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Geopolítica e Verdade: O Custo do Anti-imperialismo Ideológico

Disputa DCO-PSTU: o anti-imperialismo que sacrifica a verdade por conveniência política. Analisamos regimes autoritários, direitos humanos à luz da Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

É tentador olhar para a contenda entre facções da esquerda radical sobre geopolítica e desdenhar a retórica exaltada como mera disputa menor. Contudo, na raiz da troca de acusações entre o Diário Causa Operária (DCO) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) reside uma questão de peso muito maior, que transcende a cor da bandeira ideológica e atinge o próprio alicerce da justiça e da veracidade: a tentação de moldar a realidade aos contornos de uma conveniência política, mesmo quando ela implica o sacrifício da dignidade humana e a supressão da verdade.

O DCO investe contra o PSTU, acusando-o de “mentir” e “bater continência para o Mossad” por criticar regimes como o iraniano, o russo e o chinês. No centro da discórdia, números de mortos em protestos no Irã são veementemente contestados, com o DCO desqualificando fontes ocidentais e apresentando suas próprias estatísticas — como 3.117 mortos, 690 deles “provocadores”, e uma mobilização pró-governo de “30 milhões de pessoas” — sem a devida transparência ou lastro independente. Há uma legítima preocupação, portanto, de que, sob o manto de um “anti-imperialismo” geopolítico, se acabe por endossar ou legitimar regimes autoritários, ignorando suas violações de direitos humanos e a genuína luta por autonomia de seus povos, reduzindo-os a meros peões de uma conspiração externa.

A Doutrina Social da Igreja adverte, com Pio XI, contra a estatolatria – a adoração idólatra do Estado – seja ele qual for a bandeira ideológica que ostente. Não se pode confundir a defesa de um povo ou de uma nação contra a agressão externa com a justificação incondicional de um regime que pode, internamente, oprimir seus próprios cidadãos. Pio XII, em sua distinção entre “povo” e “massa”, recordou que o povo é uma comunidade orgânica de indivíduos livres e responsáveis, enquanto a massa é um aglomerado informe e facilmente manipulável. Quando se fala em “30 milhões de pessoas” saindo às ruas para defender um governo, sem espaço para a voz dos dissidentes, dos que protestam, dos que sofrem, corre-se o risco de transformar o povo em mera massa, instrumentalizada por uma narrativa conveniente.

A justiça, virtude cardeal, exige que a verdade seja dada a cada um, inclusive na forma da informação fidedigna. Rotular qualquer crítica a governos não-ocidentais como “pro-imperialista” ou alinhada a serviços de inteligência estrangeiros, sem provas cabais e transparentes, é um reducionismo ideológico que fere a veracidade e impede o debate sério. É imperativo que se apresentem evidências verificáveis para os números de mortos, para a suposta melhora contínua dos direitos das mulheres no Irã, ou para a afirmação categórica de que “Taiwan é território chinês”, desconsiderando a aspiração de autodeterminação de um povo que, de fato, se governa. A mídia responsável, como recordava Pio XII, tem o dever de ser instrumento de verdade e de bem, não de propaganda.

Chesterton, em sua defesa da sanidade contra as loucuras lógicas das ideologias, diria que o grande paradoxo moderno é abraçar a liberdade para si e negar a mesma liberdade ao outro, especialmente quando esse outro está sob um regime que convém à sua própria agenda geopolítica. A liberdade ordenada, defendida por Leão XIII, não é apenas um direito contra a opressão ocidental; é um princípio universal que protege o indivíduo e as comunidades intermediárias contra a asfixia de qualquer Estado que pretenda arrogar para si a totalidade da vida social e a exclusividade da verdade. Negar a voz do dissidente iraniano ou a autonomia do povo taiwanês sob o pretexto de combater o imperialismo ocidental é construir uma nova gaiola ideológica, apenas com grades pintadas de outra cor.

Em suma, a disputa em tela revela que a luta contra o imperialismo, para ser moralmente legítima e intelectualmente honesta, não pode se valer dos mesmos subterfúgios e violações que condena. A verdade não é uma arma descartável a ser empregada apenas contra o adversário político externo. Ela é o fundamento da justiça. O silêncio cúmplice diante da opressão interna, mesmo quando praticado por um inimigo do inimigo, não é anti-imperialismo, mas uma capitulação à conveniência ideológica, um novo tipo de servidão que oprime a consciência e obscurece a reta razão.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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