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Autoestima Infantil: Educação e o Perigo da Identidade Limitante

Creches no RJ buscam empoderar crianças com educação antirracista. Este artigo critica o risco de focar só na identidade de grupo, defendendo a formação integral e universal para a dignidade da pessoa.

🟢 Análise

A nobre aspiração de edificar a autoestima de uma criança, sobretudo em cenários de injustiça e violência, é um dever de caridade e justiça que toca o cerne de nossa vocação civilizacional. Como se observa nas iniciativas de creches no Rio de Janeiro, que buscam valorizar os saberes e fazeres periféricos e implementar uma educação antirracista em resposta a traumas comunitários, a intenção de proteger e empoderar é digna de reconhecimento. O esforço da Creche Municipal Betinho, na Favela da Chatuba, em dialogar com seu território e mostrar a “potência desse lugar” após a tragédia de uma operação policial, revela uma preocupação legítima com a memória e a dignidade das crianças ali presentes. No entanto, o mapa que nos guia nessa jornada de formação não pode ser desenhado apenas com as linhas da identidade de grupo, sob pena de nos desviarmos do horizonte mais amplo da pessoa humana em sua plenitude, correndo o risco de, paradoxalmente, aprofundar as divisões que se pretende superar.

A educação, em sua essência, não se reduz a uma ferramenta de reparação histórica ou de afirmação identitária. Embora deva reconhecer e combater as estruturas de pecado social, incluindo o racismo, sua função primordial é a formação integral da pessoa, em todas as suas dimensões: intelectual, moral, espiritual e física. Quando se propõe uma “educação antirracista” que deve “atravessar todo o trabalho pedagógico”, surge a preocupação legítima de que outras dimensões cruciais do desenvolvimento infantil, como o letramento, o numeramento e o pensamento científico – ferramentas universais de libertação e mobilidade social –, possam ser marginalizadas. A verdade sobre o que constitui uma formação plena para a criança exige que não se substituam os fundamentos universais por um foco exclusivo na particularidade de grupo.

A Doutrina Social da Igreja, ao falar da educação, recorda que a família é a primeira e principal educadora, cabendo à escola uma função subsidiária, de auxílio. Ora, uma pedagogia que centre a experiência infantil na identidade racial desde a primeira infância, com o risco de fixar a criança em categorias que ainda não compreende plenamente, pode gerar não a superação do preconceito, mas uma nova forma de polarização, ou mesmo de sobrecarga emocional. A caridade com que se deve amar e formar o pequeno exige veracidade: que ele seja auxiliado a enxergar-se como pessoa, portadora de uma dignidade intrínseca e universal, capaz de transcender as circunstâncias de sua origem, sem que, para isso, precise negar suas raízes ou sua história. A experiência nos mostra que, muitas vezes, a intenção louvável de combater narrativas de subalternidade acaba por criar uma contra-narrativa que, de tão idealizada, pode não equipar as crianças com a resiliência e o senso crítico necessários para navegar a complexidade do mundo real.

A valorização dos “saberes e fazeres periféricos” é, em si, um bem. A cultura de um povo, em suas manifestações cotidianas, é um tesouro que deve ser conhecido e respeitado. Entretanto, o verdadeiro sentido dessa valorização é enriquecer o repertório do educando, não substituí-lo pelos conhecimentos formais e universais que lhe abrirão as portas para o diálogo com o mundo globalizado. É um erro de justiça, e de lógica tomista, inverter a ordem dos bens: a dignidade de cada pessoa e sua capacidade de agir no mundo exige tanto o conhecimento de sua herança quanto o acesso ao saber universal que lhe permite a plena participação na vida social e econômica. Fortalecer a autoestima de crianças em situação de vulnerabilidade passa, antes de tudo, por lhes assegurar acesso à excelência em todas as áreas do saber, para que possam escolher seu próprio destino, e não apenas internalizar uma identidade atribuída.

O risco de uma “política identitária” na educação infantil é, em suma, o de reduzir o “povo” – essa trama complexa de indivíduos, famílias e comunidades, cada qual com sua unicidade e vocação – a uma “massa” homogeneizada por uma única categoria. A verdadeira justiça e a mais profunda caridade para com as crianças demandam um olhar que as veja como pessoas completas, sujeitos de sua própria história e capazes de aspirações que vão muito além de qualquer fronteira racial ou social. É preciso cultivar uma educação que inspire a magnanimidade de alma, que as capacite a construir pontes, e não a erguer muros em nome de uma identidade restritiva.

A verdadeira educação, portanto, não é aquela que reduz a criança a um papel pré-definido por sua origem ou por injustiças históricas, mas a que lhe desvenda um universo de possibilidades, forjando na alma as virtudes que a permitirão ler o mapa do mundo com veracidade, e trilhar seu próprio caminho com inabalável esperança e caridade. É assim que se constrói um futuro para além da subalternidade e da ideologia: não por reparações simbólicas que fragmentam, mas por uma formação que integra e eleva o ser humano em sua totalidade.

Fonte original: Home

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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