A receita do médico, escrita em latim incompreensível, pode ser factualmente correta e vital para a saúde do paciente. Contudo, se o doente não compreende a substância, a dosagem ou a necessidade do tratamento, a desconfiança pode sabotar a cura. É essa a imagem que se projeta sobre o recente embate da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) contra a “desinformação” acerca da vacina da gripe. A agência, com justa razão, reafirma a segurança de um imunizante testado e necessário, rebatendo as mentiras que circulam pelas redes. Mas a comunicação unilateral, que apenas classifica o dissenso como “inverdade”, pode, paradoxalmente, aprofundar a fenda da desconfiança em vez de suturá-la.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem da sociedade, insiste que a autoridade legítima não se impõe apenas pela força do cargo, mas pela persuasão da verdade e pela formação da consciência. Pio XII advertia contra a redução do “povo” a uma mera “massa”, passiva e manipulável. O povo, com suas inquietações e questionamentos, mesmo quando equivocados, exige um diálogo, uma pedagogia, e não meramente um edito. É um erro de discernimento político, de prudência comunicacional, tratar a complexidade das objeções – que por vezes nascem de genuínas, ainda que infundadas, preocupações – como uma simples patologia a ser extirpada por decreto.
As “mentiras” sobre timerosal, Octoxynol-10 e formaldeído, prontamente desmentidas pela Anvisa com base em evidências científicas sólidas, revelam um sintoma, não a raiz do problema. A raiz está na dificuldade de um setor da população em processar informações técnicas, aliada a um ceticismo crescente em relação às instituições. A Anvisa acerta ao afirmar que as doses dessas substâncias são ínfimas, rapidamente eliminadas ou naturalmente presentes no corpo. Mas a veracidade da informação não basta; é preciso que essa verdade seja acessível, compreensível e persuasiva para além dos muros da academia e dos gabinetes regulatórios.
A responsabilidade da autoridade sanitária, portanto, transcende a mera refutação. Exige uma caridade intelectual que se debruce sobre as preocupações legítimas dos pais e cuidadores, dos cidadãos com baixo letramento científico. Como disse Chesterton em outra ocasião, o “senso comum” que defende a casa e o pequeno muitas vezes teme as grandes abstrações da ciência sem explicação. O desafio não é calar a “mentira”, mas educar a inteligência, fornecendo, de forma proativa e didática, as fontes e os estudos que a Anvisa menciona como base de sua autoridade. A transparência radical, neste caso, é um ato de justiça para com o cidadão e um investimento na saúde da polis.
A campanha de vacinação contra a gripe, crucial para crianças, idosos e gestantes, e que precisa ser anual devido à mutação do vírus, merece mais do que a luta reativa contra a desinformação. Merece uma estratégia de comunicação que construa pontes, que antecipe as dúvidas, que apresente as evidências de forma visual e compreensível, que engaje as comunidades e os líderes locais. Um simples rótulo de “mentira” pode, paradoxalmente, reforçar em alguns a narrativa de que existe “algo a esconder”, instrumentalizando a agência como parte de uma “guerra de narrativas”, quando deveria ser uma voz de clareza e confiança.
A Anvisa está correta em defender a ciência e a saúde pública, e o imunizante é, sem sombra de dúvida, seguro. Mas a guerra contra a desinformação não se vence apenas com a força da verdade factual, e sim com a pedagogia da verdade. A vacina protege o corpo, mas a confiança social se edifica quando a autoridade, além de sábia, se mostra também humilde e pedagoga.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.