A miragem da autonomia tecnológica, cintilando no horizonte das micro e pequenas empresas, promete um oásis de custos reduzidos e liberdade digital. No tabuleiro das inovações, plataformas no-code, low-code e a inteligência artificial acenam como atalhos para que pequenos negócios, como a Ever Contábil, desenvolvam suas próprias soluções, abandonando o modelo de software como serviço (SaaS) que, para muitos, representa uma amarra recorrente. De fato, a capacidade de moldar ferramentas digitais às necessidades exatas da operação, evitando a padronização e o custo crescente de licenças externas, é uma perspectiva sedutora e, à primeira vista, um avanço legítimo da liberdade empresarial.
Contudo, a Doutrina Social da Igreja, ao valorizar a subsidiariedade e a vitalidade dos corpos intermediários como as MPEs, não ignora a necessidade de um discernimento rigoroso sobre a verdadeira natureza dos encargos assumidos. A autonomia, para ser autêntica e não uma mera ilusão, exige mais do que a simples troca de amarras; ela demanda uma profunda responsabilidade. O que se apresenta como redução de custos de licença, pode, na verdade, metamorfosear-se em um custo total de propriedade (TCO) substancialmente maior e menos previsível. A complexidade não desaparece; ela apenas se desloca para dentro da MPE, que, sem a estrutura e o know-how de uma empresa de software, pode se ver à mercê de novos riscos e dependências.
O alerta aqui é para a humildade diante do real, contra a soberba tecnocrática que supõe que ferramentas simplificadas eliminam a necessidade de expertise. Desenvolver internamente um sistema implica assumir a integralidade da gestão de segurança da informação, da conformidade regulatória (como a LGPD e as normas fiscais mutáveis), da escalabilidade para o crescimento futuro e da manutenção contínua. Sem uma governança tecnológica robusta, as MPEs podem acumular um “débito técnico” que, no longo prazo, se revela mais oneroso que qualquer licença SaaS, tornando a suposta autonomia um gargalo para a agilidade e a inovação. A dependência de “citizen developers” ou de plataformas base no-code/low-code também pode criar um novo tipo de “vendor lock-in”, com menor flexibilidade e controle sobre o futuro da solução.
O core business de uma micro ou pequena empresa, seja ela contábil, comercial ou de serviços, é o seu negócio principal, e não o de uma software house. O princípio tomista da ordem dos bens nos recorda que investir desproporcionalmente em um bem instrumental, desviando recursos e foco do bem principal (a atividade fim da empresa), pode conduzir a uma desordem prejudicial. A prometida “autonomia tecnológica” pode, paradoxalmente, sequestrar a autonomia estratégica, ao obrigar a MPE a dedicar talentos, tempo e capital a uma função que, para a maioria, não é a sua vocação primária, e para a qual não possui a especialização necessária para manter um nível de qualidade e segurança compatível com o mercado ou as exigências regulatórias. Chesterton, com sua perspicácia, talvez visse nessa “solução” a loucura lógica de quem, para evitar uma armadilha, constrói uma outra, mais intrincada, em seu próprio quintal.
Assim, embora a digitalização seja imperativa e a busca por soluções customizadas meritória, o caminho do desenvolvimento interno com tecnologias no-code/low-code/IA não é uma panaceia isenta de custos ou de nova servidão. Ele exige uma profunda reflexão e um cálculo honesto, que vá além da licença mensal do SaaS e contemple todo o espectro de responsabilidade: do treinamento contínuo da equipe à gestão de crises de segurança, da atualização regulatória à garantia de escalabilidade. Trata-se de um chamado à prudência e à fortaleza empresarial, para que a MPE avalie sua capacidade real de gerir o software como uma extensão de seu negócio, e não como um desvio de sua missão.
A verdadeira liberdade, tanto pessoal quanto empresarial, não reside na ausência de todas as dependências, mas na escolha consciente e responsável daquelas que melhor servem ao bem ordenado. O avanço tecnológico é um dom a ser utilizado, não uma divindade a ser adorada em cada uma de suas promessas. O discernimento, então, não está em negar o avanço, mas em ancorá-lo na rocha da realidade e da responsabilidade duradoura.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.