As águas da Baía da Ilha Grande, um espelho d’água de beleza paradisíaca no litoral fluminense, revelam agora um paradoxo que exige mais que a mera celebração ecológica: é um santuário para tubarões ameaçados, incluindo os galhas-pretas e jovens tubarões-tigre, mas um santuário gestado, em parte, pelo calor artificial de uma usina nuclear. A ciência, ao desvendar a aglomeração inédita de galhas-pretas na Enseada de Piraquara de Fora e a provável função de berçário para os tigres juvenis, oferece-nos um conhecimento vital sobre a urgência da conservação marinha. Tubarões, afinal, são sentinelas da saúde dos oceanos, e a drástica queda de 65% em sua população global é um grito que não podemos ignorar.
Contudo, a verdade, para ser plena e não meramente seletiva, precisa ir além da exaltação unilateral. A concentração de vida marinha, impulsionada pela pluma térmica de até 35°C da usina nuclear de Angra, impõe uma realidade complexa. Reduzir a presença de predadores de grande porte, mesmo que não naturalmente agressivos, a uma narrativa de “ausência de perigo” é um atalho perigoso. O aumento da interação humano-fauna selvagem em águas frequentadas por turistas e pescadores eleva, intrinsecamente, a probabilidade de encontros indesejados e incidentes. Não se trata de insuflar o pânico do “monstro do cinema”, mas de reconhecer a sanidade contra a loucura lógica de ideologias que prometem o risco zero em ambientes de imprevisibilidade natural.
A questão central, portanto, não é apenas salvar os tubarões, mas discernir como a vida comum da Baía da Ilha Grande pode florescer em sua integralidade, respeitando a ordem dos bens. A Doutrina Social da Igreja, em sua insistência na justiça e na prudência, lembra-nos que a conservação da criação deve estar em harmonia com a dignidade da pessoa humana e com o dever de assegurar a subsistência das comunidades locais. Propostas como transformar o galha-preta em “atração turística” sem um plano robusto de gestão de riscos e comunicação responsável podem ser imprudentes. A história está repleta de exemplos onde a exploração insensata do “natural” para o entretenimento gerou mais problemas do que soluções.
É fundamental, aqui, a virtude da justiça. Ela exige não apenas que se protejam os animais, mas também que se considerem os direitos e o modo de vida dos pescadores e das comunidades caiçaras. Se restrições de uso se fizerem necessárias para a proteção dos berçários, como a lei natural e a ordem pública podem exigir, então a compensação e o envolvimento efetivo dessas comunidades não são um favor, mas um imperativo de direito. A propriedade, mesmo a coletiva e difusa dos recursos marinhos, deve ter uma função social que inclua a preservação dos meios de subsistência e a participação daqueles diretamente afetados pelas decisões. Não se trata de esmagar os corpos vivos da sociedade em nome de uma agenda externa.
Para que a Baía da Ilha Grande se torne, de fato, um exemplo de convivência e conservação, é preciso ir além do entusiasmo inicial. Necessita-se de um plano de manejo que contemple os impactos de longo prazo da pluma térmica da usina, garantindo que um atrativo artificial não se converta em uma vulnerabilidade oculta. Exige-se a veracidade na comunicação pública, admitindo os riscos reais e não apenas minimizando-os. E, sobretudo, requer-se um compromisso com o solidarismo, onde os custos e benefícios da conservação sejam compartilhados, e não impostos, envolvendo ativamente os que habitam e vivem do mar.
A tarefa que se apresenta não é um jogo de soma zero entre o homem e a natureza, mas um desafio de reta ordenação. O florescimento da vida em suas múltiplas formas, incluindo a humana, exige a verdade como alicerce e a justiça como arcabouço.
A verdadeira grandeza de um santuário se mede não só pela vida selvagem que ele abriga, mas pela sabedoria com que a comunidade humana zela por ele, sem ilusões nem omissões, garantindo a paz entre o homem e o mar.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.