O mapa das nações, como um antigo pergaminho, traça não apenas fronteiras físicas, mas também as linhas invisíveis de uma dívida histórica e moral. Na recente reunião ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), no Rio de Janeiro, a Argentina, sob a batuta de seu novo governo, optou por uma rota singular. Enquanto 20 outras nações africanas e sul-americanas avançavam na consolidação de uma agenda de cooperação para um oceano livre de tensões, Buenos Aires fez questão de registrar uma ressalva solene no comunicado final. O objeto da discórdia? Um trecho que falava das “mazelas da escravidão” e do racismo.
A objeção argentina, a única entre os 21 países representados na reunião, foi inserida de forma genérica, dissociando-se de “certas iniciativas e documentos” que, segundo o texto de sua embaixadora, “não refletem necessariamente entendimentos atuais ou compromissos universalmente assumidos”. A afirmação contrasta de forma gritante com um evento de apenas duas semanas antes, quando a Argentina se juntou a apenas Estados Unidos e Israel para votar contra uma resolução da Assembleia Geral da ONU proposta por Gana. Essa resolução, aprovada por 123 países e com 52 abstenções, reconhecia o tráfico de escravizados de origem africana como “o mais grave crime contra a humanidade”, sugerindo iniciativas de reparação, inclusive financeira. Como conciliar o compromisso declarado com a luta contra o racismo com a recusa em nomear e confrontar suas raízes históricas?
Poder-se-ia argumentar que a preocupação argentina reside em evitar compromissos financeiros abertos, ou em manter o foco da Zopacas em sua agenda principal de segurança marítima e meio ambiente. É uma preocupação legítima, de fato, buscar clareza sobre o alcance de acordos e não sobrecarregar fóruns com pautas secundárias. Entretanto, não se combate eficazmente uma doença sem reconhecer sua etiologia. As mazelas da escravidão não são um apêndice ideológico, mas um fundamento histórico real que moldou a demografia, a economia e a estrutura social de grande parte das nações do Atlântico Sul. Ignorar esse passado, ou minimizar sua gravidade, é comprometer a própria estrutura da justiça social que qualquer cooperação genuína deve almejar. A negação de uma verdade historicamente estabelecida e moralmente condenável, endossada por uma vasta maioria de nações na ONU, não é apenas um posicionamento pragmático; é uma escolha que fragiliza a ordem moral pública.
O paradoxo é gritante: uma nação que se declara empenhada na “promoção da igualdade e da dignidade humana de todos os seres humanos” decide que a memória do “mais grave crime contra a humanidade” não é digna de menção uníssona. É aqui que Chesterton, com sua perspicácia para a loucura lógica das ideologias, nos faria rir com amargor. Como se pudesse haver uma luta real contra o racismo que se recusasse a olhar para trás, para a fonte original de tanta desumanidade. A dignidade da pessoa humana, em sua plenitude, exige que se reconheça a chaga da escravidão não como um acidente infeliz, mas como uma perversão radical da ordem natural e da justiça.
Os países da Zopacas, ao pregar a importância da coordenação estratégica no combate à pirataria e ao roubo armado, e ao concluir uma convenção para a proteção do meio ambiente marinho, demonstram a seriedade de seus propósitos. Mas a paz e a cooperação no Atlântico Sul não podem ser edificadas sobre uma amnésia conveniente. Elas demandam que os parceiros enfrentem com veracidade as cicatrizes de sua história compartilhada. A retidão moral é o alicerce mais sólido para qualquer aliança duradoura.
Não basta apenas varrer a poeira para debaixo do tapete. A negação do que é devido à memória e à verdade histórica, por mais desconfortável que seja, não anula a dívida. Pelo contrário, apenas adia o acerto de contas e mina a confiança mútua. A retidão moral de uma nação, e a solidez de suas alianças, não se medem pela conveniência de seu silêncio, mas pela coragem de sua memória e pela firmeza de seu juízo.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.