O asfalto fresco de um autódromo recém-inaugurado tem o cheiro da promessa, mas a promessa, por si só, não segura o alicerce contra a força de uma chuva torrencial. A euforia da MotoGP em Goiânia, um espetáculo de velocidade e paixão que retorna ao Brasil, vem embalada por um otimismo corporativo inegável. Carlos Ezpeleta, da Dorna Sports, agora sob o manto da Liberty Media, canta os louvores do sucesso de público e da pista “90% pronta”. A cidade de Goiânia, com sua energia e seu circuito “espetacular”, parece o cenário ideal para a expansão de um império global do esporte motorizado.
Contudo, por trás do brilho dos holofotes e da contagem de ingressos esgotados, ergue-se uma questão mais fundamental. O que significa, de fato, ter um autódromo “90% pronto” quando as chuvas, “muito, muito fortes”, alagam partes da estrutura e atrasam o cronograma no primeiro ano do evento? A prontidão não é um número abstrato na planilha de um executivo, mas uma realidade que se impõe à segurança dos pilotos, à logística dos técnicos e, sobretudo, à experiência do fã que se deslocou para assistir à corrida.
O discurso de “ajustes simples” e “planos muito simples” para resolver problemas de drenagem, em um país tropical onde o “calor faz a água emergir do solo”, soa mais como uma fórmula retórica do que um compromisso com a `veracidade` da engenharia. A subsidiariedade, pilar da Doutrina Social da Igreja, nos ensina que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo e competente. Mas aqui, a assimetria de poder é evidente: uma corporação global, com a vasta experiência da Fórmula 1, dita o ritmo e os padrões, enquanto o governo local de Goiás é instado a investir em infraestrutura, com promessas de um legado que precisa de garantias mais sólidas.
A questão central é a `justiça` na distribuição de encargos e benefícios. O investimento em infraestrutura hoteleira e de acesso, embora louvável, não pode recair desproporcionalmente sobre o contribuinte local como um custo unilateral de um evento global. É preciso que haja transparência sobre o orçamento detalhado, sobre as garantias contratuais para o parceiro público e sobre os dados independentes que comprovem a sustentabilidade das soluções propostas. Um autódromo que está “90% pronto” ainda é uma obra em aberto, e os “10%” que restam podem ser os mais onerosos e desafiadores, especialmente quando se trata de problemas estruturais críticos.
A ambição de expansão global da MotoGP, agora sob a batuta da Liberty Media, que busca replicar o sucesso da Fórmula 1 em novos mercados como o Brasil, a América Central e a Ásia, é compreensível sob a ótica comercial. Mas, como bem alertou Pio XII ao distinguir `povo de massa`, a comunicação e o espetáculo não podem ser meras estratégias de mercado para atrair “novos fãs” – inclusive, de forma curiosa, evocando a estatística de que “uma em cada quatro motos vendidas é comprada por uma mulher” como um dado mágico. A autenticidade do esporte, a paixão genuína que mobiliza `o povo` dos fãs, não se sustenta apenas com conteúdo de streaming e “planos simples” de marketing. Ela exige a solidez da experiência, a integridade da organização e o respeito ao lugar onde o evento acontece.
A promessa de um grande espetáculo global é sedutora, e o entusiasmo dos organizadores, até certo ponto, é compreensível. Mas a `magnanimidade` de um projeto civilizacional se mede não apenas pelo tamanho do seu alcance, mas pela solidez dos seus `alicerces` e pela equidade de suas `partes`. Goiânia pode, sim, se tornar um centro relevante no calendário da MotoGP, mas isso dependerá de um `compromisso de laboriosidade` com a realidade concreta, e não de um otimismo que subestima os desafios. A corrida não se ganha apenas na largada vibrante, mas na persistência em cada curva, na segurança de cada metro de pista, e na capacidade de honrar os acordos com os parceiros locais, para que o espetáculo seja verdadeiramente um `bem da cidade`, e não apenas uma glória efêmera.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.