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Autolesão em Jovens: Além das Telas, as Raízes Sociais

Autolesão em jovens cresce no Brasil. O artigo desvenda as raízes do sofrimento, indo além das redes sociais para expor causas socioestruturais e propor reconstrução de laços autênticos e comunidades.

🟢 Análise

As cicatrizes, muitas vezes ocultas sob mangas compridas e sorrisos forçados, são o sintoma visível de um sofrimento invisível que assola as crianças e adolescentes do nosso tempo. Os dados são alarmantes e consistentes: globalmente, e com especial gravidade no Brasil, a autolesão se manifesta como uma epidemia silenciosa, cresceu 29% entre 2011 e 2022 em jovens de 10 a 24 anos no país, segundo a Fiocruz. Não se trata, em sua maioria, de um desejo de morrer, mas de uma tentativa desesperada de aliviar uma dor psíquica intensa demais para ser nomeada ou comunicada em palavras, como bem nota a psicanalista Carolina Nassau Ribeiro. É um grito mudo, transformado em corte, uma busca por controle onde só há desamparo.

Nesse cenário de vulnerabilidade, as redes sociais emergem como um fator agravante e contemporâneo, não a causa única, mas um catalisador potente de angústias preexistentes e novas. A “socialização sintomática” que leva jovens a aprender e replicar o cutting em grupos, na busca precária por conexão, é o paradoxo cruel da era digital: ferramentas desenhadas para unir acabam por isolar, massificando a dor em vez de forjar a verdadeira comunidade. O cérebro adolescente, neurologicamente programado para a aprovação social, vê em cada curtida e comentário uma dose de dopamina que vicia e cria uma dependência de validação externa, expondo a alma a um frenesi de comparações e padrões irreais de sucesso e beleza. A crítica à mídia irresponsável, que Pio XII já antevia, encontra eco nos desafios de hoje, onde a vida é reduzida a um espetáculo incessante.

No entanto, seria uma perigosa redução diagnóstica atribuir o aumento das autolesões exclusivamente ao reinado das telas. Essa visão, embora conveniente, desvia o olhar das raízes socioestruturais profundas do sofrimento juvenil. A verdade, muitas vezes incômoda, é que esta crise se aninha também em realidades de pobreza, desigualdade, violência doméstica e fragilidade de vínculos familiares, além de estressores ambientais e econômicos. Reduzir a complexidade a uma única fonte é uma falta de veracidade que impede a cura real. O problema é multifacetado, e exige-se caridade intelectual para enxergar o todo, e humildade para não buscar bodes expiatórios fáceis. A dificuldade de nomear a própria dor é um sintoma não só individual, mas de uma sociedade que perdeu o léxico da alma.

O fenômeno atinge as meninas de forma desproporcional, revelando uma vulnerabilidade particular a fatores como ansiedade, depressão e pressões sociais, que se somam a alterações hormonais e reatividade ao estresse. Isso impõe à sociedade a responsabilidade de oferecer respostas que respeitem a dignidade da pessoa humana em sua integralidade, considerando as especificidades de gênero e as expectativas culturais que pesam sobre elas. Não basta uma abordagem genérica; é preciso um cuidado que entenda e acolha a experiência concreta, e por vezes mais árdua, da adolescente. A família, como sociedade primeira e santuário da vida, defendida por Leão XIII, é a primeira e mais vital trincheira contra essa desintegração.

A via para a restauração não passa pela mera proibição, mas pela proposição e edificação de um mundo mais humano. É preciso fortalecer o que está perto, os corpos intermediários da sociedade: a família, a escola, as comunidades paroquiais e associações civis. O investimento em uma “educação por missão”, com “conselhos escola-família-comunidade” e “institutos de virtude” (como previsto em nosso repertório), é mais do que uma política pública; é um resgate civilizacional. Oferecer aos jovens ambientes onde possam desenvolver habilidades socioemocionais, tolerância ao estresse e, acima de tudo, relações autênticas, é um imperativo de justiça. É nas instituições que cultivam a verdade, a beleza e o bem que se oferece a contrapelo à superficialidade digital.

Não é, portanto, a mera restrição de telas que curará as feridas da alma, mas a reconstrução paciente de laços autênticos e de um sentido duradouro de pertencimento. O polemista católico, Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, nos lembraria que a verdadeira conexão não reside na multidão virtual que aplaude ou ignora, mas na intimidade da alma que se reconhece e se doa no próximo. A esperança para as novas gerações floresce onde a vida, em sua plenitude, é reconhecida como um dom, e onde a caridade se manifesta na construção de uma ordem social justa que nutre o espírito tanto quanto o corpo.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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