O clamor pelo hexacampeonato assombra a Seleção Brasileira como um espectro. A ânsia por reverter um jejum de duas décadas e meia, compreensível em uma nação cuja identidade se entrelaça com o futebol, muitas vezes transborda para um veredito sumário, onde o tribunal da opinião pública condena antes que o jogo mal comece. É nesse cenário de pressa e paixão desenfreada que a figura de Carlo Ancelotti, técnico pentacampeão europeu, é colocada no patíbulo, julgada com base num recorte estatístico tão exíguo que mal permite esboçar um padrão.
Sim, o Brasil aguarda um novo título mundial, e a busca por uma identidade tática consistente, bem como a adaptação dos jogadores que brilham na Europa para o manto canarinho, são desafios reais e preocupações legítimas. A performance irregular de atletas em seus clubes e na Seleção é um ponto que exige atenção tática e psicológica. Mas a urgência do desejo não pode ser a mãe de um julgamento precipitado, que confunde um andaime em fase inicial com uma ruína já estabelecida.
Avaliar a gestão de um técnico do calibre de Carlo Ancelotti, detentor de um palmarés invejável no mais alto escalão europeu, com base em apenas nove jogos, é uma temeridade que desafia a reta razão e a devida justiça. É a sanidade da experiência que se contrapõe à loucura lógica que exige uma safra completa de uvas em tempo de plantio. Chesterton, talvez, observaria o paradoxo de se demandar a perfeição imediata de um homem que construiu impérios futebolísticos em contextos variados, enquanto se ignora o tempo orgânico necessário para que uma equipe se forje e um sistema tático se enraíze. Reduzir a carreira de um profissional a supostos “fracassos” pontuais, ignorando um currículo de conquistas globais, é uma forma de má-fé intelectual.
A retórica da “pior safra da história” ou a desqualificação de atletas de renome mundial como “gatinhos” na Seleção — enquanto são “leões” em seus clubes — é um exemplo de comunicação que Pio XII, em sua sabedoria sobre o povo e a massa, advertiria como prejudicial à ordem moral pública. Alegar que “Tite deixou o Brasil terra arrasada” ou exaltar um “Mundial de Clubes espetacular em 2025” para um técnico local, enquanto o evento ainda não ocorreu, são projeções ou alegações sem lastro factual, que servem mais para polarizar do que para discernir a veracidade dos fatos. A verdade, no futebol como na vida, é complexa, e a responsabilidade por derrotas em Copas não se abate unilateralmente sobre dois ou três nomes, mas se distribui pelo coletivo e pelo plano de jogo.
Tal postura, que transforma uma análise de mérito em um acalorado manifesto passional, revela a tensão entre o “povo” — capaz de discernimento e paciência — e a “massa” — suscetível ao apelo fácil e ao emocionalismo da crítica destrutiva. O trabalho de Ancelotti não é comandar uma “canoa furada” à deriva, mas sim pilotar uma embarcação que precisa de tempo para testar seus remos e sua vela, antes de enfrentar as tempestades da Copa. A Doutrina Social da Igreja sempre nos lembra da importância dos corpos intermediários e do fortalecimento do que está perto, ou seja, de dar estrutura e tempo para que a construção orgânica de um projeto se dê, sem esmagar as iniciativas em nome de uma pretensa salvação centralizada ou imediata.
A busca pelo hexacampeonato, destino comum da nação, não se dará por atalhos retóricos ou por condenações sumárias. Exige a laboriosidade paciente de um trabalho contínuo, a veracidade na avaliação dos progressos e tropeços, e a justiça de se dar o tempo e os meios para que um projeto se consolide. O futebol, como a própria vida da sociedade, é um organismo que precisa ser cultivado com cuidado, não arrancado pela impaciência ou demolido pela pretensão de que tudo deve ser perfeito desde o primeiro momento.
Que a paixão pelo jogo não obscureça a sabedoria de que a glória se constrói passo a passo, e que as sementes do sucesso requerem o seu devido tempo sob o sol antes de florescerem em vitória.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.