, e não a massa, precisa de informações claras e completas para exercitar sua liberdade ordenada e cooperar com a saúde pública. Como ensinava Pio XII, a distinção entre “povo” – uma comunidade de indivíduos responsáveis e participantes – e “massa” – um aglomerado informe e passivo – depende da integridade da comunicação. As autoridades têm o dever de informar com a clareza exigida pela realidade, sem maquiagens retóricas, para que a resposta social seja consciente e eficaz. A simples afirmação de que o Brasil não tem registro da BA.3.2, sem detalhar a capacidade de vigilância genômica do país, soa mais como desejo do que como dado consolidado, especialmente quando a variante já circula em dezenas de nações.
A estratégia atual de vacinação, focada rigidamente em grupos prioritários, com doses anuais ou semestrais, merece um olhar mais detido. Se a BA.3.2 “enfrenta menor resistência da imunidade prévia da população” e a imunidade dos mais velhos “tende a cair mais rapidamente”, limitar o acesso à vacina à população-alvo definida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) não é uma abordagem preventiva para evitar uma nova disrupção social e econômica, mas uma medida conservadora que prioriza a contenção de casos graves em detrimento da prevenção da transmissão generalizada. A responsabilidade dos gestores públicos exige um plano de contingência que vá além da retórica da suficiência de doses para um segmento específico, abrangendo o impacto sistêmico que uma onda de infecções generalizadas pode acarretar.
Não se trata de instigar o pânico, mas de cultivar a laboriosidade na preparação e a honestidade na avaliação. O foco na “agressividade” da variante, muitas vezes reduzida à letalidade, ignora o impacto da transmissibilidade na sobrecarga hospitalar por volume, no absenteísmo da força de trabalho e nos efeitos a longo prazo da infecção, como a Long COVID. Os conselhos de higiene das mãos e de evitar ambientes lotados são válidos, mas não bastam para conter uma variante com alta capacidade de escape em um cenário de flexibilização geral das restrições e fadiga pandêmica.
A saúde pública é um bem da cidade que se edifica sobre a confiança e a transparência. Se as orientações oficiais não se alinham à plenitude dos fatos, a credibilidade é corroída, dificultando a adesão a futuras medidas necessárias. Um juízo reto exige que se observem as tendências, se antecipem os riscos e se prepare a sociedade para cenários que, embora indesejáveis, são plausíveis. A verdadeira prudência não é a que ignora as sombras, mas a que as ilumina para se mover com segurança.
Fonte original: Correio do Estado
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.