Quando a gloriosa camisa da Azzurra, bordada com o amor de uma nação e a memória de quatro estrelas mundiais, é arrastada para fora do maior palco do futebol pela terceira vez consecutiva, não é apenas um técnico que se despede ou um presidente que renuncia. É o clamor de uma ruína que se anuncia, revelando rachaduras mais profundas que a performance em campo. A saída de Gennaro Gattuso e a dança das cadeiras na Federação Italiana são, à primeira vista, um aceno à necessária responsabilização, um movimento que busca romper com a inércia de um fracasso repetido. Contudo, sem uma visão clara e corajosa, tais mudanças correm o risco de serem meras maquiagens sobre um edifício que exige reforma estrutural.
A ausência da Itália em Mundiais desde 2014 não se explica apenas por uma derrota pontual na repescagem para a Bósnia. O problema reside nas causas eficientes e formais que alimentam o corpo do futebol italiano: a falta de um plano estratégico de longo prazo, a negligência na formação de novos talentos e a crença de que a simples troca de nomes na cúpula ou no banco de reservas resolverá as questões fundamentais. A declaração de Gattuso, ao referir-se à “camisa da Azzurra como o bem mais precioso”, acerta no essencial, mas esse bem é alimentado por uma cadeia de justiça que vai desde as divisões de base até a estratégia nacional. Quando essa cadeia se rompe, o brilho da camisa se apaga, não por má vontade de um, mas por desordem de muitos.
A tentação de buscar “grandes nomes” como Pep Guardiola, Roberto Mancini ou Antonio Conte é compreensível. Evoca a esperança de um retorno imediato à glória. Mas, como Chesterton nos alertaria em seu paradoxo sobre a sanidade contra a loucura das ideologias, a busca por um gênio salvador, sem a devida reconstrução da base, é um sintoma da mesma doença que se pretende curar. É a ilusão de que a solução está em um ato mágico e isolado no topo, e não no paciente e laborioso trabalho de formação e desenvolvimento em todos os níveis. A verdadeira reforma pede a humildade de reconhecer que o sistema como um todo falhou e que a mera engenharia de elenco ou de comissão técnica não basta.
Um processo de “reformulação” autêntico, portanto, exige que a Federação Italiana de Futebol se volte à lei da subsidiariedade. Isso significa fortalecer os “corpos intermediários” – os clubes locais, as academias de base, as ligas juvenis – garantindo a eles os recursos e a autonomia para cultivar talentos, em vez de esperar que a seleção principal seja um mero balcão de exibição de estrelas estrangeiras ou de poucos prodígios. É preciso fomentar uma cultura de laboriosidade e responsabilidade que permeie cada campo de treino, cada categoria de base, com “transparência curricular” no desenvolvimento dos jovens atletas e a criação de “conselhos escola-família-comunidade” adaptados à realidade do futebol, onde o jogador é visto como pessoa integral e não como mera mercadoria.
A Eurocopa de 2020, embora um triunfo louvável, não pode servir de “cortina de fumaça” para os problemas estruturais que já se anunciavam. A glória momentânea, se não alicerçada numa infraestrutura sólida de formação e numa ética de longo prazo, é efêmera. O caminho para a restauração da Azzurra não se mede apenas em números de gols ou contratos milionários. Ele se constrói na capacidade de dar a cada um, desde o jovem calouro até o consagrado veterano, a justiça devida: a chance de desenvolver plenamente seu potencial, sem que o sistema o devore ou o ignore em nome de uma solução rápida e ilusória.
A camisa azul, para voltar a ser um estandarte de glória e não de luto, precisa mais do que um novo artífice no topo; precisa que a nação do futebol se curve com humildade para lavrar a terra em que seus talentos brotam, regando-os com a justiça devida à persistência e à formação integral, e não com o culto apressado ao gênio importado.
Fonte original: Correio do Estado
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